sexta-feira, 18 de março de 2022

Os filmes do Oscar: NO RITMO DO CORAÇÃO – 3 indicações

Por Ricky Nobre 

Todos sabem que a última coisa que precisamos é de uma refilmagem americana de um bom filme feito em qualquer outro lugar do mundo. Mas, às vezes, até os responsáveis pelo sucesso em questão podem discordar. Assim como Michael Haneke refilmou em Hollywood seu próprio filme Violência Gratuita, partiu dos produtores do sucesso francês A Família Bélier a realização de uma nova versão rodada nos EUA. A oscarizada Marlee Matlin se comprometeu com o projeto com a garantia de que todos os personagens surdos fossem interpretados atores também surdos, o que não aconteceu no filme original, gerando bastante polêmica.  Produzido de forma independente com um pequeno orçamento de 10 milhões de dólares, o filme foi comprado no Festival de Sundance pela Apple pelo valor recorde de 25 milhões. O filme se tornou um grande sucesso no streaming e foi parar no Oscar.

 

No Ritmo do Coração (agradecemos aos distribuidores brasileiros pela extrema breguice deste título nacional) conta a história da jovem de 17 anos Ruby, única ouvinte de uma família de surdos. Ela trabalha com o pai e o irmão no ramo de pescaria e é a principal ligação deles com o mundo. A vida de Ruby é marcada pelo preconceito, principalmente na escola, seja por pertencer a uma família de surdos, seja por trabalhar com pesca. Ela descobre sua paixão pela música e entra num delicado conflito entre investir em seu sonho e seu papel não apenas no negócio, mas na própria estrutura de sua família. 

 

CODA (título original do filme) se refere ao trecho final de uma composição musical, e é também a sigla em língua inglesa para “filho ouvinte de adultos surdos”. CODA é a própria identidade de Ruby. Em determinado momento, ela afirma que nunca pode ser totalmente criança, recebendo responsabilidades de adulta por estar na posição de conexão entre seus pais e irmão com um mundo que não se esforça minimamente para compreendê-los. Onde quer que ela vá, ela é “a menina da família surda”. Ao desejar cursar a faculdade de música em outro estado, Ruby busca, acima de tudo, uma identidade própria, mas a resistência é inevitável, pois as circunstâncias tornaram o negócio da família inviável sem a jovem.

 

A diretora e roteirista Sian Heder é muito hábil e lidar de forma simples, precisa e clara com esses e outros temas delicados com uma leveza impressionante. Não é à toa que nossos distribuidores escolheram um título que parece de um filmezinho edificante da Sessão da Tarde. Porque é exatamente isso que ele é... só que bom! Os problemas e dramas da família não tornam o filme pesado. Pelo contrário, ela é retratada como uma família feliz, amorosa e alegre. O humor é constante, mas na medida certa e o elenco perfeito faz tudo funcionar, desde o hilário constrangimento da filha ouvindo os pais transando, até o soco na cara que é ver a mãe confessar que preferia que a filha também fosse surda. Talvez o único “porém” seja o professor de música vivido por Eugenio Derbez, que começa de forma excessiva e incomodamente caricata, mas que vai ajustando sua performance no mesmo ritmo leve e honesto do restante do elenco.

 

CODA é o famoso filme “pra rir e chorar”, “pra toda a família”, com toda a cara de “oscar bait”, mas TÃO genuinamente despretensioso, leve e adorável que escapa completamente dos constrangimentos dos clichês excessivamente batidos. A honestidade com que os personagens surdos são retratados elevam o filme imensamente. Apesar dos olhares preconceituosos, é uma família completamente normal, comunicativa, amorosa, mas que, como quaisquer outras, também guarda alguns ressentimentos no silêncio. E tudo passa a funcionar justamente quando há a comunicação, seja pela linguagem falada, pela dos sinais, pela música ou pelo toque na garganta de uma filha que canta. 

