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Ver
e pensar sobre Tropa de Elite não é uma tarefa mundana
dentro da rotina cinematográfica comum, seja para um crítico, para
um espectador ou para um analista de diversas especialidades
relacionadas ao filme, seja ela sociologia, segurança pública, política,
psicologia e outras tantas. Pra quem conseguiu se esquivar do milhão
de cópias piratas que foram postas na rua três meses antes da estréia
do filme, assisti-lo finalmente em seu lançamento comercial é um
ato já contaminado por dezenas de opiniões dos mais diversos
articulistas, capas de praticamente todas as revistas de informação
do país, além da verdadeira histeria popular que se formou em
torno do filme. Ao ganhar virtualmente todos os camelôs da Baixada
Fluminense do Rio de Janeiro, além do centro da cidade, o povão
que não tem 15 reais no bolso pra ir ao cinema pôde pagar 5 pratas
e emprestar pra uns dez amigos, que emprestavam pra mais tantos,
formando o público estimado em 11 milhões em todo o país antes
mesmo da estréia oficial. A população que mais convive
diariamente com a violência, do crime e da polícia, elegeu o Capitão
Nascimento como seu herói, que, pegando geral, dá aos traficantes
o que eles merecem. Em contrapartida, parte da imprensa quicou com a
truculência policial desavergonhada e acusou o personagem aclamado
pelo povo de “repugnante”, afirmando que o filme glorifica a
violência policial, reduz a classe média a tolos estereótipos,
formando uma obra ostensivamente reacionária. É, portanto, impossível
tentar assistir Tropa a esta altura do campeonato com uma
mente totalmente imparcial, como se as questões do filme já não
fossem suficientemente incendiárias e controversas por si só. Mas
o que fica numa análise mais atenta é que quem chama o Capitão
Nascimento de herói nacional ou de repugnante, é porque não
entendeu nada.
Os
leitores podem lembrar da direita conservadora mala que encheu nosso
já combalido e esgarçado saco, esbravejando contra filmes de
grande sucesso como Cidade de Deus e Carandiru,
acusando-os de santificarem os criminosos e fazerem apologia ao
crime. Não deveria ser nenhuma surpresa (embora o seja) que a
esquerda imbecil pós Lula venha nos azucrinar com a idéia de Tropa
de Elite ser um filme reacionário que glorifica a brutalidade
policial. Os filmes citados apresentam pontos de vista: uns de um
lado, e este, mais recente, de outro. Não se espera, de forma
alguma, que um cineasta simplesmente desdobre a visão de um
determinado segmento diante dos nossos olhos sem que ele próprio
exerça sua visão crítica. E José Padilha o faz e está tudo lá
pra quem for ver o filme de olhos e cabeça abertos.
Baseado
no livro de (supõe-se) ficção Elite da Tropa, escrito
pelos ex-membros do BOPE André Batista e Rodrigo Pimentel e pelo
antropólogo e ex-secretário de segurança pública de Rio de
Janeiro Luís Eduardo Soares, Tropa de Elite é um mosaico de
tragédias dentro da grande desgraça que é a instituição
policial carioca. O papel do BOPE dentro deste sistema é explicado
de forma simples e contundente pelo Capitão Nascimento: são
acionados quando o frágil equilíbrio entre as armas dos
traficantes e a corrupção da polícia se quebra. O público
acompanha a vida do capitão e de dois aspirantes, Neto e Matias. O
primeiro tentando ser substituído para poder se dedicar à esposa e
o filho que vai nascer. Os demais começam a aprender, de forma
dura, que o sistema policial não comporta suas visões ingênuas de
jovens que ainda acreditam que é possível fazer a coisa certa.
Todo o sistema de corrupção policial é dissecado no filme como
numa autópsia: desde os PMs que vendem armas a traficantes, aos
capitães que aceitam dinheiro dos bicheiros e traficantes, e os
policiais que se viram como podem, recebendo de donos de bar por
proteção extra, por não saberem como sustentar suas famílias com
500 reais, enquanto viaturas apodrecem nas oficinas. Desta forma, é
construída diante de nós uma polícia impossível de funcionar,
por absoluta falta de preparo, equipamento e estímulo, porque ninguém
vai subir morro e tomar tiro por menos de dois salários mínimos.
Desta forma, o BOPE se vê e se mostra como uma célula orgulhosa,
brava e incorruptível, os últimos a terem condições de fazerem a
coisa certa, da forma certa. O filme é narrado por seu personagem
principal como um soldado numa guerra. E numa guerra luta-se de
acordo.
