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terça-feira, 23 de junho de 2015

Os humanos do Scooby-Doo pelo Século XX

Por Nanael Soubaim.
Por estreita margem, escolhi esta, estilo anos 40.
  É muito difícil aparecer uma boa releitura de um clássico, tão difícil que quando aparece, também vira um clássico. Normalmente os que se proclamam "modernos e libertários" não resistem à tentação de corromper, enfraquecer, desgraçar ou fazer tudo junto, alegando humanizar os personagens. Francamente? Mesmo? A imprensa tenta fazer o mundo parecer muito pior do que realmente é, se esmera em focar a perversidade humana como se as pessoas fossem só isso.

  É por isso que de-tes-to a maioria dos filmes, em especial os que glamorizam o crime e o criminoso. Em uma guerra entre Goku e Kal-El, por exemplo, quem vence é Lex Luthor. É como se dois batalhões de polícia se digladiassem, a bandidagem perderia a pouca restrição que ainda tem e tu terias que literalmente beijar os pés do meliante, chamá-lo de "majestade" ou coisa pior.

  Isso quando não me aparecem versões pornô pesadas dos clássicos, algumas com clara apologia ao estupro. Foi por isso que gostei tanto desta releitura de Welma, Daphne, Salsicha e Freddy, os humanos do Scooby-Doo. Mesmo a versão da época deles, os anos setenta, é uma releitura. O desenho os mostra no primeiro terço da década, esta versão os mostra no último terço, com a febre da discoteca no auge. Quem fez a arte, entende muito do babado, conhece bem sobre indumentária de época.


  Sem mais delongas, apreciem sem moderação, escolham sua(s) década(s) preferida(s) e se joguem. Mas se joguem mesmo, mandem plantar batatas em alto mar quem tentar reprimir. Veja todas clicando aqui.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Pier Angeli e seu amor proibido



Por Nanael Soubaim


  Anna Maria Pierangeli teve como única falta grave, nos deixar cedo demais. A italiana de Cagliari veio em 19 de Junho de 1932, se foi em 10 de Setembro de 1971 em Beverly Hills. Era baixinha para os padrões hollywoodianos, 1,52m. O que lhe faltava em estatura sobrava no carisma. Gêmea de Marisa Pavan, ela teve uma história um pouco mais triste e trágica do que a irmã.



  Teve dois maridos em sua vidinha conturbada, Vic Damoni e Armando Trovaioli. Deixou dois filhos, Perry Damoni e Andrew Trovaioli. E como ela amava esses meninos! Foram casamentos problemáticos, especialmente o primeiro, que agradou à sua repressora mãe; ela parecia estar mais preocupada com seus padrões do que com a felicidade da filha.



  Seu primeiro trabalho foi no italiano “The Million Dollas Nickel”. O estranho é que ela está lá, nas cenas, mas seu nome não aparece nos registros. Ela não ficou muito tempo restrita à península, após "Domani è troppo tardi" de 1950, Hollywood a nacionalizou rapidamente.



  Conseguiu coisas que pouca gente no ramo consegue, ser amiga de verdade da maioria dos colegas, como Debby Reynolds, com quem veio ao Brasil em excursão em 1953, e o galã meteórico James Dean. Já perceberam que seus parceiros de cinema eram estrelas de primeira grandeza, como Paul Newman, Cid Charisse, Kirk Douglas... Enfim, a moça não foi para brincar, ela aterrissou na Califórnia para ser uma estrela de primeira linha. Dona de uma risada gostosa e de uma voz muito aconchegante, ela tinha uma facilidade imensa para cativar as pessoas.



  A carinha de anjo não escondia sua índole namoradeira. Não pérfida, mas namoradeira, o que gerava muitos ciúmes e cotovelos doloridos. mas trazia princípios morais da família dos quais não conseguia se desvencilhar. Namorou sério o rebelde James Dean, com quem teve um amor impossível, a mãe de Pier impediu o casamento por ele não ser católico. Sim, meus amigos, a namoradeira Anna Maria era uma moça à moda antiga, obedecia à mamãe mesmo depois de adulta e dona de seu nariz, mas desta vez a obediência foi daninha e custou caro. E dizem que ela também foi a única mulher que ele amou de verdade.



  Faleceu em casa, por choque anafilático. Nunca superou a morte de seu único e verdadeiro amor, James Dean, o que motivou suspeitas de suicídio. Quem a conhecia e sabia do amor quase obsessivo pelos filhos, descartou e rechaçou a hipótese. Como Romy Schneider, morreu mesmo foi de coração partido.

  Se tivessem se casado, talvez ela ainda estivesse viva, porque Marisa ainda está, talvez até Dean estivesse vivo. Mas nos fim das contas, mesmo contra a vontade da megera, eles estão juntos.




Wedsite dedicado à diva: Pier Angeli 

sábado, 31 de maio de 2014

Mädchen in Uniform


By Nanael Soubaim

  Há muitos filmes que mereceriam uma releitura de Hollywood, a maioria deles eu gostaria muito de ver em uma, mas há um que merece e eu espero que jamais ganhe. Explicarei, é só um minutinho e já lhes digo.

