quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Sobreviventes – Depois do Terremoto: O inimigo somos nós.

Eddie Van Feu


O mundo acaba. Mas não em fogo, água, meteoro ou invasão alienígena. Acaba com um imenso, estranho e inesperado terremoto, que simplesmente destrói tudo. Exceto um prédio no coração de Seul, que fica inexplicavelmente de pé. O Hwang Gung Apartments se torna então o centro da história, que é muito mais sobre a tragédia humana do que sobre catástrofes naturais. Pessoas começam a chegar. Mandá-las embora é sentenciá-las à morte, pois o frio é implacável. Deixá-las ficar é perigoso, pois podem tomar os lares de quem já vive lá. E haverá recursos para todos?



Com direção de Tae-hwa Eom, que também assina o roteiro ao lado de Lee Shin-ji, a produção é cuidadosa, com uma fotografia belíssima, delicada, mesmo em meio a escombros. As atuações são sensíveis e os personagens são muito bem construídos, tornando muito fácil a identificação. As questões que o filme levanta são muito sérias, sendo uma alegoria sobre as decisões que estamos tomando enquanto civilização. O “nós” contra “eles” só tem um tipo de desfecho e o conforto de uns em detrimento da desgraça de muitos não pode trazer nada de bom. O quanto precisamos nos destruir por dentro para manter o que temos do lado de fora? Quem podemos nos tornar em uma situação de crise? Uma frase é muito emblemática no filme, dita por uma das personagens mais perigosas, disfarçada de mulher sensata e tranquila:

“Só podemos ser generosos se estivermos bem”.

Uma frase que impõe uma condição para se exercer a ética, moral e bondade que cai perfeitamente na boca da personagem que está organizando os moradores, uma espécie de síndica, uma ratazana traiçoeira que sabe muito bem manipular o grupo com uma fala mansa. Reconhecemos muitos reflexos no espelho. Um conselho é formado, um líder é escolhido, a votação sobre o que fazer não é consciente, as pessoas nem sabem o que significa o que estão votando, mas o palco está montado. Os que discordam precisam se manter em silêncio, e se descobertos, são considerados traidores, enquanto os que “fazem o que tem que ser feito” são celebrados como heróis num sistema que confere conforto e alegria a alguns às custas do sofrimento e morte de outros. Enquanto tudo está bem, fecha-se os olhos ao que acontece fora do condomínio. E se você não estava ali antes, não terá chance de entrar.





Interessante que tenham escolhido um prédio de moradores de classe média. Não classe média alta. Nem classe média baixa. Mas a média mais mediana que se consegue imaginar. A classe que se ressente tanto de pobres quanto de ricos e se orgulha de ter a escritura de um dois quartos com empréstimo de vida toda no banco. Impossível não pensar na situação de imigrantes em vários países do mundo.

 



A história escala, assim como as decisões de cada personagem os afastam de quem foram e os aproximam de uma versão, em certos pontos de vista, mais glamourosa. A cena do personagem do Delegado cantando e dançando no karaokê mesclada com a tragédia pessoal que o colocou naquele lugar é brilhante, assim como seu posicionamento diante de uma enorme árvore morta e seca durante seu discurso.




Mas não pense que você não vai rir de vez em quando. Eu sempre critico um pouco filmes que não conseguem colocar humor. Por mais trágica que seja a situação, um comentário bem humorado e bem colocado é um tempero desejável. Mas há de se ter talento pra fazer isso, ou a receita desanda e o bolo sola. No caso de Sobreviventes, o humor está na dose certa, e é bem discreto, não destoando em nada do momento trágico vivido pelos personagens.



Sobreviventes é uma obra-prima. Sensível, trágica e triste, é um espelho da sociedade em que vivemos e de cada um de nós, individualmente, e nossas escolhas, não em momentos trágicos, mas no dia a dia. Nem todas as personagens fazem más escolhas. Nem todas fazem boas escolhas. Algumas nem fazem escolha nenhuma, simplesmente vão seguindo o bonde. E, mesmo assim, no final, todos sofrem as consequências.

Imperdível na tela grande.


AMANHÃ, DIA 18/01, NOS CINEMAS!




sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

CHAMA A BEBEL

Por Ricky Nobre

Chama a Bebel é um filme que parece acreditar que a importância e relevância de seus temas o isentam de desenvolver todo o resto. Bebel é uma menina cadeirante de 15 anos que sai da casa onde mora com a mãe e o avô para morar com a tia, ficando perto de sua nova escola, onde é bolsista. Lá ela enfrenta o preconceito dos colegas elitizados, enquanto procura despertar consciência ambiental nos amigos e descobrir o que acontece na fábrica onde seu tio trabalha.

Supostamente mirando o público adolescente, o diretor Paulo Nascimento parece dialogar mais diretamente com o público infantil e, infelizmente, não de uma forma que valorize sua inteligência. Toda a “mensagem”, seja ambiental, seja anticapacitista, é não apenas completamente rasa, mas também transmitida de uma forma bem tatibitate. A decupagem é incrivelmente pobre e em certos momentos temos até a impressão de que a montagem teve dificuldade em juntar os pedaços. Existe, tanto pela pobreza da linguagem visual quanto pelos diálogos, uma constante sensação de série infantil do SBT, principalmente em seu maniqueísmo caricatural. É triste ver os ótimos Giulia Benite (a Mônica dos filmes recentes) e Gustavo Coelho desperdiçados num filme que parece projeto de alunos de segundo período. O único elemento que parece profissional é a fotografia que, apesar de padrão, valoriza bem as cores e dá um ar alegre, que combina com a protagonista. 

 

Não seria razoável esperar que um filme com esse perfil mais juvenil se aprofundasse em toda a complexidade dos assuntos que propõe. Mas o que o roteiro oferece mal arranha a superfície e, de fato o mais grave, não transforma a aventura de Bebel em algo verdadeiramente divertido ou emocionante. É um trabalho que grita amadorismo e desleixo desde a lógica dos acontecimentos até o básico da linguagem cinematográfica, e tudo é simplificado ao extremo. É constrangedor o quanto o diretor e roteiristas acreditam na absoluta incapacidade de seu público alvo em absorver questões e conflitos minimamente complexos. 

 

Por fim, a resolução completamente estabanada traz, surpreendentemente, uma visão minimamente realista e digna de discussão: o poder pode ser arranhado, mas não cai com tanta facilidade. A luta é longa. Mas todo esse conteúdo do qual o filme parece tão orgulhoso teria muito mais impacto se fosse traduzido em uma linguagem que, apesar de adequada ao público infanto-juvenil, não fizesse pouco de sua inteligência.

COTAÇÃO:


 

CHAMA A BEBEL (Brasil – 2024)

Com: Giulia Benite, Antônio Zeni, Gustavo Coelho, Flor Gil, Larissa Maciel, Flavia Garrafa, Sofia Cordeiro, José Rubens Chachá e Rafa Muller

Direção: Paulo Nascimento

Roteiro: Paulo Nascimento e Ricky Hiraoka

Fotografia: Renato Falcão

Montagem: Marcio Papel

Música: Silvio Marques

Direção de arte: Eduardo Antunes