A
luta dos aspirantes em acomodar seus anseios dentro do sistema
corrupto é tão agoniante quanto a tentativa desesperada do capitão
Nascimento em sobreviver a ordens imbecis e à avassaladora
superioridade numérica dos criminosos. Instabilidade emocional e
crises de pânico o tornam ainda mais violento, o que preocupa seus
colegas e sua esposa. Não é fácil gostar do personagem quando
começa o inacreditável treinamento para novos integrantes do
batalhão e, conforme ele vai chegando no limite, dá vontade de dar
um tiro no cara quando ele se vira contra sua própria esposa. Da
mesma forma, é impossível não se identificar com sua revolta
contra os usuários de drogas, seu desprezo por policiais corruptos
e sua culpa pela morte de um “vapor”. “Deve ser duro para uma
mãe não poder enterrar o próprio filho”, uma das frases mais
marcantes do filme e que surpreende os que vão traçando um perfil
estereotipado do capitão, até culminar em sua inacreditável decisão
em encontrar o corpo do menino.
A
questão dos usuários mostrada no filme é um capítulo à parte. O
retrato dos estudantes usuários de drogas que criticam o governo, a
violência e a polícia, sem jamais raciocinarem sobre seu papel
como consumidores dos produtos do tráfico é absolutamente
pertinente e inédita na nossa dramaturgia. O próprio Capitão
Nascimento, tão demonizado por parte da mídia, admite que não
alivia, mas entende como um morador de favela se torna traficante,
mas não um rapaz de posses que nasceu com tantas outras
oportunidades. Pode, por vezes, parecer exagerado, como se fossem os
estudantes todos imbecis, mas faz sentido a partir do momento que o
filme é o ponto de vista da polícia. A maior falha do filme talvez
seja não separar joio de trigo no que se refere às ONGs. Ao
mostrar apenas uma, pode sugerir que são todas dominadas por políticos
em campanha e por estudantes maconheiros, com o reforço do fato de
que, pra colocar qualquer coisa na favela é necessário pedir
permissão ao dono. Sendo várias dessas ONGs a única forma de
assistência que chega a uma área onde o Estado se omite
completamente, pedir permissão ao “chefe” pode ser encarado
como um mal tão necessário quanto usar dinheiro de corrupção
para consertar carros da polícia.
O
Capitão teme morrer e deixar sua família desamparada. Mas não
parece temer por sua própria alma, nem as de seus companheiros. De
fato, esta é sua principal arma. A brutalidade do treinamento do
BOPE, onde entram 100 e saem 5, serve como um curso de desumanização,
de desvalorização da vida, muito próximo ao que passam os meninos
que entram para o tráfico, onde têm que mostrar seu valor
praticando os primeiros assassinatos. Numa guerra, luta-se de
acordo. E sem remorso e sem pudor algum, ele usa, explora e alimenta
a culpa e o ódio de Matias para que ele seja capaz de realizar os
atos que o tornem digno de ser seu legítimo sucessor: o novo capitão
do BOPE. O jovem idealista que “achava que fazia muito sentido
estudar direito e ser policial” abraça a brutalidade e morre um
pouco por dentro, sendo mais uma vítima da guerra que não tem fim.
A simbologia gritantemente eloqüente da bandeira negra do BOPE
cobrindo a Bandeira Nacional é, mesmo em meio às brutais cenas de
tortura, talvez a mais chocante cena do filme.
Todo
o humor que percorre Tropa de Elite, e o que o torna suportável
de ser assistido para nossa sensibilidade, desaparece em seus 20 últimos
minutos, deixando corações gelados ao fim da projeção.
Profundamente perturbador e meticulosamente esclarecedor, Tropa
de Elite é um lado da guerra ainda não explorado pelo cinema e
que é muito mais rico do que parece, mesmo com suas pequenas
falhas. Longe de glorificar a violência do BOPE, ele mostra como
ela é inevitável dentro da realidade em que aqueles homens são
inseridos e como ela arrasta, dia a dia, a guerra para cada vez mais
distante de seu fim.
PIRATARIA
E A FUNÇÃO SOCIAL DO CINEMA.
Fazer
cinema no Brasil foi, em diversos momentos de sua história, um ato
político, uma forma de resistência cultural. A herança cinemanovista,
com seu enfoque social predominante, deu ao nosso cinema uma obrigação
sociológica que boa parte dos cineastas abraçou de corpo e alma,
enquanto outros aceitaram como ela era: uma obrigação. Depois da
febre das pornochanchadas e da morte do cinema pós Collor, este
enfoque voltou a ocupar um lugar em nossa cinematografia, mas não
como antes. Afinal, o “cinema da retomada”, inaugurado em 1995
com Carlota Joaquina, pregava uma diversidade de temas e
estilos rigorosamente inédita na cinematografia nacional. O enfoque
social tornou-se apenas uma das possibilidades, mas tornou-se, veja
só, discurso oficial. De acordo com a Lei de Incentivo à Cultura,
de onde sai todo o dinheiro usado em cinema no Brasil, é prevista
uma obrigatória “contrapartida social” que um filme deve ter
para receber verba do governo. Há quem defenda, com muita
propriedade, que o simples fato de fazer um filme no Brasil já é
uma contrapartida social por si só.
