quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Presente

 Por Fernando Coelho

Lobonaltas desculpa pelo atraso das matérias, tive uns problemas com a internet essa semana mas já esta tudo resolvido. Continuaremos nossas matérias com o Rei Salomão.

 Abidã avançava pelo caminho que levava ao palácio de Salomão. O céu estava sem nuvens e uma brisa cálida soprava em Jerusalém. O dia fiaria quente muito antes que o sol atingisse o zênite. O verão se aproximava.
  "Uma esmola. Uma esmola para um pobre." Um homem magro, vestindo um manto muito sujo, estava sentado numa encruzilhada, com a mão estendida, tremendo como uma folha seca em árvore moribunda. "Menino, ajude um velho. Uma esmola para um pobre."
 Abidã expressou reprovação e mudou de direção, evitando o encontro e se recusando a encarar o homem.
 Abidã sentia-se alegre. Estava tirando proveito do tempo passado com o rei e o rei também parecia gostar da presença de Abidã. Ser orientado pelo rei era uma honra que já tinha elevado o status de Abidã entre os seus amigos.
 Ele diminuiu o passo quando viu uma mulher que segurava um bebê e tentava juntar um fardo de linho. Não era incomum ver mulheres com fardos de grão ou linho equilibrados sobre a cabeça enquanto se deslocavam entre o mercado e a casa em que moravam. Outras carregavam da mesma forma a comida ou a água do dia. Essa mulher parecia cansada da vida, embora tivesse acabado de partejar outro sopro. Ela mudou o bebê de braço, ajoelhou-se no chão endurecido e fez o melhor possível para reunir o que tinha restado do fardo de linho antes de ser espalhado pelo vento longe do seu alcance. Abidã não parou para ajudar. Ele não queria chegar atrasado a seu encontro com o rei.
 Abidã alcançou o portão e ficou surpreso ao ser recebido por um criado diferente: um jovem mais ou menos da sua idade, com a pele muito mais escura que a sua e olhos cheio de vida. Alguns momentos depois, Abidã ficou sozinho no vestíbulo que dava acesso a um grande salão. Inicialmente, os minutos passaram depressa; depois, lentamente, como se o tempo tivesse parado.
 Ele se convenceu de que o rei devia estar ocupado com questões muito importantes, assuntos do país, problemas relativos ao Templo ou alguma outra providência urgente.
 Abidã esperava. Examinou o piso, as paredes, o teto, o reboco. Escutava vozes, mas a grande estrutura parecia desprovida de vida.
 Teria ele vindo no dia errado? Teria sido cancelado o encontro? Conforme o tempo passava, ele ficava mais atormentado. "O que fiz para ofender o rei?", ele murmurava para o espaço vazio.
 Perdeu a noção do tempo. Não sabia se estava ali fazia alguns minutos ou havia mais de uma hora. Devia esperar? Devia procurar alguém em busca de resposta? Devia voltar para casa?
 Abidã decidiu esperar, mesmo que isso significasse fica ali até o pôr do sol. No mínimo, demonstraria o valor que dava aos encontros com o rei.
 O jovem criado reapareceu e, com um sinal, pediu que Abidã o seguisse. Abidã sentiu um alívio muito grande. Finalmente.
 Em vez de levá-lo ao pátio, o criado o conduziu à sala do trono. Abidã adentrou três passos no recinto parecido com uma caverna e se deteve. O rei estava ali, sentado em seu trono e fitando seriamente Abidã. perto do trono, e parados à esquerda do rei, estavam o velho mendigo e a mulher com a criança.
  O mendigo parecia diferente. Abidã dedicou um tempo a analisar-lhe a fisionomia e o que percebeu o arrepiou. O mendigo era o criado que recebia Abidã em todos os encontros com o rei. A mulher era uma estranha.
 "Aproxima-se", ordenou Salomão. Abidã não percebeu nenhum traço de bom humor no tom de voz do rei.
 Para Abidã, não foi nada fácil sair do lugar. Era como se três pares de olhos o encarassem, conspirando para repeli-lo. Pelo menos, a criança estava coberta e não era capaz de fazer contato visual.
  Abidã venceu a curta distância sentindo como se tivesse percorrido uma longa distância. Seus joelhos tremiam, seu estômago revirava e sua respiração estava ofegante. "É... é uma honra revê-lo, Majestade."
 "Verdade?" O tom da voz de Salomão era duro como madeira de lei.
Abidã permaneceu calado, incapaz de dar uma resposta.
 "Me diga onde você esta, Abidã."
 "Longa vida, Majestade. Estou diante de sua presença, na sala do trono."
 "Você já me viu aqui antes, não é verdade?"
 "Sim, Majestade." Os joelhos de Abidã vacilaram.
 "Qual é o meu trabalho aqui, filho de Zera?"
 Abidã engoliu em seco e disse: "O senhor julga e orienta os que estão em busca de sua sabedoria, Majestade."
 "É aqui que eu arbitro reclamações, não é verdade?"
