Mostrando postagens com marcador censura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador censura. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de março de 2014

Castidade à brasileira


 Por Nanael Soubaim

   Irmãos! Os baluartes da moralidade, de decência, dos bons costumes, da família tradicional e dos especiais ruins de fim de ano estão firmes em sua sina! Nossas famílias podem dormir em paz, quer dizer, depois que a Joseneide parar de bater no carteiro. Como o coitado grita!

   Irmãos! Após tentarem invadir a sacramentalidade de nossos abençoados lares, os ímpios impuros foram barrados novamente, impedidos de colocar em nosso mercado um filme imoral, indecente, uma verdadeira chacota aos nossos valores! Graças aos controladores de conteúdo importado, o blu-ray de Ninfomaníaca (ver aqui) foi recusado pela Sonopress. E ninguém vai importar, por que importaria um... Joseneide, deixa o homem em paz, ele tá quase morrendo, coitado!

   Como ia dizendo, irmãos, nossas famílias podem agora ficar tranqüilas, mas não pensem que é censura! Não, de jeito nenhum! É apenas controle de conteúdo! O Brasil é uma democracia plena, um país justo, desenvolvido e com o maior IDH do mundo! Não precisamos disso. Nossos jovens sabem o que não devem der e não vêem! Só porque mostra uma puritana em cenas de sexo explícito que beira o bizarro, com um apetite insaciável e contrariando sua aparência de religiosa fervorosa? Por que seria censura? Ninguém se identificaria com ela! A Joseneide me explicou todas as posições e disse "Isso aí eu faço enquanto escovo os dentes". Se minha santa esposa, que teve três filhos pelo Espírito Santo (um nissei, um negro de bengala e um louro caucasiano) diz que não se identifica, é porque nenhum de nossos irmãos se identificaria também. Foi recusado porque é imoral, só isso!

   Nossas famílias podem descansar em paz, irmãos! Poderemos nos entreter com programações sadias, como aquele reality show que mostra adultos brincando de esconde-esconde feito crianças, sob lençóis, sempre focando partes baixas de seus corpos, para seus rostos não serem expostos desnecessáriamente à curiosidade popular. Já pensaram, se nossos jovens descobrem... Sexo? Menores de dezoito anos, ainda com as lembranças da infância fresquinhas, se escandalizando e se traumatizando com cenas escandalosas! Cenas que nossas televisões nunca mostrariam nem por insinuação!

   Ah, que desgraça seria que nossos jovens começassem a ver pernas nuas! Colos descobertos! Glúteos insinuados por sob os tecidos! Bocas pintadas! Cinturinhas finas requebrando! Ah, eu nem quero imaginar! Seria a completa ruína de nossa pátria casta e imaculada... Joseneide, o moço é vegetariano, ele não gosta de lombo! Pare de fazer ele comer o que não gosta! Você está sendo dura demais por causa de uma carta atrasada, minha santinha!

   Não se preocupem, irmãos, pois temos quem defenda nossa moralidade! Poderemos nos divertir sem medo com as novelas, repletas de personagens equilibrados, bem intencionados, com noção de decência e respeitadoras de nossas inteligências, que promovem a boa convivência, mostrando vizinhos brincando de esconde-esconde debaixo dos lençóis... Joseneide, o que é isso?? Meu bem, o rapaz vai acabar fazendo um B.O! O que ela tanto bronqueia com ele? Irmãos, me dêem licença, vou ver o que está acontecendo... Joseneide, você acabou com o rapaz!

- Ensinei umas coisinhas que ele não sabia! Agora vai fazer direito, não vai?
- Só!
- Moço, me desculpe, pode pegar uma de minhas camisas... Joseneide, você não precisa ser tão brava, meu bem!


E o casal conversa tranqüilo, certo de que a inocência dos jovens jamais será maculada por costumes que nunca existiram no sagrado solo brasileiro.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Um Filme Sérvio e a volta da censura no Brasil

por Ricky Nobre
Os fãs brasileiros do cinema de terror assistiram nos últimos dias a cenas de pânico que culminaram num desfecho absolutamente aterrador. Não, não estou me referindo aos filmes barra pesada do Riofan, festival de cinema fantástico, de terror e ficção científica que aconteceu na Caixa Cultural . O que aconteceu fora das salas, no mundo real, foi bem pior.

Na última quarta-feira, dia 20, os organizadores do festival receberam um comunicado da Caixa Econômica Federal que dizia:

“Senhor Produtor, Informamos que, por decisão da Caixa Econômica Federal, o filme “A Serbian Film – Terror sem Limites” deverá ser retirado da programação da mostra RIOFAN, em cartaz na CAIXA Cultural RJ e patrocinada por essa Instituição.”