Neste
panorama, a idéia de “cinema de cunho social” tornou-se um
estereotipo dentro de seu próprio meio, e motivo até de piada de
quem acha que não está aqui para pagar 15 reais pra ver os
problemas do país. Cidade de Deus inaugurou o gênero
“pobreza para as massas”. Filmes dinâmicos, com muita ação e
excelentes diálogos que falavam das mazelas sociais num outro tom.
É natural que o conceito de “função social do cinema” se
perca em todas essas traduções e trilhas cheias de curvas. É aí
que Tropa de Elite surpreende, mesmo que acidentalmente e
talvez ainda sem dar-se conta.
O
fenômeno que se seguiu à popularização instantânea do filme
assim que caiu nos camelôs é rigorosamente sem precedentes.
Pessoas gritam espontaneamente nas ruas os diálogos marcantes do
filme e assistem compulsivamente múltiplas vezes, numa obsessão teletubbie
assustadora. Até sex shops já carregam produtos
relacionados ao filme. A expressão “fenômeno cultural” não é
de forma alguma um exagero neste caso.
O
filme, com sua linguagem popular (em contrapartida à sua linguagem
cinematográfica sofisticada), cativou os corações e mentes da
população que ouve Patrulha da Cidade e foi criado a manchetes de
jornais populares do calibre de “BOPE esculacha geral no Alemão”.
O personagem alçado à condição de herói, assim o foi graças à
percepção prévia do público de que o extermínio é a única
arma na guerra contra o crime, emoldurado pela admiração ao capitão
que é, aparentemente, o incorruptível dentro de um covil de
corruptos. Ele faz o melhor que pode com os quase inexistentes
recursos que recebe. É possível estimar que o diretor José
Padilha jamais imaginou que o filme seria assistido de forma tão
ostensiva e vasta pelas classes populares, ou não teria deixado boa
parte de seus questionamentos ao nível sutil e refinado em que
deixou. Mas, por outro lado, parte da “intelectualidade” quebrou
a cara também ao ler o filme como reacionário, o que mostra que
bagagem cultural pode não ser suficiente para ler as sutilezas de
uma obra além dos preconceitos.
Quando
a cópia pirata de Tropa de Elite caiu no mercado 4 meses antes de
seu lançamento oficial (que acabou sendo adiantado em 1 mês e
meio) houve grande discussão sobre se isso destruiria a carreira
cinematográfica do filme ou se serviria de instrumento de marketing
para alavancar sua popularidade. Não era pra ter acontecido, mas
aconteceu. Um escroto sem mãe achou uma boa idéia piratear um
filme brasileiro. Filme brasileiro, gente! É a mesma coisa que
roubar de pobre! Mas o filme não foi apenas pirateado e visto por
vias escusas: tornou-se uma mania nacional que as atuais novelas da
Globo apenas sonham em ter novamente. Uma quantidade de gente e,
acima de tudo, de um segmento social específico, foi exposta ao
filme de forma que jamais seria se dependesse das bilheterias dos
cinemas. Ao se mostrar compulsivamente obsessivo por Tropa de
Elite e alçar o Capitão Nascimento ao status de herói
nacional, o povo brasileiro fez o filme cumprir, de forma jamais
sonhada por seus realizadores, sua FUNÇÃO SOCIAL. Ao realizar Tropa
de Elite, José Padilha procurou chamar a atenção da classe média,
da classe intelectual e dos setores públicos para como a guerra
contra o tráfico se desenvolve do ponto de vista da polícia. Mas
ao cair nas graças do povão, Tropa de Elite se mostra como
um ponto de partida para questões ainda mais contundentes. E cabe
àqueles capazes de se esquivar e sobreviver aos diversos petardos
atirados ao filme a tarefa de analisar as questões da criminalidade
e segurança pública sob uma nova luz: o que o povo está dizendo
ao se mostrar obcecado por esta história que é parte
tão indissociável do nosso dia a dia? O que significa a esmagadora
aprovação popular pelo Capitão Nascimento?
Um
povo que se formou sem a menor noção de como se exerce cidadania
grita como pode (ou como sabe). Nem que seja rindo com os amigos
repetindo os diálogos mais marcantes e assistindo o filme pela trigésima
vez.
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