domingo, 26 de fevereiro de 2017

PRÉ-OSCAR AO VIVO - Vlog Alcateia #96

Estivemos ao vivo, antes da festa do Oscar falando abobrinhas e comentando sobre nossos favoritos, as curiosidades desse ano e dando brinde!





Os filmes do Oscar: LA LA LAND: CANTANDO EM ESTAÇÕES (14 indicações)

Por Ricky Nobre 



 La La Land é a grande polêmica do Oscar deste ano. Não por algum tema controverso abordado ou qualquer coisa do gênero. A questão com o filme que levou 7 Globos de Ouro e tem 14 indicações ao Oscar é o imenso hype em torno dele, com muitos elevando-o ao status de obra prima ao resgatar os musicais de Hollywood, enquanto outros o apontam como um embuste meramente estético e destituído de qualquer profundidade ou mesmo de valor próprio, sustentando-se meramente sobre suas pilhas de referências. Amar ou odiar La La Land virou um Fla X Flu cinematográfico, onde cada “lado” se acha mais cool do que o outro. Soterrado nesses escombros encontra-se um filme simpático e bonito, cuja magreza do roteiro, porém, não o permite alçar à grandeza que lhe seria possível. 

 

Em Los Angeles (onde mais?), Mia (Emma Stone) é uma jovem atendente na cafeteria de um grande estúdio, que saiu de casa muito nova para tentar a sorte como atriz, tomando toco atrás de toco em sucessivos testes de elenco. Sebastian (Ryan Goslin) é um pianista que não larga suas radicais visões sobre jazz nem para manter um emprego num restaurante, enquanto as contas vencidas vão se empilhando, deixando-o mais longe do sonho de abrir seu próprio clube de jazz. Entre números de canto e dança, eles se conhecem, se apaixonam e passam a incentivar os sonhos um do outro. A questão é o que será da relação deles à medida em que o sucesso vai se aproximando. 

 

Para o diretor e roteirista Damien Chazelle, um desafio tão grande quanto realizar uma homenagem à altura dos clássicos musicais hollywoodianos era superar, ou pelo menos se igualar, à obra prima que foi seu filme anterior, Whiplash, um dos melhores filmes da década, que também tinha o jazz como foco central. Em La La Land (uma expressão que se refere tanto à cidade de Los Angeles quanto a um estado da mente daquele que vive num mundo de sonhos, incapaz de encarar a realidade), Chazelle investiu pesadamente no visual, concebendo um filme radiante, muito colorido e lindo de se ver. Repetindo a parceria de Whiplash, o diretor chamou o compositor Justin Hurwitz, que criou uma série de melodias que farão o público sair cantarolando do cinema.  Em meio a números musicais repletos de referências a filmes clássicos, Mia e Sebastian se apaixonam sem que entendamos muito bem porquê. Mia é engraçada e adorável, enquanto Sebastian é grosso e antipático. Nada, a princípio, impediria um romance entre personagens assim, mas o roteiro falha em construí-los e desenvolvê-los o suficiente. E assim como falha em construí-los como casal, falha ao criar-lhes obstáculos, apostando, a princípio, em uma grotesca falha de comunicação que pode não convencer parte do público.

 

Profundidade nunca foi exatamente a qualidade que definia os antigos musicais, mas La La Land parece, sem muita pretensão, mas em alguma medida, querer construir uma visão mais moderna, começando pela decisão de ambientá-lo nos dias atuais. Quando Sebastian diz que “Los Angeles é um lugar onde se venera tudo mas não se valoriza nada” e, mais adiante, ouve de um amigo “como você quer ser revolucionário sendo tão tradicionalista?”, ou mesmo pela própria escolha do título do filme, Chazelle parece querer nos dizer que não existe espaço para o lindo mundo de sonhos que Hollywood vendia há 60, 70 anos, pelo menos não exatamente daquela forma, e com certeza a decisão do roteiro sobre o destino do casal veio justamente dessa ideia. 

