sexta-feira, 16 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: OS 7 DE CHICAGO – 6 indicações


Por Ricky Nobre

Aaron Sorkin é um mestre das palavras. Criador e roteirista das séries Westwing e Newsroom, Sorkin se destacou no cinema com os roteiros de A Rede Social e Steve Jobs. Nestes, assim como no de A Grande Jogada, sua estreia na direção, existe um padrão claro: histórias reais, ligadas às biografias de figuras proeminentes, onde o autor se sente completamente à vontade para florear a realidade a seu critério. Com o argumento de tornar as histórias mais próximas da “essência” da realidade do que dos fatos em si, Sorkin cria incidentes, inverte a ordem de eventos, inventa personagens e situações. Isso não é, de forma alguma, novo na forma como Hollywood filma “histórias reais”. Até certa medida, são artifícios úteis e, até mesmo, necessários para que uma história mais complexa caiba nas limitações de um filme entre 2 a 3 horas. Mas Sorkin se notabilizou, além dos seus diálogos marcantes e elaborados, por abusar desse recurso.

 

Os Sete de Chicago traz a história do julgamento de cunho claramente político, onde Nixon queria usar sete ativistas que participaram das manifestações durante a convenção do Partido Democrata em Chicago, em 1968, como exemplo de uma oposição a qual não toleraria em seu governo, onde a demanda principal dos manifestantes era o fim da guerra no Vietnã. Num jogo de cartas marcadas, onde o veredito é decidido previamente ao julgamento, a defesa dos réus nada contra a maré, onde cada prova, cada argumento em favor dos acusados parece não servir de nada. 

 

Os Sete de Chicago começou como um projeto de Steven Spielberg há 15 anos, quando este pediu a Sorkin que desenvolvesse um roteiro sobre o famoso julgamento. O projeto foi sendo adiado por diversos motivos, incluindo uma greve de roteiristas, até que o cineasta desistiu do filme e Sorkin acabou assumindo a produção. Talvez a maior qualidade do filme, além de trazer um fato tão marcante da História dos EUA ao público atual, seja o resgate das noções de democracia, direitos civis e humanos e liberdade, principalmente em momentos em que essas noções são negadas e combatidas, e Sorkin sabe muito bem o quanto isso ressoa no contexto político atual. Uma discussão muito pertinente é sobre as diferentes visões dos ativistas, polarizadas principalmente em Tom Hayden, o personagem pragmático de Eddie Redmayne, um idealista sim, mas que acredita que o sistema funcione a ponto de lutar para mudar a realidade social dentro deste mesmo sistema, e o iconoclasta Abbie Hoffman, vivido por Sacha Baron Cohen (em excelente forma), que crê que o sistema foi feito para funcionar contra qualquer mudança real, e que, se tudo não passa de um circo, então ele será o palhaço que esfrega a realidade na cara de todos. E um vê o outro como ameaça para uma revolução real.

 

Sorkin continua brilhando nos diálogos, mantendo seu estilo onde assuntos sérios são tratados com uma verve, uma acidez tão precisa, que o tom humorístico se torna inevitável. Construir um drama de tribunal sobre os sete de Chicago como se fosse, em boa parte, uma comédia é um risco que só quem tem um texto afiado como ele pode correr. Da mesma forma que em seus roteiros anteriores, é possível argumentar que ninguém, no mundo real, fala daquele jeito. Mas este é seu estilo, a marca de um filme de Sorkin. Ele, porém, sabe o limite de seu humor e, a partir de determinado ponto, onde um personagem é humilhado ao extremo em plena corte, o humor torna-se quase inexistente. 

 

A montagem é inteligente ao trabalhar depoimentos, testemunhos, conversas e flashbacks, formando um tecido narrativo que conta a história de forma inteligente e envolvente. Por vezes, porém, o filme se detém apenas para que algum personagem fale, mas seria esperar demais que o Sorkin diretor não demonstrasse momentos de paixão pelo próprio texto. O elenco em geral, se sai muito bem, com destaque ao juiz vivido pelo grande Frank Langela, que compõe uma mistura de demência e crueldade que, por vezes, são indiscerníveis, mais uma vez, ecoando em figuras do presente. O personagem do promotor Richard Schultz, vivido por Joseph Gordon-Levitt, se destaca por fugir do clichê do antagonista unidimensional, mas o fato é que o promotor real era tão inflexível e fiel ao seu chefe quanto era de se esperar, e qualquer resquício de ética e humanidade vinda dele é a típica ficção de Sorkin, assim como a policial infiltrada que é, ela própria, totalmente ficcional, e serve para sintetizar o trabalho de todos os policiais infiltrados nas manifestações.