COTAÇÃO:


 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Ator coadjuvante: Troy Kotsur

Roteiro adaptado: Sian Heder

 

NO RITMO DO CORAÇÃO (CODA, EUA/França/Canadá – 2021)

Direção e roteiro: Sian Heder

Fotografia: Paula Huidobro

Montagem: Geraud Brisson

Música: Marius De Vries

Design de produção: Diane Lederman

quarta-feira, 16 de março de 2022

Os filmes do Oscar: A FILHA PERDIDA – 3 indicações

Por Ricky Nobre

A adaptação para cinema de uma obra literária que se compõe mais de reflexões do narrador do que da narração de uma sequência de fatos é particularmente difícil. Da mesma forma que, em plena terceira década do século XXI, também é difícil a apresentação de protagonistas com algum tipo de moral duvidosa, fora de algum padrão, desviando de alguma “normalidade”, principalmente se for feminina e não houver, em algum momento do roteiro, uma punição externa por seus desvios. E mais ainda se esta personagem se desvia do sagrado e inquestionável caminho da maternidade abnegada. Em sua estreia na direção cinematográfica, a atriz Maggie Gyllenhaal definitivamente não escolheu a facilidade. 

Leda é uma professora universitária em férias na Grécia. Sua personalidade reclusa encaixa-se perfeitamente no cenário e na paz que encontra na praia próxima ao hotel. Essa paz é perturbada, porém, com a chegada de uma família extensa, espaçosa e barulhenta, com a qual Leda já inicia certa animosidade graças a sua voluntária falta de simpatia. Uma integrante dessa família, porém, captura a atenção sua atenção: Nina, uma jovem mãe na qual Leda vê um espelho que lhe traz memórias as quais não quer recordar, mas do qual não consegue tirar os olhos. Seus dias na cidade e as interações com as pessoas lhe trarão uma série de lembranças, principalmente de suas duas filhas e ela terá que lidar com segredos do passado e do presente.

 

Gyllenhaal desvenda a personagem Leda, sua história, seus segredos e caráter muito lentamente e de forma não linear. Vamos tomando conhecimento de suas atitudes e decisões de forma fragmentada, e quase pergunta alguma é respondida de imediato. Não há intenção de que Leda seja desvendada rapidamente. Ela é reclusa, irrita-se com as aproximações de quem pretende flertar ou apenas jogar conversa fora, para, em outro dia, ou momentos depois, ela própria fazer a mesma coisa. Tem memórias de profunda impaciência com as filhas e evita responder perguntas sobre elas, enquanto que, em outros momentos, fala sobre elas compulsivamente. É assombrada pela culpa de decisões passadas, ao mesmo tempo em que admite que tomá-las “foi maravilhoso”. Leda não é um mistério apenas para o público, mas também para si mesma. Por mais simples que seja para o espectador explicar os motivos do sumiço da boneca, ela mesma não faz a menor ideia do porquê ela fez o que fez. A nossa perspectiva sobre nós mesmos é única, e normalmente colide com as de quem nos observa. 

 

Gyllenhaal não teme o julgamento do público sobre a protagonista. Ao contrário, ele é convidado a observá-la bem de perto, com frequentes closes da câmera quase sempre na mão. A leveza da câmera usada (a Arri Mini), dá aos movimentos uma mobilidade semelhante a de uma câmera 16mm. Aliás, apesar do desejo da diretora em rodar o filme em película, o orçamento restrito não permitiu. A fotografia digital, porém, é extremamente bem concebida pela fotógrafa francesa Hélène Louvart, veterana que já trabalhou com Agnès Varda, Claire Denis e com o brasileiro Karim Aïnouz. A diretora constrói a estética de seu filme com muita informação do cinema europeu dos anos 50 e 60. O enquadramento é no formato 1,66:1, que foi comum na Europa até a década de 80. A inesperada música de Dickon Hinchliffe segue caminho semelhante a partir da concepção da diretora, que explicou ao compositor que queria que a trilha soasse como um “disco encontrado”, um velho LP com dos anos 50 ou 60 que, magicamente, se encaixaria perfeitamente no filme. A trilha de Hinchliffe, gravada com equipamentos e técnicas analógicas, mescla-se com as canções originais da artista grega Monike, formando uma tapeçaria sonora que adorna essa estética vintage de Gyllenhaal.

