sábado, 21 de outubro de 2023

ALCATEIA NO FESTIVAL DO RIO 2023: DIA 12/10

 Por Ricky Nobre

 

FILME 12: MONSTER

Nós conhecemos apenas fragmentos das pessoas e de suas dores. O cineasta japonês Kore-eda, que se mostrou tão hábil em filmes com crianças protagonistas como Ninguém Pode Saber e Tudo que Eu Desejo, traz com Monster uma história sobre bullyng, abuso, mentiras, preconceito, aparências, amizade e descobertas. O que começa com a investigação de uma mãe sobre os abusos sofridos por seu filho de um professor, vai se tornando mais complexo à medida em que o filme retorna e reconta o que vimos sob a ótica de outros personagens. Não são exatamente outros pontos de vista, mas informações que vão se corrigindo e se somando que, ao fim, formam um panorama radicalmente diferente do início.

 

A cada vez que que a narrativa retrocede, a percepção do público quanto a determinados personagens muda, e vai ficando mais claro que todo aquele triste panorama se deve a tudo o que não é dito, resultando numa imensa bola de neve de medo e silêncio, consequências diretas do preconceito e do estigma.

 

Pode ser um pouco desconfortável para alguns perceber uma certa manipulação por parte da direção em vilanizar alguns personagens, para desfazer essa imagem logo adiante. É de fato meio manipulativo, principalmente em direção a um acentuado maniqueísmo no primeiro ato. Mas é justamente essa a proposta de Kore-eda, de desmantelar esse maniqueísmo vindo das aparências a cada novo ângulo que vai sendo apresentado. 

 

Porém, após uma experiência tão emocionante e sensível, fica a dúvida sobre qual a função do desfecho em aberto, onde o diretor fornece sugestões sobre duas possibilidades do destino dos meninos. É como se ele não tivesse tido coragem em apostar firmemente em uma visão luminosa ou numa pessimista, sombria, deixando o espectador escolher. Mas num filme que passa o tempo todo alertando sobre o julgamento por aparências, acaba parecendo meio estranho.

COTAÇÃO:


 

MONSTER (Japão – 2023)

Com: Sakura Ando, Eita Nagayama, Soya Kurokawa, Hinata Hiiragi e Mitsuki Takahata

Direção: Hirokazu Koreeda

Roteiro: Yûji Sakamoto

Fotografia: Ryûto Kondô

Montagem: Hirokazu Koreeda

Música: Ryuichi Sakamoto          

 

FILME 13: A CÉU ABERTO

Em seu primeiro longa-metragem, Mariana e Santiago Arriaga trazem a tela o primeiro roteiro escrito por seu pai Guillermo Arriaga, roteirista dos primeiros filmes de Iñarritú, e nunca filmado. Mantendo a ambientação nos anos 90, quando foi escrito, a dupla realiza este trabalho criado em família cujo tema é justamente sobre irmãos e a memória do pai, no caso, a busca pelo caminhoneiro responsável pelo acidente que o matou.

 

O roteiro, que tem muitos problemas, é trabalhado com muita inabilidade pelos diretores que falham em gerar simpatia pela empreitada claramente absurda dos irmãos. Fernando, o mais velho e "cabeça" da viagem, é particularmente mal desenvolvido e o ator não ajuda. O irmão mais novo, que estava no acidente, consegue alguma conexão melhor com o público, mas limitado pela direção não saber muito como transmitir para além dos silêncios do personagem. A simpatia maior fica para Paula, a meia irmã, enteada da mãe deles que acabou de se casar novamente, mais pelo carisma da atriz do que por qualquer outra coisa. 