Mesmo com as liberdades criativas, o filme se mantém forte em sua proposta e seu impacto. A grande falha, porém, vem em sua conclusão. O clímax do julgamento, próximo ao veredito, não é apenas uma cena muito vagamente baseada no que outro personagem (o pacifista Dillinger) tentou fazer no julgamento real mas foi imediatamente impedido. A cena é montada exatamente como o mais antigo e cafona clichê de momento emocional e edificante de um filme desesperadamente pedindo por um Oscar. É tão, mas TÃO brega e constrangedor que destoa de todo o restante do filme. Se poderia até argumentar que faz parte do estilo irônico do Sorkin, mas não. Não faz. A intenção é séria e esvazia a linguagem e a força do filme.

 

Aaron Sorkin não é um mau diretor, mas está longe de outros que dirigiram seus roteiros, como David Fincher e Danny Boyle. Em Os Sete de Chicago ele demonstra talento e mão firme, mas o final só convence aos que têm altíssima tolerância à cafonice hollywoodiana. Ainda assim, é capaz de gerar reflexões e discussões importantes. Com um diretor mais refinado, poderia ser um filme poderia atingir um patamar bem mais elevado, verdadeiramente à altura dos temas que aborda.

 

COTAÇÃO: 



INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Ator coadjuvante: Sacha Baron Cohen

Roteiro original: Aaron Sorkin

Canção original: "Hear My Voice" de Daniel Pemberton

Fotografia: Phedon Papamichael

Montagem: Alan Baumgarten

 

OS SETE DE CHICAGO (The Trial of The Chicago Seven, EUA / Reino Unido / Índia – 2020)

Com: Eddie Redmayne, Alex Sharp, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, John Carroll Lynch, Yahya Abdul-Mateen II, Mark Rylance, Joseph Gordon-Levitt, Frank Langella, Danny Flaherty, Michael Keaton, Noah Robbins e Caitlin FitzGerald

Direção e roteiro: Aaron Sorkin

Fotografia: Phedon Papamichael

Montagem: Alan Baumgarten

Música: Daniel Pemberton

Design de produção: Shane Valentino

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: MEU PAI – 6 indicações

Por Ricky Nobre

Doença e velhice são tradicionais combustíveis para o melodrama. É possível desenvolver ótimos filmes nesse estilo, ainda que às vezes apelando para o óbvio, ou para a emoção mais fácil. Mas não em Meu Pai. Em Meu Pai nada é fácil.

 

O dramaturgo francês Florian Zeller estreia na direção cinematográfica e adapta o roteiro de sua própria peça teatral (que chegou a ter uma adaptação brasileira com o ator Fulvio Stefanini). Zeller fez questão de que Anthony Hopkins assumisse o protagonista Anthony, a tal ponto que, se o ator não aceitasse, ele desistiria de fazer o filme em língua inglesa e partiria para uma produção com elenco exclusivamente francês. Ele sabia o que estava fazendo. 

 

Meu Pai funciona de forma mais impactante para quem assiste sem ter ideia alguma de sua abordagem. Zeller constrói a trajetória do velho Anthony, que sofre alguma doença que acarrete degeneração cerebral (que nunca é nomeada), de um ponto de vista muito particular: o do próprio Anthony. O público é convidado a uma inquietante jornada ao dia a dia de Anthony, onde ele confunde pessoas e lugares, a ordem dos acontecimentos e a veracidade de fatos. A câmera não acompanha exclusivamente Anthony, detendo-se, por vezes em sua filha (Olivia Colman caminhando para se tornar atriz referência de sua geração), como forma de dar ao público algumas muito poucas pistas do que de fato é real.

 

O brilhantismo de Meu Pai é como ele constrói a desorientação de Anthony a partir da desorientação do público. Personagens que não deveriam estar ali aparecem, rostos mudam, portas e cômodos mudam de lugar, objetos desaparecem, o dia emenda com a noite, personagens mudam drasticamente de comportamento, informações se conflitam, eventos se repetem. Zeller oferece poucos mas preciosos elementos e informações para que o público tente alinhar os fatos de forma coerente. Alguns são simples de perceber. Outros são complexos. E alguns foram feitos para permanecerem nebulosos. 