A diretora constrói sutilmente um clima de suspense (como quando a boneca parece ter sumido do armário, ou o medo que Leda tem do marido de Nina), sem que, em momento algum, o filme pareça pertencer a esse gênero. Esse suspense acompanha a inquietação do espectador em tentar descobrir, principalmente através dos flashbacks (muito bem costurados pela montagem do brasileiro Affonso Gonçalves), uma chave, um código capaz de desvendar Leda. Esse código vem aos pedaços, não é preciso nem matemático. Leda não é perfeitamente coerente, porque ninguém o é. Se Leda nos escandaliza em alguns momentos, talvez não reagíssemos assim se fosse um homem protagonista. Sua personagem não é exatamente “desculpada”, ou “justificada” pela narrativa e pelo roteiro. Ela apenas É. Ela sente, reage e vive como consegue frente aos desafios da vida e às imensas expectativas que se impõe a ela, que são as que se impõem a qualquer mulher. 

 

A interpretação sublime de Olivia Colman, com o perfeito complemento de Jessie Buckley que vive a Leda jovem, é onde tudo isso se converge e solidifica. As emoções, a culpa, a dúvida, a vergonha, o desejo de viver, a desilusão, tudo ganha vida no trabalho excepcional das atrizes. Sob aparente simplicidade, A Filha Perdida é um filme intensamente emocional, ainda que de uma emoção sufocada. O público reage com sentimentos que vão da revolta à profunda identificação, e essa disparidade é esperada, pois depende de como cada uma idealiza e vive a maternidade. Quando se idealiza a maternidade, ou seja, quando se idealiza uma mãe, idealiza-se também o filho. A filha perdida é aquela que desapareceu junto com a ilusão de uma maternidade ideal, “assassinada” pela filha de verdade. Leda tenta, desesperadamente, reavê-la no futuro. Mas não é possível sequestrar um sonho perdido.

 COTAÇÃO:

 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Atriz: Olivia Colman

Atriz coadjuvante: Jessie Buckley

Roteiro adaptado: Maggie Gyllenhaal, baseado no livro de Elena Ferrante.

 

A FILHA PERDIDA (The Lost Daughter, EUA / Reino Unido / Israel / Grécia – 2021)

Com: Olivia Colman, Jessie Buckley, Dakota Johnson, Ed Harris, Peter Sarsgaard, Paul Mescal e Dagmara Dominczyk.

Direção e roteiro: Maggie Gyllenhaal

Fotografia: Hélène Louvart

Montagem: Affonso Gonçalves

Música: Dickon Hinchliffe

Canções originais: Monika

Design de produção: Inbal Weinberg       

segunda-feira, 14 de março de 2022

Os filmes do Oscar: LUCA – 1 indicação

Por Ricky Nobre

Como foi comentado na crítica de Raya, os lançamentos da Disney de 2021 têm em comum as influências que seus produtores tiveram dos filmes do Studio Ghiibli. Especificamente, o italiano Enrico Casarosa, diretor de Luca, declarou em entrevista o impacto que o cinema de Hayao Miyazaki teve em seu filme (o nome da cidade ser Portorosso já dá a dica). No entanto, ainda que essas influências sejam concretas e formem a identidade do filme, a ausência de uma característica especifica acaba por fazer de Luca uma experiência não completamente bem-sucedida. 


Na Riviera Italiana dos anos 60, o jovem Luca vive no fundo do mar com sua família de criaturas marinhas, mas sempre com curiosidade sobre a superfície, apesar dos avisos de sua mãe. Quando ele conhece Alberto, que vive na superfície a um tempo, ele descobre que, ao sair da água, passa a ter a aparência de humano. Ao visitar a pequena cidade de Portorosso, ele entra numa corrida para poder comprar uma lambreta e, junto com o amigo, viajar pelo mundo.


A história é muito simples e bem pequena. Apesar dos ecos iniciais de A Pequena Sereia, Luca passa a se assemelhar mais com Ponyo, revelando a principal inspiração do diretor. Essa simplicidade da história leva a um ritmo mais lento, mais longe da histeria típica da animação americana, vinda da potencialização do estilo hollywoodiano de roteiro onde tudo tem que ser objetivo e cada cena só pode existir se “levar a história adiante”, excluindo qualquer tempo a ser investido em atmosfera, em contemplação, em conhecer os personagens através de cenas simples (para quem quiser se aprofundar, sugiro esse excelente vídeo do Max Valarezo “Hayao Myiazaki e a importância do vazio)”. Alguns podem perceber o filme como arrastado e isso talvez seja pelo roteiro ainda tentar manter uma aparência de “agilidade”, principalmente com os diálogos, ou seja, não entrando totalmente de cabeça em um ritmo mais lento, ou ainda, provavelmente, pela expectativa do público em relação a um filme da Pixar. 