 

E talvez o ponto chave do enorme sucesso do filme venha justamente daí. La La Land é um filme divertido e simpático com um final brilhante. Já aconteceu várias vezes antes de filmes excelentes terem finais ruins, e a sensação do público é a de que viu um filme horrível. Na mesma medida, filmes medíocres com finais excelentes deixam a impressão de uma ótima experiência. Boa parte do público e da crítica está saindo de La La Land com a impressão de que viu algo extraordinário, ainda que com um gosto agridoce na boca, quando apenas viram um bom filme. Chazelle falha não apenas no roteiro mas também no elenco pois, uma vez que Goslin oferece uma atuação apenas adequada e não sabe cantar (sua indicação é tão absurda quanto a de figurino ou do próprio roteiro), Stone acaba simplesmente tomando o filme para si, brilhando na interpretação, canto e dança. Com melhor desenvolvimento dos personagens e do que seria capaz de uni-los ou separá-los, La La Land poderia ser realmente um grande filme. Mas é, sem sombra de dúvida, um filme concebido e realizado com paixão e, em boa medida, o público sente isso, pois com paixão o ama ou odeia.

 

INDICAÇÕES AO OSCAR

Filme

Diretor: Damien Chazelle

Ator: Ryan Goslin

Atriz: Emma Stone

Roteiro original: Damien Chazelle

Música original: Justin Hurwitz

Fotografia: Linus Sandgren

Montagem: Tom Cross

Canção original: Audition (The Fools Who Dream) Música de Justin Hurwitz, letra de Benj Pasek and Justin Paul

Canção original: City of Stars, Música de Justin Hurwitz, letra de Benj Pasek and Justin Paul

Edição de som: Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan

Mixagem de som: Andy Nelson, Ai-Ling Lee, e Steve A. Morrow

Desenho de produção: Sandy Reynolds-Wasco e David Wasco

Figurino: Mary Zophres


sábado, 25 de fevereiro de 2017

FRAMBOESA 2017 safou a cara do Snyder


por Renato Rodrigues
A macumba do Zac Snyder é boa e BvS não foi o PIOR FILME DO ANO (segundo os zoeiros do FRAMBOESA DE OURO). O vencedor, ou perdedor, sei lá, foi o documentário "A História Secreta do Partido Democrata". Segue a listinha da premiação pré-Oscar:
Pior Filme: Hillary’s America: The Story of the Democratic Party 
Pior Ator: Dinesh D’Souza, por Hillary’s America: The Story of the Democratic Party 
Pior Atriz: Becky Turner, por Hillary’s America: The Story of the Democratic Party 
Pior Atriz Coadjuvante: Kristen Wiig, por Zoolander 2 
Pior Ator Coadjuvante: Jesse Eisenberg, por Batman vs Superman (Merecido, fala a verdade?) 
Pior Combinação em Tela: Ben Affleck e Henry Cavill em BvS (SOC, TUM, POF) 
Pior prequel, remake, cópia e o cacete à quatro: Batman vs Superman (Boooing) 
Pior Diretor: Dinesh D’Souza e Bruce Schooley, por Hillary’s America: The Story of the Democratic Party 
Pior Roteiro: Batman vs Superman (Tibummm)


Os filmes do Oscar: MANCHESTER À BEIRA MAR (6 indicações)


Por Ricky Nobre 




Histórias de grandes tragédias pessoais costumam ter uma abordagem padrão em Hollywood. Geralmente, servem como base para filmes “inspiradores”, que mostram personagens passando por experiências traumáticas e enfrentando enormes dificuldades para, no final, deixarem uma bela mensagem sobre fé, persistência e superação. Isso absolutamente NÃO descreve Manchester à Beira Mar. 

 

Lee (Casey Affleck, sensacional) é um faz tudo num condomínio que leva uma vida monocórdica, fazendo reparos em apartamentos em troca de um salário mínimo e um quartinho pra dormir. Quando o irmão que sofria de uma doença cardíaca acaba falecendo, Lee descobre que este havia determinado em testamento que ele deveria tornar-se o tutor do sobrinho (Lucas Hedges), sem jamais ter discutido isso com o irmão. Lee passa algumas semanas cuidando do sobrinho na casa deste, mas pretende levá-lo para sua própria casa, numa cidade vizinha, para morar permanentemente com ele, sob os veementes protestos do garoto que não vê motivo para se afastar de sua escola e de todos os seus amigos. 