 

Mesmo sendo reconhecidamente um dos maiores atores do mundo, Hopkins consegue surpreender com a sutileza, a precisão e, principalmente, com a crescente intensidade de quanto seu sentimento de confusão e abandono vai dominando sua vida. Uma interpretação que, assim como a direção, aposta na inteligência do público ao mesmo tempo em que não o abandona num emaranhado de fatos confusos. 

 

Na proposta incrivelmente desafiadora de transmitir ao público a sensação de uma mente em lenta degradação, Meu Pai triunfa ao não ter sequer uma fala de algum personagem que resuma e simplifique a situação. É preciso que o público vivencie e sinta o crescente desespero de Anthony. Em econômicos 97 minutos, vivemos uma jornada intensa e esmagadora. Sem dúvida, um dos grandes filmes deste início de década.

 

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INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Ator: Anthony Hopkins

Atriz coadjuvante: Olivia Colmant

Roteiro adaptado: Christopher Hampton e Florian Zeller, baseado na peça de Florian Zeller

Direção de arte: Peter Francis e Cathy Featherstone

Montagem: Yorgos Lamprinos

 

MEU PAI (The Father, Reino Unido / França – 2020)

Com: Anthony Hopkins. Olivia Colman, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots e Rufus Sewell

Direção: Florian Zeller

Roteiro: Christopher Hampton e Florian Zeller, baseado na peça de Florian Zeller

Fotografia: Ben Smithard

Montagem: Yorgos Lamprinos

Música: Ludovico Einaudi

Design de produção: Peter Francis

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: UMA NOITE EM MIAMI... – 3 indicações

Por Ricky Nobre

Em 25 de fevereiro de 1964, o pugilista norte americano Cassius Clay se consagrou campeão mundial de boxe na categoria peso pesado. Naquela noite, ele se reuniu num quarto de hotel com três grandes amigos: o ativista Malcom X, o ídolo da NFL Jim Brown e o ícone da soul music Sam Cooke. Exatamente como transcorreu e do que se tratou tal encontro, muito pouco se tem de concreto. Mas o escritor Kemp Powers, baseado no que conseguiu apurar e nas visões de mundo de cada um dos personagens, criou uma ficcionalização do evento real na forma de uma peça teatral que, na versão cinematográfica, ele mesmo adapta em forma de roteiro. A direção é da atriz oscarizada Regina King, já veterana como diretora em diversos projetos de TV, aqui estreando num longa-metragem cinematográfico.

 

A força de Uma Noite em Miami vem da contemporaneidade das discussões que aborda e da veracidade transmitida por seu elenco. Aliás, esse elenco é um grande trunfo do filme que começa mas vai muito além das semelhanças físicas dos atores com seus personagens. Kingsley Ben-Adir enfrenta o enorme desafio de recriar uma figura polêmica e poderosa como Malcom X e, para duplicar o desafio, escapar da sombra da icônica interpretação de Denzel Washinton no filme de Spike Lee. É muito curiosa a suavidade de seu Malcom por boa metade do filme, até que a conhecida chama intensa e radical sobe nos momentos certos. Eli Goree é um Cassius Clay divertido e fanfarrão na intensidade de seus 22 anos e que vê Malcom como seu mentor espiritual, através do qual pretende se converter ao islamismo. Aldis Hodge faz o ídolo do futebol americano, que tem consciência de que toda a admiração que recebe dos brancos tem data de validade e que tem uma das cenas mais chocantes do filme logo no início, no tapa na cara simbólico e sorridente que recebe na breve participação de Beau Bridges. Leslie Odom Jr. fecha o quarteto como Sam Cooke e, a exemplo de Andra Day na biografia de Billie Holiday, ousa dar sua própria voz à lenda da soul music com resultados excepcionais, e também dá grande veracidade ao artista que luta pela afirmação e pela arte negra do seu jeito, ainda que bata de frente com Malcom.