 

Tudo em À Céu Aberto parece um beco sem saída. Paula é delineada como uma jovem comum que vai descobrindo uma fascinação pela violência, seja por ficar com uma faca ensanguentada que um agressor deixou para trás, seja por se divertir em matar coiotes. Mas isso não leva necessariamente a algum lugar, assim como o acidente que os irmãos sofrem em circunstâncias semelhantes à do pai, a tensão sexual dos irmãos com a recém meia irmã, a forma chocante e até meio grosseira como são filmados animais atropelados, num presságio mórbido de uma viagem cujo objetivo é a morte. Nada disso leva a algo sólido, significativo. Até o desfecho parece ser feito porque tinha que acabar em algum momento, mas, assim como os personagens, os diretores parecem não ter planejado direito o que queiram fazer. Até mesmo a música assume tons de viagem tranquila nos momentos mais inapropriados.

 

Adolescentes que têm uma péssima ideia e partem em direção a ela não é um conceito novo e já foi bem feito várias vezes. Aqui, nós vemos esses jovens numa missão que tem tudo para dar errado, mas o filme falha em fazer com que o espectador se importe. A dor e a revolta dos personagens são muito mais uma informação que o público recebe do que uma emoção que ele sente. Então quem morre mesmo no final é o filme.

COTAÇÃO:


 

A CÉU ABERTO (A Cielo Abierto, México – 2023)

Com: Julio Bracho, Manolo Cardona, Julio Cesar Cedillo, Federica Garcia e Theo Goldin

Direção: Mariana Arriaga e Santiago Arriaga

Roteiro: Guillermo Arriaga          

Fotografia: Julián Apezteguia

Montagem: Andrés Pepe Estrada             

Música: Ludovico Einaudi

 

FILME 14: HIT MAN

Com o bom humor e a leveza que lhe são tão característicos, Linklater faz uma sátira ensolarada aos filmes noir, muito levemente baseada numa história real de um professor de filosofia que acaba trabalhando como infiltrado da polícia para prender mandantes de assassinatos. É muito interessante a forma como a figura do protagonista, tanto a real quanto as personas que ele cria para cada ocorrência, é como uma ilha estética dos anos 70, enquanto tudo à volta pertence à década atual. E, como em todo noir, o que desestabiliza o protagonista é a mulher fatal, aparentemente inocente, mas que vai levantando dúvidas, nele e no público, de quanto no controle ela está.

 

Linklater faz esse caldeirão de referências de noir, Hitchcock, thriller erótico e comédia romântica, tudo num clima sempre tão leve e divertido, onde o filme nunca ridiculariza suas inspirações, temas e personagens, ao contrário, ri com eles. As aulas do protagonista vão ilustrando seus conflitos morais e éticos, assim como questões sobre a construção de si, e Linklater não perece temer soar autoexplicativo, pois o tom geral é tão despretensioso que os comentários filosóficos que o filme faz de si próprio jamais soam presunçosos. 

 

Glen Powell e Adria Arjona garantem que ninguém desgrude os olhos da tela, pois há muito tempo não se vê um casal tão sexy e engraçado.  A cena onde ele se comunica com ela escrevendo na tela do celular é apenas um exemplo da extraordinário química entre eles. Um filme adorável, hilário, sexy e ligeiramente amoral. Um dos melhores do diretor em um bom tempo.

 COTAÇÃO:


 

HIT MAN (EUA – 2023)

Com: Glen Powell, Adria Arjona, Retta, Austin Amelio e Sanjay Rao

Direção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater e Glen Powell

Fotografia: Shane F. Kelly

Montagem: Sandra Adair

Música: Graham Reynolds

domingo, 15 de outubro de 2023

ALCATEIA NO FESTIVAL DO RIO 2023: DIA 11/10

Por Ricky Nobre

 

FILME 10: TÓTEM

É muito difícil para um latino americano assistir Tótem e não se sentir como se estivesse em casa. Em seu segundo longa-metragem, a cineasta mexicana Lila Avilés reúne uma extensa família na casa onde será comemorado o aniversário do jovem pintor Tona, pai da pequena Sol. A menina observa todos os preparativos para a festa, enquanto tem dificuldade em entender porque não pode ver o pai, achando que ele não gosta mais dela. Entre tias, primos e avós, o público é abraçado pela dinâmica familiar de amor, cooperação, risos, brigas e tristezas.