Mesmo assim, Luca cumpre muito bem o seu papel de ser uma obra mais simples e leve do estúdio. Os personagens são excelentes e cativantes. Luca tem pinceladas muito divertidas de Bob (o do Mundo Fantástico), com sua fértil imaginação sobre as maravilhas do mundo terreno que ele acabava de conhecer. Giulia é uma luz no filme com seu otimismo e alegria. O grande problema do filme, que o impede de ser um marco na Pixar e um perfeito exemplo da influência de Miyazaki no estúdio, vem de outro personagem, o vilão Ercole. 


Ercole falha em todos os aspectos. Ele não é ameaçador, nem assustador, dada sua construção complemente caricatural e tola. Sendo tão exagerado e particularmente burro, o personagem podia conquistar pelo humor, se não fosse completamente sem graça. Um vilão que não é nem assustador nem inteligente precisa ser engraçado. E com um vilão que é com certeza o pior que já saiu da Disney/Pixar, o filme deixa a pergunta se não teria sido muito melhor seguir outro exemplo do Miyazaki e apresentar uma história sem vilão. A figura do antagonista que não é “mau” (como foi muito bem usada neste mesmo ano em Raya) ou mesmo a total ausência de uma figura específica que assuma esse posto, daria uma leveza ainda maior para o filme ao mesmo tempo em que o tornaria mais realista, no sentido de que as dificuldades muitas vezes não vêm necessariamente de uma figura específica, mas de uma mentalidade, uma cultura ou um conjunto de situações. Porém, essa abordagem, se tivesse sido utilizada, comprometeria o segundo problema do filme: seu desfecho. 


Luca está sendo lido por uma grande parcela do público como uma simbologia do preconceito contra LGBTs. E não é uma análise absurda. A conclusão do filme deixa isso razoavelmente claro e é um toque ao mesmo tempo simpático e sensível. Outra leitura que leva essa simbologia a um nível mais literal (uma suposta atração romântica entre Luca e Alberto) soa mais forçada mas vem sendo discutida. Enfim, a conclusão simplista dada ao próprio vilão (sim, tudo sobre ele é ruim), acaba por influenciar ou, na melhor das hipóteses, refletir a solução simplista dada ao horror que a população da cidade tem dos “monstros marinhos” (tentando evitar spoiler, mas é do nível de “ah, tá, eles são legais”). Ao ligar a perpetuação do preconceito à intransigência de um único vilão ridículo, o filme sugere que a solução para esse problema é simples e tola. 


A ausência do personagem Ercole talvez empurrasse o roteiro para uma solução menos tola e mais complexa. Mas talvez não. O que fica ao final de Luca é uma sensação muito terna e simpática de amor e fraternidade. Mas poderia ter ido bem além. 

 COTAÇÃO:

 

INDICAÇÃO AO OSCAR:

Melhor longa de animação

 

LUCA (EUA – 2021)

Com: Jacob Tremblay, Jack Dylan Grazer, Emma Berman, Saverio Raimondo, Maya Rudolph e Marco Barricelli

Direção: Enrico Casarosa

Roteiro: Jesse Andrews e Mike Jones

Fotografia: David Juan Bianchi e Kim White

Montagem: Catherine Apple e Jason Hudak

Música: Dan Romer

Design de produção: Daniela Strijleva

domingo, 13 de março de 2022

Os filmes do Oscar: O BECO DO PESADELO – 4 indicações

Por Ricky Nobre

Guillermo del Toro faz filmes de monstros. Algumas vezes eles são a real ameaça (como em Blade 2 e Círculo de Fogo), em outras são ambíguos (Labirinto do Fauno), mas outras são os heróis marginalizados por sua aparência (como Hellboy e A Forma da Água). Porém, mesmo naqueles em que os monstros são de fato ameaçadores, é tema recorrente em seu cinema a noção de que os monstros de verdade são os seres humanos. Em O Beco do Pesadelo, Del Toro dá um passo adiante: as pessoas são as vítimas e os monstros de si mesmos.