Atores que se tornam diretores costumam ter uma enorme vantagem ao lidar com seu elenco, e Regina King soube fazer seu elenco brilhar ao mesmo tempo em que dominou muito bem a narrativa de um roteiro que não teve com esconder sua origem teatral. Mesmo nos momentos mais tensos, a amizade entre os personagens é evidente, assim como o fato de que todos têm um objetivo em comum, que cada um persegue de forma que sabe. Daí saem discussões sobre militância, luta racial e de classe, colorismo, o poder de lideranças religiosas, empreendedorismo negro e diversas outras questões relevantes até hoje. 

 

Mesmo reorganizando cronologias e imaginando discussões, Uma Noite em Miami acerta muito em usar seus personagens famosos e icônicos como símbolos de questões e lutas que eram efervescentes e vitais nos agitados anos 60 e que hoje se mostram tão importantes e urgentes neste início da terceira década do século XXI, onde o racismo ainda é sistêmico e mata. Regina King, Kemp Powers e o quarteto de atores fazem daquela noite há 57 anos uma síntese do que ainda precisa ser discutido hoje sobre o que é ser negro nos EUA.

 

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INDICAÇÕES AO OSCAR:

Ator coadjuvante: Leslie Odom Jr.

Roteiro adaptado: Kemp Powers, baseado em sua peça teatral

Canção original: "Speak Now" de Leslie Odom Jr. e Sam Ashworth

 

UMA NOITE EM MIAMI... (One Night In Miami..., EUA – 2021)

Com: Kingsley Ben-Adir, Eli Goree, Aldis Hodge, Leslie Odom Jr., Lance Reddick, Joaquina Kalukango, Nicolette Robinson e Beau Bridges

Direção: Regina King

Roteiro: Kemp Powers, baseado em sua peça teatral

Fotografia: Tami Reiker

Montagem: Tariq Anwar

Música: Terence Blanchard

Design de produção: Page Buckner e Barry Robison

sábado, 10 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: BELA VINGANÇA – 5 indicações

Por Ricky Nobre


ATENÇÃO: Esse texto NÃO contém spoilers diretos do filme. Mas esta análise pode alterar a expectativa e a percepção da obra.

Talvez já seja um spoiler por si só dizer que Bela Vingança não é o que você espera. A estreia na direção da atriz e roteirista Emerald Fennell se mostra uma obra divisiva desde sua première no Festival de Sundance. Existem diversos motivos para amar e odiar o filme, alguns justificáveis, outros não. Nele, Cassandra é ex estudante de medicina que trabalha num café e passa seus fins de semana em clubes se fingindo de bêbada à beira da inconsciência, onde sempre (SEMPRE!) algum homem a leva pra casa com más intenções, até que ela se revela sóbria, para o susto do potencial estuprador. Em seu caderno de notas, o registro das centenas de vezes em que ela repetiu essa armadilha. Esta vida sem outro objetivo esconde um passado traumático do qual ela não consegue se livrar.

 

Fennell flerta com gêneros estabelecidos e suas estéticas, armando situações que não se desenvolvem ou concluem como o público espera. Inicialmente, é clara a promessa de um típico filme B de vingança estilo A Vingança de Jennifer, clássico exploitation de 1978 que inaugurou um subgênero de terror, onde um estupro violento e chocante é necessariamente seguido de uma vingança sanguinária por parte da vítima. O título brasileiro, em sua obviedade, acaba por reforçar essa expectativa, quando seria bem melhor traduzi-lo mais literalmente como “Uma Jovem Promissora”. A própria sequência inicial de créditos, onde surge o título do filme, faz referência ao design da época, no melhor estilo Tarantino. A música original do novato Anthony Willis, com uma orquestra diminuta, referencia os thrillers da época, e prenuncia constantemente um banho de sangue que o público permanece aguardando, agindo, por várias vezes, em contraste com todos os demais elementos do filme, seja a fotografia, as interpretações ou o tom cômico do roteiro.

 

Aliás, o humor do filme é também um ponto polêmico, pois pode ser considerado de mal gosto qualquer tom cômico num filme que trata especificamente sobre abuso sexual. Aqui, contudo, o abuso jamais é o assunto do humor, mas diversos outros elementos que cercam a vida de Cassandra. Sua trajetória vai de isolamento do mundo, o planejamento e execução de uma vingança mais focada em pessoas específicas, passando por um momento de aposta numa reconexão com a vida e com o amor, fase onde o filme brinca com clichês de comédia romântica. Se a certa altura, determinada revelação se mostra totalmente previsível, o que se segue não poderia ser mais surpreendente, para bem e para mal.