 

O filme do escritor e diretor Kenneth Lonergan não é feito de momentos arrebatadores, muito pelo contrário. Salvo talvez uma única cena de profundo impacto dramático, Manchester à Beira Mar é feito de frases, gestos e ações simples, mas carregadas de emoção dolorosamente contida. Nisso, o texto contido e discreto, que prefere dizer muito com pouco, depende muito de seu elenco, e Lonergan foi extremamente feliz ao escalá-lo. O filme, de fato, deveria ser dirigido e interpretado por Matt Damon. Mas uma série de atrasos o deixou apenas como produtor, e Lonergan assumiu a direção do roteiro que escreveu e Affleck acabou ficando com a oportunidade de mostrar o gigante de ator que é. Toda a raiva, culpa, tristeza, frustração e medo de Lee são expressos com impressionante atenção aos detalhes, olhares, posturas corporais e com o desconfortável silêncio do personagem. Lucas Hedges também se sai muito bem e Michelle Williams prova porque uma personagem com tão pouco tempo na tela precisava de uma atriz do seu calibre para interpretá-la, mostrando mais uma vez porque é uma das melhores e mais subestimadas atrizes de sua geração.

 

Os flashbacks que contam a vida de Lee antes de se tornar um faz tudo recluso entremeiam a narrativa muitas vezes sem uma separação temporal clara, e é preciso atenção do espectador para separar passado e presente sem se confundir. Mas a principal dica que entrega claramente o que é passado e futuro é o próprio Lee. No passado ele é leve, engraçado, amoroso, vivo. No presente é fechado, vivendo no automático, falando o mínimo possível e arrumando brigas em bares absolutamente sem motivo algum. A trilha musical é composta apenas com peças clássicas, algo que às vezes apresenta problemas. A cena-chave que mostra a grande tragédia da vida de Lee acontece ao som do Adágio em Sol Menor, de Albinoni, peça excessivamente conhecida, o que pode gerar alguma distração.

 

A tragédia que mudou a vida de Lee e que passou a defini-lo é a mesma que inicialmente o faz pensar que a melhor decisão é incluir o sobrinho em sua vida de zumbi, sem objetivo. Mas também pode ser a que o fará tomar sua decisão final, talvez não a certa, mas a melhor que ele pode tomar. Manchester à Beira Mar não é um filme sobre superações exemplares. É sobre pessoas comuns vivendo com dores profundas e tentando fazê-lo da melhor forma possível. Se sua impressão será de um final triste que é feliz ou de um final feliz que é triste, depende apenas de você. 

 

INDICAÇÕES AO OSCAR

Filme

Diretor: Kenneth Lonergan

Ator: Casey Affleck

Ator coadjuvante: Lucas Hedges

Atriz coadjuvante: Michelle Williams

Roteiro original: Kenneth Lonergan

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Chá das Cinco #35 - Sobre o filme "A Chegada"

Mais um bate papo de Eddie e Renato, dessa vez sobre "A Chegada", filme com 8 indicações que mostra os esforços de estabelecer contato com recém chegados alienígenas. 

Lembrando que estaremos ao vivo neste domingo, dia 26, uma hora antes da festa do Oscar aqui na nossa página (www.facebook.com/sitealcateia) comentando nossos favoritos, as curiosidades desse ano e dando brinde!


 

INDICAÇÕES AO OSCAR
Filme
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro adaptado: Eric Heisserer baseado em "Story of Your Life" de Ted Chiang
Fotografia: Bradford Young
Montagem: Joe Walker
Edição de som: Sylvain Bellemare
Mixagem de som: Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye
Design de produção: Patrice Vermette e Paul Hotte

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Os filmes do Oscar: MULHERES DO SÉCULO VINTE (1 indicação)


Por Ricky Nobre


Pode confiar que não tem erro: é batata! Se quiser ver os melhores filmes deste Oscar, basta procurar os que têm apenas uma indicação. O diretor e roteirista Mike Mills construiu Mulheres do Século Vinte levemente baseado em suas experiências de juventude e de sua própria mãe. Em 1979, Dorothea (Annette Bening) é uma mulher de 55 anos, ativa, inteligente, que cria sozinha seu filho Jemie (Lucas Jade Zumann), de 15 anos. Ela luta para entender o rapaz e o mundo em que ele está inserido, muito diferente daquele em que ela foi criada. Julgando-se sem referências para um mundo em tão rápida mudança, com uma juventude que ela não compreende, ela pede a ajuda de Julie (Elle Fanning), amiga do filho e vizinha de 17 anos, e Abbie (Greta Gerwig), fotógrafa de 24 anos que aluga um dos quartos de Dorothea e luta contra um câncer.

