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É
Speed Racer é um filme sem público. É preciso ter assistido
ao desenho no Capitão Aza aos três anos de idade para conseguir
apreciar as reais qualidades do filme, mas esses mesmos fãs poderão
não tolerar seus principais defeitos. Assim, cada um encontrará
dentro de si como esses pesos se equilibram. Para todo o resto do
mundo... é um filme MUITO estranho.
O
primeiro trabalho pós-Matrix dos irmãos Wachowski (V
de Vingança foi só escrito e produzido por eles) vem com
aquele aval que um estúdio só dá pra quem rendeu verdadeiras
fortunas. Do mesmo jeito que a New Line deu carta branca artística
e financeira para Peter Jackson fazer qualquer coisa que lhe desse
na telha depois da mina de ouro chamada Senhor
dos Anéis (e daí saiu King
Kong), Speed Racer é
fruto desta confiança cega da Warner nos irmãos. A apreciação
dos dois por animes já era totalmente evidente em Matrix,
seja pela coreografia estilizada das lutas, seja pela própria produção
da série animada Animatrix,
onde cinco dos sete episódios eram japoneses. Apesar da grande
decepção que Matrix se
tornou com as continuações, ter um dos mais icônicos animes
adaptado por eles, não seria má idéia. Muito se especulou sobre
qual o caminho tomado, até que saiu o primeiro trailer. Muita gente
já começava a quicar.

O
filme, na verdade, surpreende. Numa decisão incrivelmente
enriquecedora para o filme, os Wachowski não emburreceram a
narrativa, muito pelo contrário. Ela é sofisticada ao ponto de pôr
em risco a conquista do público infantil, que pode ter sérios
problemas em seguir a constante não-linearidade na qual a história
transcorre, com constantes flashbacks
entrecortados, flash-fowards
e até cenas simultâneas entre presente e passado. Uma grata
surpresa que nos faz lembrar o talento que os diretores apresentavam
no início da carreira.
O
roteiro equilibra muito bem o simplismo necessário a uma história
de Speed Racer, com uma elaboração bastante razoável da trama,
com algumas boas surpresas. O investimento emocional na jornada dos
personagens dá profundidade e credibilidade a uma história que se
passa toda numa realidade absurda, onde corridas de carros são
quase espetáculos de luta livre. O elenco perfeito ajuda muito a
tornar esse investimento um sucesso, pois os personagens estão
perfeitamente adaptados (Gorducho é simplesmente impagável). O elo
mais fraco é justamente Speed, não porque o jovem Emile Hirsh
esteja mal, mas todos os outros estão bem demais. Todos falam como
as vozes (americanas, claro) do desenho, sem caricaturizar ao ponto
de arruinar o texto, trazendo ainda mais charme em sua contribuição
para a absoluta estilização do filme.

Então
o filme é um absoluto sucesso!! Err... não. Um único aspecto é
capaz de levar o filme por água abaixo, dependendo do quanto te
irrite. As corridas são um desastre. É uma enxurrada tão absurda
e desproporcional de luzes, cores e movimento, nas imagens mais
indutoras de epilepsia já criadas! Tudo brilha como uma superfície
metálica, ou até mesmo plástica, e texturas estão ausentes até
mesmo das pistas. Nenhum carro parece andar em linha reta,
deslizando constantemente de lado, no que na cabeça maluca dos
animadores (tudo ali é digital) deveriam ser derrapagens. Não que
os indizíveis absurdos das corridas sejam ruins em si, pois, do
contrário, não seria fiel ao desenho, mas espera-se, pelo menos,
que as pistas pareçam pistas e que os carros andem pra frente.
Salva-se, com louvor, o rali, que atravessa desertos e montanhas,
evocando com perfeição as grandes corridas do desenho. A presença
do Mach 6 na última corrida também vai desagradar os mais
conservadores, além da overdose high tech onipresente, num amálgama,
sem sempre bem sucedido, com visual retrô.

Se
as corridas em pista incomodam tanto, o final do filme acaba sendo
um grande anti-clímax, quando todos os defeitos decidem se reunir
numa única seqüência para caçoar do público pagante. Numa
tentativa de se aproximar do público jovem que não via o desenho há
40 anos, os Wachowski acabaram transformando as corridas num grande
videogame tão insípido quanto ultrapassado (nem os games de hoje
parecem tão falsos). Por outro lado, esse público que não cresceu
amando o desenho deve acabar achando todo o conjunto uma imensa
bobagem.

No
filme, Speed Racer tem a
cara dos Wachowski, para bem e para mal, com todas as boas e más
surpresas às quais eles já nos acostumaram. Se você é fã, encha
seu coraçãozinho de amor e vá ver, que tem MUITA coisa boa ali.
Se não for, é melhor ir ver Homem de Ferro.
Ricky
Nobre brincava de Speed Racer com seus carrinhos de ferro e notou
perturbadora semelhança entre seus brinquedos e os carros em GCI...
Nota:
  
Ficha
Técnica
Speed
Racer
EUA,
2008, 135 min
Direção e
Roteiro:
Andy Wachowski & Larry
Wachowski
Elenco:
Emile Hirsch, Susan Sarandon,
John Goodman, Christina Ricci, Matthew
Fox.
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