 

O filme tem uma estética muito elaborada, com excelente fotografia e uma paleta de cores incrível. Cada elemento de cena é cuidadoso (a “auréola” de santa na parede é um dos melhores), assim como o uso de, além da música original, de músicas pop originais e versões orquestradas. Esses elementos, somados à já citada constante sugestão de um thriller violento, os elementos cômicos e diversas subversões de expectativas, deixam o filme sempre com vários pés em vários gêneros simultaneamente, tornando a obra uma mistura bizarra de fábula colorida e bem-humorada com realismo cruel e esmagador. 

 

Fannel parece saber exatamente o que quer com o filme e talvez não seja desleixo seu que alguns pontos pareçam mal resolvidos. Se uma algema sede sem explicação alguma ou se nenhum das centenas de homens que Cassandra enganou se fingindo de vulnerável reagiu de forma perigosa (por mais que esse perfil de abusador seja majoritariamente composto por covardes) ou mesmo a sincronia mágica dos últimos eventos do desfecho, isso serve para que a história siga na direção que ela quer, porém não deixa de ser lamentável que se torça algumas lógicas básicas para que o roteiro chegue em determinado ponto. 

 

Em meio a tudo isso, a cola que mantém o filme íntegro e o público sempre atento em meio a esse caleidoscópio de Fannell é Carey Mulligan, que interpreta Cassandra com uma integridade e coerência impressionantes, num trabalho sutil, sem arroubos, de construção de uma pessoa quebrada, uma jovem promissora presa a uma memória que não consegue superar, desistindo da vida e se submetendo a riscos desnecessários.

 

Fannell faz Cassandra rejeitar a vingança sanguinária (talvez por ser um gênero do cinema de terror criado por homens, onde o sofrimento feminino também era espetáculo) em favor de uma vingança moral, onde não apenas os homens são alvo, mas também as mulheres que, de alguma forma, corroboram com a opressão masculina. Mas, ao mesmo tempo, parece dizer que não há saída para quem escolhe tentar a conscientização em vez da punição e que, quando escolhe a punição física, o contragolpe vem impiedoso. A vingança de Cassandra é amarga e deixa o espectador com uma mistura confusa e perturbadora de sentimentos e ideias. Bela Vingança é um filme perturbador por muitos motivos, certos e errados. Mas é um filme com identidade e um propósito. O tipo de filme que o tempo julga melhor do que as sensações imediatas que provoca.

 

COTAÇÃO:



INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Direção: Emerald Fennell

Atriz: Carey Mulligan

Roteiro original: Emerald Fennell

Montagem: Frédéric Thoraval

 

BELA VINGANÇA (Promising Young Woman, Reino Unido / EUA – 2020)

Com: Carey Mulligan, Bo Burnham, Jennifer Coolidge, Laverne Cox, Alison Brie, Connie Britton e Alfred Molina

Direção e roteiro: Emerald Fennell

Fotografia: Benjamin Kracun

Montagem: Frédéric Thoraval

Música: Anthony Willis

Design de produção: Michael Perry

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: O TIGRE BRANCO – 1 indicação

Por Ricky Nobre

Não falha: todo ano tem um filme ousado, poderoso e desconfortável no Oscar, mas que ostenta apenas uma indicação. Seguindo o exemplo de O Lagosta, Projeto Flórida e Animais Noturnos, esta coprodução Índia/EUA leva apenas uma indicação de consolação quando poderia ter recebido algumas mais. O Tigre Branco é baseado no livro do escritor indiano Aravind Adiga e dirigido pelo americano de família iraniana Ramin Bahrani. Apesar da maior parte da equipe e elenco serem naturais de Índia, a nacionalidade do diretor põe certa dúvida quanto à autenticidade do retrato da sociedade indiana, com toda sua desigualdade e injustiças. Inevitavelmente, o olhar estrangeiro sempre traz uma percepção diferente, e isso não é, por si só, bom ou ruim. 

