terça-feira, 20 de junho de 2023

THE FLASH

Por Ricky Nobre

The Flash é o perfeito exemplo do pior que pode acontecer no atual modelo de produção hollywoodiano, especialmente no subgênero “super-heróis”, o estilo de blockbuster que domina o mercado há cerca de 15 anos. Particularmente no universo DC, que a Warner tocou de forma totalmente atrapalhada, sem uma fração do planejamento executado pela Marvel, algo assim era uma tragédia anunciada. The Flash está em produção há anos, passou por nada menos do que três administrações diferentes e lhe foi incumbida a tarefa de definir o futuro da franquia de super-heróis do estúdio. O problema é que esse futuro mudava constantemente. Como a materialização no mundo real das linhas de tempo de um multiverso bagunçado e destruído pelos atos inconsequentes de um jovem Barry Allen, a produção de The Flash passou por diversos diretores que abandonavam o projeto por não concordarem com os caminhos pretendidos pelo estúdio. Ficou para Andy Muschietti (de Mama e IT) a tarefa ingrata de conseguir terminar um filme constantemente reescrito, reimaginado e refilmado. 

 

É importante esclarecer que The Flash não é um filme horrível. Com todos os problemas, se sai melhor que bombas como Esquadrão Suicida, WW84, Shazam 2 e Adão Negro. O filme abre com uma divertida missão da Liga, que tem um espírito bem leve de aventura juvenil, onde a ação e o humor são muito bem trabalhados por Muschietti. A dimensão emocional do filme é sólida e sensível, os momentos mais emotivos nunca são destruídos por alguma piada estúpida, e as cenas de Barry com sua mãe (que grata surpresa ver Maribel Verdú no papel) estão entre as melhores do filme. Todas as cenas dos “dois Barrys” funcionam perfeitamente, tanto na interação, no drama, no humor e tecnicamente, pois os efeitos especiais dessas cenas são disparados os melhores. A dinâmica entre os dois personagens é tão boa que parece mesmo serem dois atores diferentes, mérito principalmente de Ezra Miller. A Supergirl de Sasha Calle acaba não tendo tanto espaço, o que é uma pena, pois ela delineia uma boa versão da heroína e é uma pena saber que não há planos de mantê-la no futuro filme planejado da personagem. Quem acaba ganhando muito destaque é o Batman de Keaton, onde o ator parece estar 100% à vontade e se divertindo muito.

 

The Flash se desenrola como um bom filme do gênero, ainda que aquém do marketing que lançou mão de elogios superlativos e promessas do “maior filme de super-herói de todos os tempos”. Porém, conforme o terceiro ato se aproxima, problemas que já se apresentavam sutilmente começam a se agravar e a dominar a narrativa. Uma característica bem interessante do roteiro é que não há, na realidade, um grande vilão no filme. O grande antagonista de Barry Allen é ele mesmo e sua obsessão em concertar um passado traumático. Concretamente, o filme tem vilões reais, sendo um deles bem simbólico da temática, e outros com função mais utilitária, que servem a momentos da trama. Mas ao tomar emprestada a trama de Homem de Aço como parte de jornada temporal do herói, o vilão Zod torna-se quase um boneco, sem um diálogo marcante, sem uma presença ameaçadora real além da lembrança do que ele representou no filme de 2013 que iniciou o “snyderverso”, ao qual esse filme se aplica e, tropegamente, conclui (fato curioso: em The Flash o corte de Snyder de A Liga da Justiça é canônico).