Conforme o filme avança e a festa acontece, fica dolorosamente claro que, mais que uma festa de aniversário, é uma festa de despedida de um jovem pai que sofre de um câncer terminal. É evidente o quanto que, naquele ambiente familiar, todo o trabalho, seja de cuidado, seja para a festa, é feito por mulheres, que formam a grande maioria de um elenco que tem uma dinâmica impecável, principalmente as adoráveis crianças. 

 

É comum que filmes fora do grande circuito comercial se utilizem da janela 1,33:1 para dar uma sensação de confinamento, de claustrofobia. Avilés, porém, utiliza do formato de forma totalmente diferente. Tótem é um filme tão profundamente íntimo pela forma como a câmera enquadra, sempre na mão e muito próxima. O close é quase a regra de enquadramento aqui e, ao mesmo tempo em que a tela diminuta e quase quadrada reúne todos os elementos de cena de forma aconchegante, ele também possibilita o perfeito enquadramento dos rostos, que sempre observam, sentem e se expressam.

 

Tudo em Tótem é absoluta e sinceramente genuíno, desde o pai que não sabe como falar com o filho doente até a irmã que insiste em uma demoradíssima decoração de bolo para não ter que lidar com a frágil presença do irmão na festa. Sol, que só quer o amor do pai, observa a tudo e, de alguma forma, absorve o que sua idade permite. A última cena, simplesmente assombrosa, assalta a mente e os sentidos e, mais que significado, possui um poder esmagador, quase místico. 

COTAÇÃO:


 

TOTÉM (México, 2023)

Com: Naíma Sentíes, Montserrat Marañon, Marisol Gasé, Saori Gurza, Mateo Garcia, Teresa Sánchez e Iazua Larios

Direção e roteiro: Lila Avilés

Fotografia: Diego Tenorio

Montagem: Omar Guzmán

Música: Thomas Becka

 

FILME 11: UMA FAMÍLIA NORMAL

O livro O Jantar, de Herman Koch, já foi filmado três vezes, na Holanda, Itália e EUA. Esta produção sul coreana, porém, expande o desenvolvimento do conflito ao sair do cenário único do jantar e se espalhar pelo dia a dia dos personagens. O diretor Jin-ho Hur é hábil nesse jogo de dúvidas e embates éticos e morais. Desta forma, se estabelece uma clara definição de cada personagem, que vão lentamente se modificando e/ou se revelando conforme os fatos vão se desenrolando e desvendando.

Ao iniciar definindo o conflito entre os dois irmãos, o advogado frio e o médico humanista, o filme vai pondo à prova o caráter e as convicções de cada um a partir da principal indagação:  vale tudo para proteger os filhos? O filme não envereda em argumentos sobre uma possível dessensibilização das novas gerações diante da violência, preferindo, a partir da atuação dos personagens na trama e dos próprios ambientes (como o restaurante suntuoso, quase privê), discutir privilégio de classe.

 

Jin-ho Hur mantém um clima de mistério que é menos em serviço de um suspense que engaje o público (embora o faça) do que da disputa moral entre os personagens, intensificando o melodrama, à medida em que, diante da verdade incontornável, a discussão passa a ser sobre qual filho é mais culpado que o outro. O jogo de poder, onde a vida de um morador de rua tem muito menos valor do que o futuro de jovens da pequena burguesia, se transfere, então, para uma dinâmica de disputa familiar, e limites seguem sendo postos à prova.