 

Em O Tigre Branco acompanhamos a história de Balram, que começa a contar como conseguiu sair da miséria de uma vila explorada por um senhorio, até chegar a se tornar um empresário de sucesso. Em sua jornada, o filme nos mergulha até às narinas numa sociedade profundamente desigual e injusta, com regras tão rígidas que tornam a mobilidade social quase uma utopia. A narração do Balram, constante do primeiro ao último minuto de projeção, o que não é incomum em algumas adaptações de obras literárias, não rouba da linguagem cinematográfica o protagonismo da narrativa, mas faz parte dela. Com uma acidez mordaz, o texto expõe as entranhas da “maior democracia do mundo” que segue elegendo políticos populistas que, em transações escusas, mantém os ricos em constante vantagem. A cultura de servidão como algo não apenas suportável, mas desejado, é colocada como o grande muro que separa o povo oprimido de qualquer impulso de reação contra a esmagadora opressão que sofre. Nessa narração constante do protagonista, temos frases inesquecíveis, que ficarão marcadas em brasa na mente do espectador, principalmente a metáfora do galinheiro, principal simbolismo utilizado por Balram.

 

Talvez tenha sido um erro do roteiro começar no primeiro minuto mostrando o protagonista já bem-sucedido, pois tira um pouco o impacto do desfecho. Por outro lado, há um tênue, porém constante suspense, uma inquietação incômoda do espectador que sabe que aquela servidão cega e totalmente subserviente vai atingir um ponto de ruptura em algum momento e que, provavelmente, será violento. Nessa progressão lenta e angustiante, um dos principais destaques é a atuação de Adarsh Gourav, que domina completamente o filme, aparentemente sem nenhum esforço. Gourav e o diretor Bahrani nos pegam pela mão e nos mergulham completamente naquele mundo, nos fazendo compreender cada aspecto apresentado daquela cultura que nos parece ao mesmo tempo tão familiar e tão alienígena.

 

O Tigre Branco é uma obra desafiadora, incômoda, mas que não é totalmente desprovida de artifícios comerciais, principalmente na narração cuidadosamente construída para ser atraente e compreensível para públicos estrangeiros, ainda que muitas vezes seca e ácida. O filme desafia o espectador a contrapor os valores morais do senso comum com a realidade cruel em que Balram está inserido. Nesse mundo de servidão, dominação e de luta e ódio de classe, O Tigre Branco mostra ecos do coreano Parasita, dos brasileiros Cidade de Deus e Que Horas Ela Volta? e do mexicano Roma. O próprio roteiro parece mirar um pouco não exatamente na universalização da história de Balram, mas no quanto ela é capaz de ressoar em culturas e sociedades diferentes, especialmente em uma das várias frases marcantes do filme: “Para os pobres, a única forma de chegar no topo é pelo crime ou pela política. No seu país também é assim?”


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INDICAÇÃO AO OSCAR:

Roteiro adaptado: Ramin Bahrani, baseado no livro de Aravind Adiga

 

O TIGRE BRANCO (The White Tiger, EUA / Índia – 2020)

Com: Adarsh Gourav, Rajkummar Rao, Priyanka Chopra, Vijay Maurya, Swaroop Sampat e Sanket Shanware.

Direção: Ramin Bahrani

Roteiro: Ramin Bahrani, baseado no livro de Aravind Adiga

Fotografia: Paolo Carnera

Montagem: Ramin Bahrani e Tim Streeto

Música: Danny Bensi e Saunder Jurriaans

Design de produção: Chad Keith

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: RELATOS DO MUNDO – 4 indicações

Por Ricky Nobre

Quem está acostumado ao cinema de ação de Paul Greengrass (os filmes da franquia Bourne entre eles) pode se surpreender com esse western mais intimista. Sim, existem umas três sequências de ação muito bem realizadas, mas o tom geral do filme é bem diferente. Tom Hanks (perfeito sempre!) é o Coronel Kidd, veterano da guerra civil que atravessa o oeste norte americano lendo as notícias dos jornais para a população, em eventos com um ligeiro toque teatral. Ele acaba por cruzar o caminho de uma menina de origem alemã (Helena Zengel, de Transtorno Explosivo) cuja família foi morta, sendo depois criada por nativos americanos. Sem conseguir se comunicar com a menina que fala apenas a língua kiowa, ele agora precisa levá-la até seus tios, mas este será um longo e perigoso caminho.