 

Se o filme, até o momento da grande batalha campal, já era praticamente destituído de uma identidade visual marcante, a partir dali assume toda a linguagem visual típica de videogames, com câmera baixa, a movimentação de câmera que se assemelha a uma visão subjetiva, baixa saturação de cor geral e planos muito abertos, quase sempre com grande angular (fenômeno curioso nos últimos anos que, do “filme de autor” ao blockbuster, parece que não existe mais outra lente na indústria além dessa...). Esse pseudo realismo de videogame, que nem emula convincentemente a realidade, nem decola com uma proposta estética minimamente criativa dentro de um universo de fantasia que é o dos super-heróis, resulta mais do que em pobreza estética, mas em um filme inescapavelmente FEIO. Feio como nenhum filme do DCEU conseguiu ser, já que tudo se pode dizer dos filmes desta fase da DC, menos que seus diretores não possuíam total domínio da qualidade estética dos filmes que criaram. O pouco de estilo que o filme tem é emprestado, majoritariamente com tudo relacionado ao Batman de Keaton. É muito curioso como a música de Benjamin Wallfisch reflete com perfeição esse problema do filme. Quando os dois Barrys se aproximam de uma decadente Mansão Wayne, a trilha já vira toda Danny Elfman, e sempre que o personagem se destaca é dada uma interpretação completa de seu tema clássico ou a música assume completamente o estilo daquele compositor. Quando Batman sai de cena, tudo volta ao estilo 100% genérico, onde orquestra e eletrônicos se intercalam sem nenhuma proposta dramática e musical definidas, e é virtualmente impossível distinguir um tema musical para o protagonista. Desta forma, para ser honesto, é impossível dizer que a música não tem a cara do filme.

 

 Ready? Start!

Infelizmente, The Flash quebra de vez justamente onde menos poderia fazê-lo, que é seu clímax. Muito se fala da má qualidade do CGI no filme, mas realmente existem momentos em que a “má qualidade” é proposital, especialmente quando o protagonista está no ambiente onde ele consegue visualizar momentos do passado e interferir neles se desejar. Nesse ambiente, é tudo propositalmente distorcido, cartunesco. Se algo ou alguém parece torto, é essa a intenção. Isso, porém, não exime todo o design destas cenas de sua incrível feiura, com uma saturação de informações visuais que não dão conta da complexidade daquele ambiente, tornando-o apenas confuso. E é nesse caos (no pior sentido) que o filme lança mão de aparições surpresa de alguns personagens, estes sim, num CGI dos mais toscos, resultando em personagens apáticos, robóticos, que paralisam a trama apenas para aparecerem, num fanservice completamente descolado da narrativa, tornando o clímax, que deveria ser um ápice emocional, principalmente levando em conta a coragem do roteiro em relação ao destino de alguns personagens, em um desfile de bizarrices. 

 

Sendo honesto, não dá pra botar tudo na conta da Warner, e o diretor Muschietti tem responsabilidade em suas decisões. Mas é inegável que ele teve que, heroicamente, conduzir esse navio furado no mar de caos que é o que o estúdio se tornou. Ele já está garantido no comando do Batman do novo universo, quase que como um prêmio pelos fiéis serviços prestados. No apagar das luzes, o DCEU toma emprestado o pior do MCU, que são a baixa qualidade estética da maioria dos filmes (embora nenhum tenha conseguido ser tão ruim nesse quesito) e a submissão da liberdade criativa do diretor em nome de produções futuras. A diferença é que na Marvel esse futuro existe. Em The Flash, foram idas e vindas correndo atrás de um futuro sempre em mutação, até a decisão do fim deste universo, a ser substituído por outro sob o comando de James Gunn. Daí o final deste (que é um dos três filmados) encerra tudo com uma piada. Uma boa piada, é verdade. Mas o DCEU, com todos os problemas, merecia mais.

 COTAÇÃO:


 


THE FLASH (EUA, 2023)

Com: Ezra Miller, Sasha Calle, Michael Keaton, Maribel Verdú, Ron Livingston, Michael Shannon, Ben Affleck, Kiersey Clemons e Jeremy Irons.

Direção: Andy Muschietti

História: John Francis Daley, Jonathan Goldstein, Joby Harold

Roteiro: Christina Hodson

Fotografia: Henry Braham

Montagem: Jason Ballantine e Paul Machliss

Música: Benjamin Wallfisch

Design de produção: Paul D. Austerberry