 Abidã abaixou a cabeça, incapaz de encarar Salomão. "Sim, Majestade."
  Me diga Abidã, por que você acha que nos reunimos aqui nesta manhã?"
 Abidã não queria falar, mas convocou forças para se expressar. "Essas duas pessoas têm uma reclamação contra mim."
 "Sim." Salomão se recostou no trono. Parecia cansado. "Você conhece meu fiel criado. A mulher é filha dele; a criança seu neto."
 Abidã fechou os olhos. Tinha sido testado e falhara. "Eu o desapontei, Majestade. Peço desculpas."
 "Não sou eu quem merece seus pedidos de desculpas."
 "Compreendo." Abidã ergueu a cabeça, aprumou-se e voltou a atenção para o criado e sua filha. Pediu desculpas. Os dois aceitaram o pedido com um gesto de cabeça.
 O criado dirigiu a palavra a Salomão: "Com sua permissão, Majestade."
 Salomão se levantou do trono e caminhou até a mulher. Tirou a manta que cobria o rosto do bebê e sorriu. "É um menino muito bonito. Dará orgulho à sua família." O rei se virou para seu criado: "Podem ir. Vocês se saíram bem."
 Então, Abidã ficou sozinho diante de Salomão, sentindo muito medo e vergonha.
 O sorriso de Salomão desapareceu com a saída da mulher e do seu filho. O rei se encaminhou para os degraus de pedra que levavam ao trono, mas não subiu. Em vez disso, sentou-se em um dos degraus. Indicou um lugar perto dele. Abidã sentou  ali. Esperava pelas palavras duras que o re proferiria. Com toda certeza.
 Salomão respirou fundo, expirou e falou.
 "Há os que distribuem e, contudo, se engrandecem; quem retém o que seria justo dar, só alcança perdas. O generoso enriquecerá, pois o que atende aos outros também será atendido." (Provérbios, 11:24-25)
 Levou certo tempo para Abidã perceber que Salomão não o estava repreendendo. Na realidade, a voz do rei estava embargada de tristeza. O rei repetiu o provérbio. Diga-me o significado, Abidã."
 Como tinha se tornado seu costume, Abidã repetiu o provérbio e, em seguida, buscou uma interpretação. "Significa que eu não devia ter feito vista grossa para os necessitados."
 "E o que mais?"
 "E que o ato de dar pode ajudar um homem a prosperar", respondeu Abidã, murmurando as palavras.
 "Isso não parece justo para você?"
 "Parece estranho para mim, Majestade. Como uma pessoa pode distribuir dinheiro e ficar mais rica?"
 "Há riquezas do coração, Abidã, riquezas da alma. Ajudar os outros faz parte da Lei de Moisés. Moisés não recebeu os mandamentos de Deus para ajudar os próximos e os estrangeiros?"
 "Sim, Majestade."
 "Acumular dinheiro não torna um homem rico, torna-o, sim, mesquinho. Você sabe a diferença?"
 "Sei. Acredito que sei. Mas, Majestade, não tenho dinheiro. Somos uma família pobre. Não tinha nada para dar ao mendigo; quero dizer, ao seu criado."
 "Você não podia ter-lhe dado um instante de atenção? Não podia ter se dirigido a ele, dito que não tinha dinheiro e o abençoado em nome de Deus?"
 "Sim, poderia ter feito isso", afirmou Abidã, concordando com um gesto de cabeça. "Em vez disso, saí do meu caminho para evitá-lo."
 "E a mulher com a criança; ela precisava de dinheiro?"
 "Não, Majestade. Ela precisava de ajuda."
 "Mas você não ofereceu os poucos minutos que teria levado para ajudá-la a juntar seu linho e enfardá-la novamente."
 "Não quis me atrasar, Majestade."
 Salomão denotou um ar de reprovação. "Você não me honra fazendo algo errado para ser pontual. Eu teria preferido que e atrasasse e fosse justo a que chegasse na hora certa e fosse egoísta."
 "Majestade, há muitos pobres. Como posso ajudar todos eles?", perguntou Abidã, voltando a olhar para o chão.
 "É impossível para você fazer isso, mas você pode fazer alguma coisa. Você não cruzou com todas as pessoas pobres de Jerusalém. Você cruzou com duas almas. Escute, Abidã: se você não for capaz de dar o seu pouco, nunca será capaz de dar a sua abundância. Compreende?"
 "Acho que sim, Majestade."
 "Criar riquezas  e bom e correto, mas não será se você se recusar a usar algo do que tem em benefício dos outros. Sempre existirão pobres, mas essa verdade não significa que o sábio fecha os olhos a eles. Faça o que puder com o que você tem e a prosperidade vira atrás."
 "A riqueza é destinada aos generosos?"
 "Sim, Abidã. Bem dito."
 "Sinto muito por ter desapontado o senhor, Majestade."
 Salomão sorriu. "Você acha que foi injusto da minha parte testá-lo?"
 "Não tenho certeza", respondeu Abidã, balançando a cabeça.
 "Deixe-me fazer uma última pergunta: você vai se esquecer desta lição?'
 "Nunca, Majestade. Levarei esta lição para o meu túmulo."
 "Então, o constrangimento que você sente vale o preço."

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