 

Tudo neste emocionante e adorável filme funciona à perfeição, a começar pelo roteiro, detentor da única indicação que o filme recebeu e que, se houvesse justiça nesse mundo, levaria a estatueta pra casa. Não é nada fácil escrever um filme sem trama, principalmente por não ser possível usar as fórmulas e truquezinhos dos manuais. Assim como Abbie fotografa objetos que lhe pertencem na tentativa de criar um retrato geral de si mesma, o filme é uma série de retalhos, extremamente bem costurados, da vida dos personagens naquele período em particular. O retrato resultante é não apenas o daquelas pessoas, ou de uma época, mas também, e principalmente, daquelas pessoas descobrindo a vida, vida esta indissociável daquele momento da história. Não é aleatória a escolha do ano em que o filme se passa. O último ano da década de 70 é um símbolo dos últimos momentos de um período efervescente na revolução dos costumes, direitos civis, revolução sexual, feminismo. Em determinado ponto, a narração de Dorothea chama a atenção para o fato de que os personagens, naquele momento, não faziam ideia de que o movimento punk e todo o espírito dos anos 70 estavam de fato dando seus últimos suspiros, pois a Era Reagan estava aguardando logo adiante, iniciando uma década marcada pelo conservadorismo e individualismo.

 

É fascinante como o filme mostra essas mulheres do século 20, principalmente na derrubada de alguns mitos e pressuposições. Dorothea foi sempre uma mulher forte e à frente de seu tempo. Alistou-se e treinou para ser piloto de caça na Segunda Guerra, mas as guerra acabou antes que ela conseguisse terminar o treinamento. Divorciada sem neuras, trabalha, cria o filho e monitora diariamente seus investimentos em ações. Mas tem dificuldades em lidar com os livros feministas que lê, e ofende-se terrivelmente quando Abbie começa a falar de menstruação como um assunto corriqueiro. Abbie é independente, saiu de casa cedo para cursar faculdade, possui profundo conhecimento teórico do feminismo e enfrenta o câncer com bravura. Mas precisa montar um teatrinho para sentir-se confortável no sexo, e a possibilidade de não ter filhos a fragiliza e entristece. Julie ainda é menor de idade, mas tem vida sexual bastante ativa. Sendo filha de psicóloga, gosta de analisar as pessoas e até faz isso muito bem. Mas nunca teve orgasmo com garoto nenhum. Não são clichês de mulheres modernas. São mulheres reais. Tudo isso é obra não apenas no excelente roteiro mas também do elenco impecável, onde Benning pode se juntar à Amy Adams para dar queixa contra roubo de indicação.

 

Mas o filme não é só das mulheres. O jovem Jamie, alter ego de Mike Mills, aprende sobre a vida justamente através destas três mulheres. Ele conhece o movimento punk e a vida noturna com Abbie, tenta lidar com a amizade de infância que se transformou em paixão não correspondida por Julie e tenta ajudar a mãe, pois acredita que ela se dedica tanto à felicidade dele, enquanto ela mesma não é feliz. E há também William (Billy Crudup), outro inquilino de Dorothea, remanescente da cultura hippie, que mesmo fascinado pelas mulheres e com facilidade de levá-las para a cama, não consegue forjar ligações duradouras com elas.

 

Sem a pretensão de fazer um filme feminista, Mills admite que é uma visão masculina das mulheres daquela época ao colocar Jamie como protagonista junto com Dorothea. Como o próprio Mills disse, é uma homenagem às mulheres que o tornaram o homem que ele é. As narrações, a estrutura da montagem, as fotos de época, a música (punk rock acompanhando os personagens jovens e os sucessos dos anos trinta e quarenta com Dorothea), tudo isso funciona como a perfeita encadernação de um belíssimo, emocional e fascinante álbum de memórias. Mulheres do Século 20 é um filme lindo e adorável.