 

Durante a jornada do Capitão e da jovem Johanna, somos apresentados à paisagem natural, política e social do Texas de 1870. Inconformados com a derrota na guerra civil, os texanos seguiam insatisfeitos com as políticas da União e com a negação de seu sacrossanto direito de exterminar índios e escravizar negros. Neste turbilhão, que por vezes os fazem ser recebidos com desconfiança de cidade em cidade, os dois vão lentamente se conectando apesar das diferenças culturais e geracionais. 

 

O filme apresenta diversos temas interessantes de serem abordados mas não se aprofunda de fato em nenhum. Talvez o melhor ponto destacado seja a visão de vida da América branca de seguir sempre em frente, em linha reta, e dos nativos, de reconhecimento do passado para seguir adiante. A direção segura e o show de interpretação de Hanks e Zengel garantem um filme razoavelmente divertido, excitante e tocante, mas também deixa a impressão de que temas preciosos foram deixados apenas nas pinceladas. A intenção pareceu ser realizar um filme leve e agradável que tivesse temas mais fortes apenas como pano de fundo. Mesmo assim, ele segue a linha dos westerns pós anos 60, onde o mal não vem dos vilões clichês e o herói não é o guerreiro sempre pronto para a violência. Recomendável para quem procura um bom filme que não se aprofunde demais em assuntos mais pesados.


 COTAÇÃO:


INDICAÇÕES AO OSCAR:

Fotografia: Dariusz Wolski

Música original: James Newton Howard

Direção de arte: David Crank e Elizabeth Keenan

Som: Oliver Tarney, Mike Prestwood Smith, William Miller e John Pritchett

 

RELATOS DO MUNDO (News of The World – EUA e China, 2020)

Com: Tom Hanks, Helena Zengel

Direção: Paul Greengrass            

Roteiro: Paul Greengrass e Luke Davies, baseado no livro de Paulette Jiles

Música: James Newton Howard

Fotografia: Dariusz Wolski

Montagem: William Goldenberg              

Design de produção: Mark Bridges

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: ERA UMA VEZ UM SONHO – 2 indicações

Por Ricky Nobre

A adaptação de Era Uma Vez Um Sonho (horrendo título nacional herdado da nossa edição do livro) chega com uma imensa responsabilidade e uma tarefa delicada: transpor para cinema o best-seller polêmico de J.D. Vance que, a partir de suas experiências pessoais e de sua família, traça um raio X da cultura do povo do interior dos EUA, especialmente da região dos Alapalaches e Ozarks. Junto com o sucesso, vieram muitas discussões sobre a forma com que o autor retrata seu povo e sua crise cultural e social nas últimas décadas. O livro chegou a ser considerado um mapa para entender a parcela dos eleitores responsáveis pela eleição de Trump, justamente no ano de 2016 em que o livro foi lançado.

 

A principal dúvida era como uma adaptação hollywoodiana iria lidar com todo o conteúdo político, social e cultural do livro, uma vez que muitas das críticas que o livro recebeu foi da forma como o autor acreditava estar traçando um retrato completo e incontestável de seu povo de origem, tendo, inclusive, diversos trabalhos acadêmicos produzidos que contestavam várias de suas afirmações. 

 

Entra em cena o diretor Ron Howard, um cineasta que personifica exatamente o tipo de cinema que a Academia sempre pareceu ter tanto apreço: agradável, correto, tecnicamente apurado e raso. A solução de Howard para toda a turbulência sociopolítica do livro foi simplesmente ignorá-la. Howard preferiu investir no melodrama, talvez numa tentativa de universalizar a história familiar, como uma narrativa dramática que poderia acontecer em qualquer lugar.

 

O filme segue o relato de JD em duas fases: sua adolescência em Ohio em fins dos anos 90 e sua vida em Connecticut em 2011. Em meio a uma entrevista de emprego que pode mudar sua vida, ele descobre que sua mãe sofreu uma overdose e precisa voltar para acudi-la. A narrativa em flashback vai construindo a vida familiar de JD, os problemas com a mãe viciada e de vida desregrada, sua fase delinquente e o papel da avó em sua mudança de vida. 