 

Nesta adaptação do livro de William Lindsay Gresham, que já foi filmado em 1947 com Tyrone Power, acompanhamos Stanton, um homem sem dinheiro e sem lar que encontra trabalho, teto e uma família em um parque de diversões. Enquanto a Segunda Guerra se iniciava na Europa, Stanton aprende técnicas de “mentalismo” e fica fascinado com as possibilidades. Seu sonho é criar um grande ato que o deixe rico, e para tal se utiliza não apenas de seu grande talento e inteligência para golpes, mas também de limites éticos muito flexíveis.

 

O filme possui duas metades radicalmente diferentes. A primeira do parque tem ritmo lento, apresenta e constrói diversos personagens, e vai aos poucos desvendando o protagonista, que inicialmente é um mistério tanto para os demais personagens quanto para o público. Aos poucos, vai se estabelecendo uma forte identificação de Stanton com o que o parque tem de mais sombrio, como as técnicas de golpes e a capacidade de explorar pessoas em seus momentos mais vulneráveis, seja a fé dos visitantes, seja a vida de viciados. Ali, Stanton descobre seu talento e seu propósito. Isso o leva à segunda metade do filme, urbana e mais classicamente noir, com golpes de altos riscos, dinheiro sujo, mistério é, é claro, a femme fatale. 

 

Del Toro é mestre nos visuais de seus filmes e aqui ele é especialmente esmerado. A direção de arte e a fotografia são lindíssimos e a música de Nathan Johnson é eficiente e climática, apesar de não particularmente inspirada. O excelente elenco é um grande trunfo, com especial destaque para David Strathairn como o velho mentalista que abandonou as antigas práticas quando sua consciência não aguentava mais, caindo no alcoolismo. Talvez o único aspecto mais problemático do filme seja, inesperadamente, a atuação de Cate Blanchet. É uma interpretação tão pesada que esmaga tudo o que, potencialmente, deveria ser o destaque de seu personagem: a sensualidade, o mistério, a beleza... talvez apenas a inteligência da personagem consiga se destacar um pouco, ainda que suas motivações sejam muito pouco claras.  

 

A chave para compreender o filme, seu protagonista e sua marcha sombria e resolutamente fatalista até o final está na forma como Stanton lida com seu passado e seus demônios internos, seja seu pai, outras figuras paternas, sua arrogância e seus segredos obscuros, incapaz de se libertar de seu egoísmo e ressentimentos. Stan termina por fechar um círculo perfeito. Ele é o golpista e a vítima. Del Toro, seja com seus monstros perversos, seja com os monstros heroicos, sempre apresentou algum feixe de luz na escuridão. Aqui são só abismo e trevas. As trevas da alma que não sabe perdoar e seguir a vida e só sabe devolver ao mundo todo o mal que recebeu. É para o que ele nasceu.

COTAÇÃO:


 

 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Direção de arte: Tamara Deverell e Shane Vieau

Fotografia: Dan Laustsen

Figurino: Luis Sequeira

 

O BECO DO PESADELO (Nightmare Alley, EUA/México/Canadá – 2021)

Com: Bradley Cooper, Rooney Mara, Cate Blanchett, Toni Collette, Willem Dafoe, Richard Jenkins, Ron Perlman, Mary Steenburgen, David Strathairn e Mark Povinelli

Direção: Guillermo del Toro

Roteiro: Guillermo del Toro e Kim Morgan, baseado no livro de William Lindsay Gresham