 

INDICAÇÃO AO OSCAR:

Roteiro original: Mike Mills

Chá das Cinco #34 - Sobre o filme "Estrelas Além do Tempo"

Na trilha do Oscar: Eddie e Renato batem um papo sobre a inspiradora história de três das dezenas de calculadoras negras que trabalharam na NASA durante a corrida espacial.



3 INDICAÇÕES AO OSCAR
- Filme
- Atriz coadjuvante: Octavia Spencer
- Roteiro adaptado: Allison Schroeder e Theodore Melfi from baseado no livro de Margot Lee Shetterly

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Os filmes do Oscar: FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER (2 indicaçôes)


Por Ricky Nobre



Florence: Quem É Essa Mulher prova que existem três coisas com as quais podemos sempre contar: com a estupidez dos distribuidores brasileiros em traduzir títulos, que Stephen Frears sempre trará uma história humana inteligentemente filmada e com o brilhantismo de Meryl Streep. 

 

Baseado em fatos reais (mais um!!), o filme fala da estranha história da “pior cantora do mundo”. Durante a Segunda Guerra, a milionária socialite Florence Foster Jenkins (Meryl Streep, o que dizer...) ajudava a manter a cena da música erudita viva em Nova Iorque, com seu Clube Verdi e espetáculos beneficentes. Profundamente apaixonada por música, promovia espetáculos onde ela interpretava as mais difíceis árias, ainda que fosse absolutamente incapaz de sustentar, ou sequer acertar uma única nota. Tendo a admiração e respeito de artistas que iam de Toscanini a Cole Porter, Florence era, por incrível que pareça, um sucesso, seja para os amigos que sempre lhe prestariam elogios, não importando a tragédia de sua apresentação, seja dos que curtiam tudo como uma grande piada. Seu marido St Clair Bayfield (Hugh Grant, ótimo), controlava a venda de ingressos apenas para conhecidos e membros da imprensa dispostos a publicar críticas “amigáveis”. Chegou a lançar 5 discos 78rpm, que foram as maiores vendas da gravadora Melotone. Sua maior extravagância foi um espetáculo no Carnige Hall para duas mil pessoas.

 

Uma das grandes polêmicas em torno de Florence é o quanto ela tinha consciência real de seu “talento”. O filme de Frears parte do princípio de que ela realmente se considerava uma cantora, e das boas. Com alguns momentos mais dramáticos e sutis, o filme se ancora mesmo no tom cômico, e nisso o elenco garante um excelente espetáculo. Simon Helberg, como o pianista que acompanhou Florence nos últimos anos de sua carreira, está impagável. Mas por melhores que estejam seus companheiros de cena, o filme é mesmo de Streep. Ótima cantora (como já mostrou em outros filmes, especialmente Mama Mia), ela mesma foi responsável por todos os inacreditáveis sons emitidos por Florence, sempre gravados no momento da filmagem, sem uso de playback. 

 

Florence é retratada como uma figura fascinante e indomável, que decidiu que seria cantora não importasse o que dissessem, que viveu com sífilis durante 50 anos, contra os prognósticos de qualquer médico da época. Mas tinha também algo de frágil e trágica, não apenas pela inevitável instabilidade de sua saúde, mas também pela relação meramente platônica que tinha com o próprio marido (também por conta da doença), que mantinha seu próprio apartamento com outra mulher. Mesmo assim, Bayfield era profundamente dedicado a ela, não medindo esforços para manter intacta a frágil bolha que separa Florence da realidade de seu talento artístico. 

 

Ainda que Florence se concentre num período muito curto já bem avançado da vida de protagonista, até mesmo condensando excessivamente alguns fatos, ele é um filme leve e despretensioso que deve muito do seu brilho a seu elenco, guiado com perfeição por Frears. E, além de tudo, confirma a urgência da criação de uma lei que proíba Meryl Streep de concorrer ao Oscar, pra poder dar alguma chance para as outras pobres mortais.