COTAÇÃO:


 

UMA FAMÍLIA NORMAL (Bo-tong-ui ga-jog, Coréia do Sul – 2023)

Com: Sol Kyung-gu, Jang Dong-Gun, Kim Hee-ae e Claudia Kim

Direção: Jin-ho Hur

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

ALCATEIA NO FESTIVAL DO RIO 2023: DIA 10/10

Por Ricky Nobre

 

FILME 8: TUDO OU NADA

Em sua estreia em longa-metragem de ficção, Delphine Deloget fala sobre o drama das mães solo, das quais é exigida uma perfeição sobre-humana. Quando o filho de Sylvie sofre um acidente doméstico enquanto ela trabalhava à noite, o conselho tutelar é acionado para apurar negligência materna. O que inicialmente parece um procedimento razoável de proteção à criança torna-se um pesadelo kafkaniano impossível de ser vencido por uma pessoa comum.

 

Talvez o maior acerto de Tudo ou Nada sejam os personagens, que passam longe de qualquer concepção de família modelo. A primeira meia hora do filme é claramente dedicada a estabelecer o quanto Sylvie é cuidadosa e amorosa com os filhos, e toda a dinâmica familiar transborda esse amor entre eles. Mas Sylvie tem problemas de controle da raiva, o que acaba sendo extremamente problemático para ela, principalmente em situações de injustiça. O filho adolescente Jean Jacques é ansioso e tem compulsão alimentar. O pequeno Sofiane sofre de acessos de fúria, o que também agrava o processo. Um dos irmãos de Sylvie tem histórico de vício em jogo, e o outro tem uma passagem por roubo, além de não ter se estabelecido na vida. Todos esses problemas individuais não diminuem o amor e dedicação que eles têm uns com os outros. Ao contrário, é justamente a burocracia do sistema que exige uma perfeição impossível que acaba levando cada um a atos impensados.

 

A diretora mantém a emoção de forma intensa, sem temer o melodrama, tendo na atriz Virginie Efira, a grande estrela do atual cinema francês, como seu principal trunfo, numa interpretação poderosa tanto nas explosões quanto nas sutilezas e, especialmente, na erosão de sua saúde mental. É interessante perceber que, apesar do filme enfatizar toda a injustiça pela qual a família passa, a dificuldade em aceitar que algumas coisas mudam de forma incontornável pode dificultar ainda mais uma situação que já é ruim.

 

O desfecho pode parecer absurdo, mas é consistentemente emocional com o resto do filme. De sua forma distorcida, a protagonista entende de certa forma que o amor às vezes deve carregar junto, e às vezes deve deixar ir embora.

COTAÇÃO:


 

TUDO OU NADA (Rien à Perdre, França – 2023)

Com: Virginie Efira, Félix Lefebvre, Arieh Worthalter, Mathieu Demy e India Hair

Direção: Delphine Deloget

Roteiro: Delphine Deloget, Olivier Demangel e Camille Fontaine

Fotografia: Guillaume Schiffman

 

FILME 9: CIDADE RABAT

Documentarista estreando em ficção, Susana Nobre traz uma abordagem sobre o luto sob uma perspectiva particular. Após o falecimento da mãe, de quem ela cuidou por alguns anos, Helena aparenta continuar com normalidade sua rotina profissional numa produtora de cinema e familiar no convívio com a filha adolescente. Existe, porém, uma ligeira névoa, uma sutil letargia no seu dia a dia. Praticamente todo o trabalho em relação ao funeral e inventário da mãe é feito pela irmã de Helena. No trabalho, dificuldades corriqueiras parecem problemas sem solução. Em reuniões sociais, permanece só em seu canto. 

 

Não existe uma trama que conduza o filme. Helena segue sendo levada pelos dias, como se não soubesse mais aonde pertence e a câmera segue essa “tranquilidade inquieta” com sutileza. No contato de Helena com o centro comunitário infantil, o lado documentarista de Nobre fala mais alto, mesclando o local e as pessoas de forma praticamente imperceptível com a ficção. Assim como também são quase imperceptíveis os momentos em que Helena se abre e se deixa transformar pela realidade.

COTAÇÃO:


CIDADE RABAT (Portugal – 2023)

Com: Raquel Castro, Laura Afonso, Sara de Castro e Paula Bárcia

Direção e roteiro: Susana Nobre

Fotografia: Paulo Menezes

Montagem: Martial Salomon