Fotografia: Dan Laustsen

Montagem: Cam McLauchlin

Música: Nathan Johnson

Design de produção: Tamara Deverell

sábado, 12 de março de 2022

Os filmes do Oscar: TICK, TICK... BOOM! – 2 indicações

Por Ricky Nobre

Jonathan Larson foi um meteoro que passou pelo teatro musical norte americano e o mudou para sempre. Autor do musical Rent, seu primeiro e único grande espetáculo a ser encenado e que ficou 12 anos em cartaz na Broadway e mudou a forma de se perceber e fazer musicais, Larson teve uma morte trágica e precoce, vítima de um aneurisma causado por uma síndrome rara, que o levou um dia antes da estreia. Larson não chegou a ver seu sucesso e o impacto que causou. Depois de passar oito anos compondo o musical Superbia, que acabou não conseguindo patrocínio, Larson criou o pequeno tick, tick... BOOM!, um show intimista onde o próprio contava e cantava sua luta para se tornar um grande artista, suas dúvidas, decepções e o medo do tempo passando e a proximidade dos 30 anos de idade (como uma bomba relógio, tick, tick...). A adaptação deste pequenino espetáculo para a tela, transformando-o em uma biografia musical de um autor de musicais foi o desafio de Lin-Manuel Miranda, premiado autor e diretor da Broadway, em sua estreia no cinema.

 

O roteirista Steven Levenson é bastante hábil ao construir uma narrativa biográfica costurada, entranhada no pequeno show de Larson. O verso e a prosa dele no palco completam e rimam com a encenação de sua luta diária trabalhando em restaurante, desenvolvendo seu espetáculo e tentando não erodir suas relações, seja com os amigos, seja com a namorada. A primeira meia hora é particularmente delicada e alguns podem ter dificuldade de sobreviver a ela. A proposta não fica muito clara para o espectador e a montagem picotada, especialmente na parte dramatizada, não é gentil com as interpretações, que parecem forçadas. Com o tempo, não só a mecânica de funcionamento do filme fica mais clara, mas o próprio filme passa a se entender melhor, e ele finalmente deslancha e só vai ficando cada vez melhor.

 

Andrew Garfield tem aqui seu melhor trabalho na carreira e é o principal responsável por manter o público sempre torcendo por ele, mesmo quando ele não é exatamente o melhor dos amigos ou o melhor dos namorados. Os demais personagens, especialmente o amigo Michael e a namorada Susan, são bem escritos, com estrutura e força próprias, provavelmente fruto das entrevistas com amigos e profissionais que conheceram Larson que o roteirista fez para desenvolver a parte biográfica do roteiro. Essa qualidade dos coadjuvantes só enriquece a história de Larson e enfatiza o impacto deles na sua vida e no seu trabalho. 

 

O filme tem uma produção bem simples, sem grandes arroubos de mega musical, mantendo bastante o espírito off-off-broadway do espetáculo original. O efeito “viagem no tempo” e a imersão do espectador na época da narrativa (o comecinho dos anos 90) é muito boa e é inevitável a presença da ameaça da AIDS, grande fantasma daquela geração, numa época em que a doença era quase sempre letal.

Para os fãs de musicais em geral e para os de Rent em particular, tick, tick...BOOM! é um filme recomendadíssimo. Para o restante do público, depende do quanto conseguir se conectar com a proposta narrativa, principalmente na primeira meia hora, que de fato não é a parte mais bem resolvida do filme. No mais, tem a excelente performance de Garfield e é uma jornada emocionante, alegre, mas também melancólica, pois sabemos que a luta tão obstinada de Larson será bruscamente interrompida. 

COTAÇÃO:

 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Ator: Andrew Garfield

Montagem: Myron Kerstein e Andrew Weisblum

 

tick, tick… BOOM! (EUA – 2021)

Com: Andrew Garfield, Alexandra Shipp, Robin de Jesus, Vanessa Hudgens, MJ Rodriguez e Judith Light

Direção: Lin-Manuel Miranda

Roteiro: Steven Levenson, baseado no musical de Jonathan Larson

Fotografia: Alice Brooks

Montagem: Myron Kerstein e Andrew Weisblum

Design de produção: Alex DiGerlando

sexta-feira, 11 de março de 2022

Os filmes do Oscar: A FAMÍLIA MITCHELL E A REVOLTA DAS MÁQUINAS – 1 indicação

Por Ricky Nobre

A Sony Animation vem se desenvolvendo desde 2006 com longas e franquias de razoável sucesso, como O Bicho Vai Pegar e Hotel Transilvânia, com alguns tropeços lamentáveis como Emoji: O Filme. Porém, após o maravilhoso e oscarizado Homem Aranha no Aranhaverso tornar-se um clássico instantâneo, o estúdio mostrou-se mais aberto a ousadias. O mais recente resultado dessa fase é A Família Mitchell e A Revolta das Máquinas, um filme histérico, reflexivo, hilário, terno, abestado, mordaz e genial.