 

INDICAÇÕES AO OSCAR

Atriz: Meryl Streep
Figurino: Consolata Boyle

Chá das Cinco #33 - Sobre o filme "Um limite entre nós"

Continuando nossos especiais pré-Oscar, Patrícia Balan e JM falam sobre o filme "Um Limite entre nós" que tem 4 indicações ao Oscar:

Melhor Filme
Melhor Ator: Denzel Washinton
Melhor Atriz coadjuvante: Viola Davis
e Melhor Roteiro adaptado: August Wilson

"A LEI DA NOITE" É UMA BOA SURPRESA


Por Eddie Van Feu

Nem todo filme que eu tenho visto está conseguindo prender minha atenção. Ou são bobos, ou são rasos, ou são cheios de furos. A Lei da Noite foi uma interessante exceção e uma boa surpresa.

Para começar, deixa eu falar umas coisas. Eu não gosto do Ben Afleck. Não gosto de filme de gangster. Não gosto de filme dos anos 1920. Isso posto, apesar de ter ido ver o filme com boa vontade, não estava na melhor das expectativas.

E eis que começo a me surpreender pela fotografia, linda da primeira à última cena. Em poucos minutos, eu já estava envolvida nos dilemas morais dos personagens, rindo com o texto inteligente e me prendendo na cadeira nas perseguições de carro. Admito que não via uma corrida de carros velhos tão empolgante desde Os Intocáveis.



A história
Filho de um comissário de polícia desgostoso pelas atrocidades que teve que cometer na guerra volta com a convicção de nunca mais seguir ordens. E aí vira um ladrão. Não bastasse ficar contra a lei, continua em seu caminho de autodestruição tendo um caso com a peguete do chefão. É claro que em algum momento um roubo dá errado, o namoro dá errado e tudo dá errado, levando o personagem a um plano de vingança. Porém, no decorrer do plano, ele conhece pessoas, se apaixona de novo e percebe que a vida é mais do que isso.

Efeito Manada?
Fiquei muito surpresa com as críticas negativas que o filme recebeu nos Estados Unidos. Não entendi. Das poucas críticas que ouvi, nenhuma fez sentido. Por exemplo, houve quem reclamou que o filme começa como um filme de gangster, vira filme de vingança e de repente vira romance. Isso me parece uma visão limitada de que um filme precisa se encaixar num único gênero. Se é aventura, não pode ter romance. Se é romance, não pode ter violência. E por aí vai. A outra coisa que vi foi sobre as interpretações, que eu achei boas – e isso vindo de alguém que não é grande admiradora do Ben Afleck, que estava muito bem, diga-se de passagem. Sinceramente, acho muito provável que esteja ocorrendo o efeito manada. Um pequeno grupo fala mal e todo mundo se determina a não gostar do filme para não ficar de fora.

O texto é bem legal, com boas sacadas de humor nos momentos certos. A história é bem amarrada, do início ao fim, não deixando nada sem desfecho. A trilha sonora é bem discreta e talvez pudesse ter mais personalidade. O que mais gostei de A Lei da Noite foi ver a jornada do herói, que é um bandido. Joe Coughlin, personagem de Ben Afleck, tem um amadurecimento muito bacana. Ele cresce, evolui e vai aprendendo a fazer escolhas melhores. Isso faz com que fiquemos ao lado dele, mesmo que ele seja um gangster. O paralelo entre relacionamentos foi bem interessante também. Um chefe de polícia tem um filho escroque. O pai o ama, mas não o protege de suas próprias escolhas. No entanto, faz o possível para ajudá-lo, dentro de suas possibilidades. Esse relacionamento encontra um espelho distorcido no relacionamento do mafioso Maso Pescatori (Remo Girone) e seu filho imbecil. As três mulheres do filme são fundamentais para a evolução do personagem e contribuem muito com a trama.

O filme toca em assuntos como preconceito, fanatismo religioso, a indústria do crime e a violência como um meio burro de se chegar aonde se quer. Ótimo filme e estou quase aprendendo a gostar do Ben Afleck.