  Mädchen in Uniform, que em português literal seria "senhoritas no uniforme", é um drama alemão escrito por Christa Winsloe (aqui) e filmado pela primeira vez em 1931, baseado na bem sucedida peça "Gestern und heute", ou "ontem e hoje" em tradução literal. Sua característica mais marcante é ter o elenco todo feminino, não se vê um homem durante todo o filme. Essa primeira versão utilizou grande parte do elenco do teatro e filmado no orfanato militar de Postdam.

  A trama se passa no fim da bélle époque, conta a história da adolescente órfã Manuela von Meinhards, que perdera a família recentemente e é encaminhada ao orfanato, onde conhece a professora conhecida na trama por Governer Fräulein von Bernburg. Era um orfanato militar do início do século passado, as formalidades eram sim realmente necessárias à época. Quem quiser voltar no tempo e mostra-lhes métodos melhores, sinta-se à vontade. O primeiro elenco tem Hertha Thiele (aqui) como Manuela e Dorothea Wieck (aqui) como Fräulein Elisabeth von Bernburg.

  O enredo foge muito aos dramas esperados de um filme sobre orfanatos. O que temos aqui não é uma garota rebelde que quer se livrar das amarras formalistas de uma época repressora, bla-bla, bla-bla e bla-bla. Manuela é uma garota muito bem ajustada, obrigado, seu único sofrimento até então é mesmo a perda da família. O enredo trata de lesbianismo. Muito diferente do que alguns de vocês estão pensando e pelo que já começam a suar, não é nem de longe um filme erótico, não há sequer uma cena de intimidade sexual. Há carinho, algumas carícias leves, abraços longos, mas não o que muita gente esperaria de uma trama assim. A certa altura Manuela beija Fräulein, mas para os onanistas é a coisa mais sem graça do mundo.

  Devido ao trauma súbito e recente, a professora passa a dar atenções especiais à nova interna. O que normalmente a transformaria em uma mãe substituta para a aluna, acaba despertando a paixão dela. Trata-se de uma professora experiente, mas relativamente jovem e muito bonita, que certamente desperta a atenção masculina quando sai à cidade. Bem, o homossexualismo não era novidade na Europa da época, só era velado, mas nesta condição chegou a ser bastante tolerado pela maioria; embora um casamento nos moldes tradicionais continuasse nos planos sociais, enfim. Com o tempo e a resistência da professora, a moça tímida e aplicada passa a ter os arroubos costumeiros da adolescência. Em uma peça teatral dentro do orfanato, vestida de garoto do fim da idade média, Manuela se vale do papel, fura o roteiro e se declara publicamente à professora, sendo repreendida com dureza compreensível para a época, pela duquesa que comanda o orfanato. Claro que Hitler não gostou e esta foi uma das obras proscritas pelo nazismo.

  Manuela chega a tentar se matar, se atirando da escadaria. O orfanato é um prédio bem alto para a época. Isso fez a directora rever seus métodos, mas causou a renúncia da professora e... Não contarei o filme, ele está disponível para baixar e até algumas locadoras têm as duas versões mais famosas. A segunda versão foi filmada em 1958. Manuela é interpretada pela maravilhosa Romy Schneider (uma boa biographia aqui e uma aqui), Lilli Palmer (aqui) fez Elisabeth. Com o cinema falado, a expressividade vocal e a modulação da própria voz passaram a fazer parte do filme, e Romy emprestou uma doçura rebelde muito grande à Manuela. Ela foi mais melancólica do que Hertha, mas por isso mesmo até um pouco mais agressiva na demonstração de uma paixão proibida naquele ambiente de disciplina severa.

  O filme mostra a realidade nua, mas sem qualquer apelação. Tudo é contado de forma muito gentil, às vezes tempestuosa, mas muito gentil. Mesmo na versão de 1958, quando já era normal fazer alusão clara a relações sexuais, quando não insinuadas abertamente, o filme se preserva de excitações que distrairiam a atenção do público de sua mensagem central. Não há mais rebeldias do que as necessárias, não há mais intimidades do que as necessárias à trama, não há sequer um discurso explícito e politizado para colocar tudo a perder. Tudo, exceto a beleza da obra, está dentro do absolutamente necessário. E a segunda versão tem mais beleza por quadro do que as últimas bombas do cinema têm todas juntas em sua íntegra.

  Por que não quero que façam um remake? Porque os productoers de hoje dificilmente saberiam respeitar a obra. Hoje sequer se cogita a sutileza com que as duas versões trataram a paixão arrebatadora entre aluna e professora. Hoje se quer simplesmente chocar, como se as aves fossem a solução para os problemas mundiais. Bem, vou contar-lhes uma história triste e bela, a melhor forma de fazer um cabeça-dura ter certeza de que tem razão, é bater de frente com ele, ou chocá-lo pura e simplesmente. Eu sou um cabeça-dura assumido, sei do que estou falando.

  Dificilmente um director vai aceitar que tudo fique em um beijo roubado, que as carícias não adentrem nos vestidos e que não haja um homem sorrateiro que não existe no livro. Vai querer transformar o filme ou em uma tragédia desnecessária, ou em um lesbo-pornô desnecessário. Por isso, até que os factos e os parâmetros provem o contrário, prefiro que não haja refilmagens.