O filme em questão é um terror barra pesadíssima que fala de um ex- ator pornô sérvio que, para pagar suas dívidas e dar melhor situação à família, decide assinar contrato para mais um filme. Só depois descobre que se envolveu com perigosos produtores de snuff movies. Durante o filme, todo o tipo de horrores se desenrolam, inclusive necrofilia (mais especificamente, sexo com um corpo recém decaptado), o estupro de um recém nascido e o de um menino pelo próprio pai, além de diversos outros horrores. O diretor Srdjan Spasojevic afirma ter realizado o filme como uma alegoria dos horrores que seus conterráneos não apenas sofreram na Sérvia, mas que foram obrigados a praticar.


A organização do Riofan divulgou um comunicado contestando a decisão, afirmando a supresa com o veto, e que duas semanas antes o mesmo filme foi exibido em outros dois festivais no Brasil. Afirmam ainda que:

"Não há, sob qualquer ótica possível, apologia à violência sexual contra mulheres ou menores de idade no filme. São atos absolutamente grotescos e tratados como tal por uma obra que se insere numa tradição de filmes “extremos” - um subgênero do cinema de horror que lida com questões repulsivas de forma radical, com o intuito de buscar o choque e a reflexão nos espectadores." E ainda: "O RioFan é radicalmente contra qualquer forma de censura - um mal que assolou nosso país durante décadas e contra o qual muitos deram o próprio sangue para extirpá-lo do Brasil. Somos a favor da total e irrestrita liberdade de expressão, pedra de toque de qualquer sociedade democrática."

Em comunicado, a Caixa afirmou que o veto ao filme "está em consonância com a linha de atuação da Caixa, atenta aos conteúdos apresentados em seus espaços" e que não representa censura.


Em virtude do veto, o Grupo Estação cedeu o Odeon para que fosse feita a exibição prevista na programação do festival, no último sábado. Na noite de sexta, porém, um oficial de justiça compareceu ao cine Odeon com um mandato de busca e apreenção e confiscou a cópia do filme. A juíza Katerine Jatahy Nygaard determinou a apreensão após o diretório regional do DEM (Democratas) entrar com uma ação contra a exibição do filme. O texto afirmava queo filme é “verdadeira apologia a crimes contra criança e um incentivo para práticas de pedofilia”.

É fácil ver nos fóruns de internet que, dentre todos que viram o filme, gostando ou odiando, até as pessoas que mais se enojaram concordam que o filme não defende nem incentiva a nada.


Por essa lógica, Assalto ao Banco Central incentivaria as pessoas a roubar bancos! Não seria possível ter nenhum filme retratando nenhum tipo de crime. Para que esse filme especificament pudesse ser proibido, seria necessário:

1- (questão objetiva) Definir se algum
a criança efetivamente sofreu abusos durante as filmagens.

2 -(questão subjetiva) Definir se obra exalta, defende ou justifica os atos que retrata.

Em ambos os casos, seria imperativo que fosse realizado por uma comissão competente sem objetivos políticos, analizando cuidadosamente a obra, e não por uma canetada de uma juíza que nem viu o filme e só está reagindo ao pânico mo
ral deflagrado pelo boca a boca dos últimos dias.

A Serbian Film foi exibido completo em diversos festivais mundo afora, mas foi vetado em vários outros também. Para ser lançado em Bluray na Inglaterra, teve que ser cortado em 4 minutos e meio. O Brasil seria o primeiro país do mundo além da Sérvia em que o filme seria exibido em circuito comercial sem cortes. O distribuidor
Raffaele Petrini confirma o lançamento nos cinemas brasileiros, apesar da cópia confiscada: "Vamos lançar! Já estou recebendo e-mails de várias salas de cinema. Ele será exibido até porque não tem nexo essa ação, pois o filme não tem pedofilia".

Esse é o primeiro caso de censura prévia no Brasil em 27 anos, desde Je vous Salue Marrie. Na época, a pressão da Igreja levou à proibição de um filme que, visto até na época, não tinha nada de mais. Agora, as acusações de incentivo à pedofila levam à apreensão de um filme e a um terrível precedente. Não é o caso de apreensão de material pedófilo, pornografia infantil ou de um snuff real. A decisão da juíza nada mais é que uma reação ao pânico moral que a simples pronúncia da palavra "pedofilia" gera nos dias de hoje, sem que seja necessária menor confirmação das acusações.


Particularmente, não vi Albergue, nenhum dos Jogos Mortais e evito horror e gore extremo. E não pretendo descobrir se A Serbian Film é uma séria e importante obra sobre as atrocidades cometidas pelo ser humano ou se é um lixo oportunista e mal realizado. Mas essa é a MINHA decisão. Censura (e censura NÃO É classificação etária, algo imprescindível) parte do princípio de que somos todos crianças, incapazes de decidirmos o que queremos ou não ver.

E eu que achava que estávamos na vanguarda mundial contra a censura...


Detalhe: no horário em que o filme seria exibido, 90 pessoas protestaram contra a censura em frente ao Odeon. Mais gente do que cabe na salinha da Caixa Cultural onde ele seria inicialmente exibido. Nada como uma boa censura para aumentar o interesse das pessoas por filmes obscuros que antes ninguém sabia que existiam.