A Lei da Noite

Genero: Ação
Titulo original: Live By Night
Ano: 2016
Pais: EUA
Duracao: 2h 09min
Diretor: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Zoe Saldana, Elle Fanning, Sienna Miller, Brendan Gleeson, Scott Eastwood, Chris Cooper e Anthony Michael Hall.

QUE MULHER!!! QUE CAPA!!!


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Chá das Cinco #32 - Sobre o filme "A Lei da Noite"

Convidados pelo Kal J Moon do Poltrona Pop fomos conferir o novo filme do Ben Affleck e tentamos descobrir porque ele não tá dando certo nas bilheterias... Será que conseguimos? 
Confira aí!

HAN SOLO APRONTANDO TODAS


Só registrando a primeira foto oficial do filme contando as aventuras do jovem Indiana Jones  Han Solo. DIGAM XIS!!!!

O jovem Chewbacca curtiu!




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Chá das Cinco #31 - Sobre o filme "Manchester à beira-mar"

JM fala conosco hoje sobre "Manchester à beira-mar", filme com 6 indicações ao Oscar 2017. No bate-papo estão também Patrícia Balan, Eddie Van Feu e Renato Rodrigues.



Lembrando que estaremos ao vivo neste domingo, dia 26, uma hora antes da festa do oscar aqui na nossa página (www.facebook.com/sitealcateia) comentando nossos favoritos, as curiosidades desse ano e coisas e tal!

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Os filmes do Oscar: LION: UMA JORNADA PARA CASA (6 indicações)


por Ricky Nobre 



Além dos filmes com temática afro americana, os “baseados em fatos reais” também estão marcando forte presença nesse Oscar. Com apenas cinco anos de idade, o pequeno Saroo (Sunny Pawar, desde já, uma das crianças mais adoráveis da história do cinema) ajuda a mãe e o irmão que vivem em extrema pobreza numa pequena vila no interior da Índia. Ao acompanhar o irmão que ia procurar trabalho, ele acaba adormecendo em um vagão de trem vazio, de onde não consegue sair, e acaba a 1.600 quilômetros de distância de casa. Após enfrentar diversos perigos a que estão expostas as crianças de rua indianas, ele acaba num orfanato, onde é adotado por um casal australiano (Nicole Kidman e David Wenham). Vinte anos se passam e Saroo, já adulto (Dev Patel, indicado como ator coadjuvante... OI???), enfrenta as inquietações quanto à sua origem (da qual se lembra pouco) e parte numa busca por sua família e o lugar onde viveu, onde sua principal ferramenta é o recém lançado Google Earth.


 

A teimosia dos produtores acabou por garantir que o filme fosse realizado da forma correta. Eles tentaram financiamento americano, mas todos os estúdios exigiam que a ação na segunda parte do filme se passasse nos EUA e não na Austrália, condição que eles se recusaram a aceitar. Insistindo em ambientação e equipe australianas, o filme, com um orçamento mais modesto, tem uma estética mais realista e menos “envernizada”. O olhar que o filme tem sobre a Índia e sobre a miséria de parte de seu povo é destituído de sensacionalismos ou de uma fotografia feita para embelezar ou glamurizar a pobreza, o que é uma agradabilíssima surpresa vindo de um diretor que fez carreira em publicidade, aqui em seu primeiro longa-metragem.

 

Ainda que a busca de Saroo por suas origens seja envolvente e as atuações de Patel e Kidman sejam ótimas, o filme brilha mesmo é em sua primeira metade. Mesmo muito esperto pra sua idade, Saroo é jovem demais para enfrentar os perigos de uma grande metrópole, sendo que jamais saiu das proximidades de seu vilarejo, com o agravante que fala apenas hindi, e não a língua mais comum na cidade, o bengali. A naturalidade do jovem ator Sunny Pawar é impressionante e é essencial para sensação agridoce de sua adoção, onde ele sabe que finalmente terá um lar, mas ainda com sua família original na cabeça e no coração. 

 

Com uma história simples que tem um apelo emocional considerável, o diretor Garth Davis evita a pieguice melosa que poderia ser a ruína do filme. Mesmo assim, não é recomendável assistir o Lion sem uma caixa de lenços do lado. Da grande. 