 

É curioso perceber que as questões que em o livro se aprofunda e que o tornaram tão relevante, e que o filme evita como uma praga, são tão essenciais na história do protagonista que se fazem presentes mesmo assim. O custo da educação superior, a ausência de um sistema de saúde pública, o preconceito da elite com a população pobre, a marginalização de dependentes químicos e portadores de transtornos mentais, a falta de perspectiva de vida da parcela mais pobre e a evasão para grandes centros e o ingresso nas Forças Armadas como únicas formas de ascensão social. Tudo isso está lá. São questões que movem o protagonista, são seus obstáculos, sua realidade e os parâmetros a partir dos quais ele toma suas decisões. Mas não há qualquer espécie de discussão ou aprofundamento desses temas. A personagem da mãe, além da dependência, sofre claramente de algum tipo de transtorno mental e isso é sequer mencionado. Mal temos a noção de quais os posicionamentos dos personagens quanto a essas questões, que dirá de seu diretor e roteiristas. Howard poderia ter posto as visões do autor original (que, afinal, é o protagonista) em perspectiva, poderia dar sua própria visão dessas questões, ou mesmo apresentar visões opostas para o público absorver e refletir. Mas ele preferiu o drama familiar puro e simples.

 

Nessa abordagem, principalmente se levarmos em conta o público estrangeiro e completamente alheio às questões abordadas no livro, o filme funciona bem para quem busca um simples drama familiar. Nesse tipo de filme as interpretações são essenciais e Howard se garantiu muitíssimo bem ao trazer Amy Adams e Glenn Close para o projeto, onde o jovem Owen Asztalos também se sai muito bem. Esse elenco meio que carrega sozinho o peso de manter o público engajado na história. O filme até que vai muito bem até se tornar evidente que a personagem da mãe não vai sair do retrato inicial de dependente problemática, a irmã ser uma mera figurante, a avó ter uma personalidade extremada e que, apesar de ser um pouco melhor escrita, falta maior profundidade. Como drama despretensioso funciona, e o elenco engrandece muito a experiência, mas em nada se assemelha à pretensão do material de origem. A “elegia caipira” aqui não se concretiza e o espectador que não tem intimidade com o universo retratado não se sente verdadeiramente inserido nele. A forma limitada como o roteiro desenvolve os personagens gera lacunas emocionais e intelectuais no filme que o público acaba tendo que preencher por si só, não porque foi uma proposta do diretor de não entregar tudo pronto e mastigado, mas por falhar em apresenta-los de forma mais completa e coesa. Muita atenção e energia foram gastas para tornar os atores o mais semelhantes possível fisicamente com as pessoas reais retratadas. A transformação de Glenn Close chegou a chocar e emocionar JD e seus familiares, tamanha a semelhança com sua avó real. Essa característica acaba sendo um perfeito símbolo de como o filme investe mais na superfície do que no âmago.

 

Ainda assim, tira-se alguma visão de mundo e de vida de sua conclusão, principalmente na escolha final do protagonista de um dilema que paira sobre ele por todo o filme. Por fim, o filme celebra uma espécie de híbrido de individualismo com dedicação familiar, como um pode ser a forma de manter o outro. Era Uma Vez um Sonho reúne as principais características que a Academia tanto gosta, mas acabou por levar apenas duas indicações. Um pouco mais de cuidado conseguiria levar o filme não à altura de todo seu potencial, mas pelo menos ao nível de exigência mínimo da Academia com esse tipo de filme. O sucesso comercial do filme não pode ser mensurado da forma tradicional, da mesma forma que nenhum filme no último ano pode. A crítica surrou esse filme muito mais que o público, que têm deixado comentários mais simpáticos na internet. Na carreira do diretor, é um filme típico. Um filme de Ron Howard não costuma ser ruim. Mas também não costuma ser bom. E esse é simplesmente um filme de Ron Howard.

 

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INDICAÇÕES AO OSCAR:

Atriz coadjuvante: Glenn Close

Cabelo e maquiagem: Eryn Krueger Mekash, Matthew Mungle e Patricia Dehaney

 

ERA UMA VEZ UM SONHO (Hillbilly Elegy – EUA, 2020)

Com: Amy Adams, Glenn Close, Gabriel Basso, Haley Bennett, Freida Pinto, Bo Hopkins e Owen Asztalos

Direção: Ron Howard

Roteiro: Vanessa Taylor, baseado no livro de JD Vance

Fotografia: Maryse Alberti

Montagem: James Wilcox

Música: David Fleming e Hans Zimmer

Design de produção: Molly Hughes