A jovem Abbi é uma apaixonada por cinema que faz seus próprios curtas em seu canal no Youtube. Prestes a se mudar para ingressar na faculdade de cinema, acaba fazendo a viagem de carro com sua família problemática (“a pior família do mundo”). No caminho, são surpreendidos por uma insurreição de inteligências artificiais comandadas por Pal (uma versão da Alexa) como vingança por ter sido rebaixada à obsolescência. Cabe aos Mitchells a hercúlea tarefa de salvar o mundo, ao mesmo tempo em que lutam para realizar as tarefas e as conexões emocionais mais simples. 

 

Os Mitchells é um triunfo artístico e técnico. A paixão de Abby por cinema e arte é o ponto de partida de toda a concepção estética do filme, que tem constantes intervenções em animação 2D e cartunesca onde até memes de internet se intrometem na narrativa. A própria animação dos personagens carrega uma leve camada de 2D, principalmente nos rostos, como um filtro, que dá uma expressividade diferente e específica, que ecoa uma animação mais livre e tradicional, ao mesmo tempo em que as já mencionadas intervenções constroem uma linguagem própria e a conecta com o dia a dia do público mais jovem, sendo, talvez, um dos longas de animação mais radicalmente conectados com seu tempo já produzidos. 

 

O tema da revolta das máquinas não é explorado a fundo, mas o roteiro dá conta de umas boas pinceladas no assunto (só a fala “roubar os dados dos usuários para alimentar uma inteligência artificial talvez não tenha sido uma boa ideia” já vale o filme). Uma excelente decisão foi não demonizar a tecnologia, apesar das diversas críticas à indústria e aos usuários. Da forma como o tema se desenvolve, tecnologia é ao mesmo tempo a guilhotina e a tábua de salvação dos personagens, e até o personagem mais resistente à modernidade terá que enfrentar sua aversão a ela.

 

O foco, na verdade, é a relação familiar, mais especificamente entre pai e filha. Abby não se sente acolhida nem compreendida, como se sua arte não significasse nada, enquanto o pai teme que a filha sofra com as mesmas decepções que ele sofreu na juventude. O filme dá margem para os personagens fazerem e dizerem coisas bastante questionáveis, ao mesmo tempo que mostra seu empenho em continuarem juntos e vencerem os obstáculos. São personagens, acima de tudo, profundamente humanizados, e o filme mantém momentos muito ternos, sem diminuir o tom inteligente e a intensidade alucinada da comédia. Muito interessante a decisão de dar ao menino Aaron alguns possíveis traços de autismo e Abby ser LGBTQ+. Questionável em todo filme foi apenas a decisão do diretor Michael Rianda em ele mesmo dublar Aaron. Criança com voz de adulto já foi feito antes, mas aqui não tem motivo e fica muito estranho.

 

Os diretores Michael Rianda e Jeff Rowe, em suas estreias em longa-metragem, realizam uma animação emocionante, com um enorme fator de risco com o tom e o estilo do humor e da linguagem. Era para ser lançada nos cinemas em fins de 2020, mas a pandemia fez a Sony decidir vender para a Netflix, que lançou em abril de 2021. Mesmo assim, foi um imenso sucesso e uma continuação já está prevista. Disparada, a melhor animação do ano.

COTAÇÃO:


 

INDICAÇÃO AO OSCAR:

Melhor longa de animação

 

A FAMÍLIA MITCHELL E A REVOLTA DAS MÁQUINAS (The Mitchells vs The Machines, EUA – 2021)

Com: Abbi Jacobson, Danny McBride, Maya Rudolph, Michael Rianda, Eric André e Olivia Colman

Direção e roteiro: Michael Rianda e Jeff Rowe

Diretor de animação: Federico Abib

Montagem: Greg Levitan

Design de produção: Lindsey Olivares

Música: Mark Mothersbaugh