 

INDICAÇÕES AO OSCAR
Filme
Atriz coadjuvante: Nicole Kidman
Ator coadjuvante: Dev Patel
Roteiro adaptado: Luke Davies baseado no livro A Long Way Home de Saroo Brierley e Larry Buttrose
Música original: Dustin O'Halloran and Hauschka
Fotografia: Greig Fraser
 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Os filmes do Oscar: CAPITÃO FANTÁSTICO (1 indicação)


Por Ricky Nobre


E mais uma vez um dos melhores filmes do ano recebe uma indicação solitária de consolação. Viggo Mortensen concorre a melhor ator interpretando o fantástico pai de três filhos e três filhas que cria e educa os rebentos de um jeito, digamos assim... um tanto... peculiar. Vivendo no meio do mato, Ben ensina os filhos de 5 a 17 anos (com nomes de fazer inveja à prole de Baby e Pepeu) a viver em comunhão com a natureza, caçar, técnicas de sobrevivência, pesado treinamento físico, literatura, política, sociologia, filosofia, física quântica... É uma espécie de comunidade hippie anabolizada. Sofrendo de transtorno bipolar, a mãe das crianças permanece hospitalizada por alguns meses. No caminho para visitá-la, Ben descobre que ela cometeu suicídio. Ao saber que seu desejo final de ser cremada seria respeitado pelos pais, a família parte para uma missão de resgate do corpo da mãe.

 

A direção e o roteiro de Matt Ross (vencedor de melhor diretor na mostra Un Certain Regard em Cannes) lançam um olhar extremamente simpático a Ben, ainda que seus métodos pedagógicos sejam, muitas vezes, questionáveis ou simplesmente absurdos. Essa simpatia é vital para manter na mente do espectador o fato de que aquelas crianças realmente idolatram os pais, ainda que alguns conflitos aconteçam. Pode parecer terrivelmente chocante para parte do público a alegria da garotada em receber armas brancas de presente no Dia de Noam Chomsky (que eles celebram em vez do Natal); ou a forma chocantemente direta que ele responde perguntas sobre sexo ou morte, mesmo para as crianças mais novinhas, sob a justificativa de que ele não mente para os filhos; ou ainda, a brutalidade do treinamento físico, que poderia ser considerada abuso infantil em qualquer sociedade civilizada.

 

Ao mesmo tempo em que ele incentiva constantemente o pensamento crítico (a cena em que Kielyr analisa Lolita é perfeita), Ben por várias vezes impõe sua autoridade de forma severa, anulando os questionamentos que ensinou os filhos a ter. Ben quer que suas escolhas na criação dos filhos sejam respeitadas, mas não se furta até mesmo a humilhar uma família que tem padrões e hábitos típicos do americano médio, ainda que, ao fazê-lo, exponha de forma muito clara a absoluta tragédia que é o sistema educacional americano. 

 

Muitas das críticas ao filme vêm com o argumento de que ele acaba, com seu humor e imensa simpatia, por celebrar uma forma de educação brutal e abusiva. Mas o diretor Matt Ross conta com a capacidade do público em ler sutilezas. Se Ben criou uma filha de 8 anos capaz não só de recitar, mas de discutir com inteligência a Carta de Direitos americana, criou também um filho de 17 anos completamente destituído de habilidades sociais, capaz de passar para as sete melhores universidades do país, mas sem ter a permissão do pai de cursar alguma. O público percebe isso e, quando várias coisas começam a dar errado, fica claro que algo naquela família precisa ser repensado, a ponto do sogro, retratado todo o tempo como o vilão, acabar soando como a voz da razão. 

 

Ben precisa enfrentar a realidade de que não criou seus filhos para o mundo real. Mas para que espécie de mundo a educação “normal” forma as pessoas? Uma coisa que fica inquestionavelmente clara é o quanto o amor está presente naquela família, e o quanto o amor guiará as decisões que Ben precisa tomar. Pais e mães, mesmo falhando, e muito, tentam fazer o melhor que podem, o que sabem fazer. E só dá pra aprender errando. 

 

INDICAÇÃO AO OSCAR

Ator: Viggo Mortensen

 
 Em praticamente todos os tapetes vermelhos, o elenco do filme "deu o dedo" pra todo mundo!