domingo, 30 de abril de 2017

VLOG Alcateia #105 - O que achamos de "Guardiões da Galáxia Vol. 2"

Olha aí nosso bate-papo espacial sobre os divertidos Guardiões da Galáxia, a mais improvável franquia da Marvel. Será que emplacaram uma boa sequência? 

Nós somos Groot e também somos Renato Rodrigues, Eddie van Feu, Ricky Nobre, Patrícia Balan, JM e Carlos Tavares.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Chá das Cinco #74 - Dicas de Séries

Perguntamos aqui: "O que é que vocês estão vendo na TV?".
Responderam Patrícia Balan, JM e Renato Rodrigues.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Chá das Cinco #73 - Netflix Interativa: Você decide o final

JM traz uma novidade que pode vingar na Netflix, as "tramas interativas". Será que pode dar certo? No papo também Renato Rodrigues, Eddie Van Feu, Ricky Nobre e Patricia

terça-feira, 25 de abril de 2017

VERMELHO RUSSO: uma pequena obra prima sobre arte e vida.


Por Ricky Nobre


O embate entre arte e realidade é tão antigo quanto a própria expressão artística. Mais especificamente nas artes plásticas e dramáticas, o ato criativo se reveza entre reproduzir a realidade, recria-la ou reinterpreta-la. Seja imitando a vida, seja inventando-a, o artista procura, de alguma forma, capturar ou reproduzir um pequeno pedaço do mundo, uma fatia da vida (ou de bolo, como preferia Hitchcock). As artes audiovisuais que floresceram no século XX elevaram esse embate a uma altíssima potência. Existe uma crença generalizada de que o cinema e a TV de ficção reproduzem a realidade, em sua forma mais comercial, necessariamente de uma forma reconhecível e compreensível. Não raro, porém, obras excessivamente cruas, ou construídas para assim aparentarem, são muitas vezes rejeitadas por aparentarem ser “excessivamente reais”, ou reais de uma forma incômoda. A realidade, portanto, necessita do filtro do conforto. 

 

Na mesma medida, o cinema documental construiu-se dentro da própria noção de transcrição de realidade, um documento áudio visual que traz a realidade “como ela é”, mostrando “cenas reais” e depoimentos “autênticos” das pessoas que retratam. Muitos não se dão conta, entretanto, que qualquer obra possui um ponto de vista, e o documentário não é exceção. Independente das “boas intenções” ou não de seu realizador, há quem creia que a própria existência de uma câmera numa cena é capaz de alterá-la e que a escolha de sua posição oferece um ponto de vista específico, que constrói uma realidade, em vez de simplesmente registrá-la. O fenômeno do “reality TV”, surgido há cerca de 20 anos, sem o menor sinal de estar se esgotando, elevou toda a discussão ao um nível totalmente novo.

 

O cineasta carioca Charly Braun, em seu segundo longa-metragem, consegue, com uma bela costura cinematográfica, sintetizar toda essa discussão num filme deliciosamente despretensioso que levou melhor roteiro no Festival do Rio de 2016. Nesta coprodução Brasil, Portugal e Rússia, duas amigas e atrizes vão a Moscou para estudar o método de Stanislavski, que revolucionou o teatro russo e a preparação dos atores no início do século XX. Durante as aulas, onde elas têm entre os colegas um cineasta argentino e uma atriz portuguesa, nos ensaios de cenas de Tio Vânia, de Tchekhov, o professor procura ensinar os atores a se tornarem seus personagens, mas sem perderem a si mesmos. Foi justamente Stanislavski que deu impulso a um estilo de interpretação que levasse uma sensação de realidade ao público, na contramão do estilo corrente, que ele considerava “teatrada e pathos afetado, declamação e representação exageradas”. 

 

O ato de representar e suas leituras é justamente a principal chave para decodificar Vermelho Russo. Conforme o filme se desdobra, o público começa a captar e desvendar pequenos sinais, e percebemos que estamos diante de uma obra deliciosamente híbrida. Ao mostrar os alunos do curso hospedados no “retiro dos artistas” de Moscou, percebemos que a interação dos atores com os residentes do retiro é real, sendo muitos deles verdadeiras lendas do cinema e teatro russos. Quando o aluno argentino, com sua câmera onipresente, entrevista seus colegas, percebe-se a fina película que separa as falas previamente escritas, as improvisadas e as que podem ser depoimentos reais dos atores, falando de suas próprias experiências (muito mais explícito no caso da atriz portuguesa Soraia Chaves). Num espelho infinito, vemos atrizes interpretando atrizes interpretando personagens de Tchekhov; e o que define essas interpretações durante as aulas como boas ou não contrasta e dialoga com a interpretação das cenas do dia a dia que, como já comentado, podem, por vezes, nem serem sequer interpretações. 

 

Da mesma forma, o filme também brinca com a interpretação que fazemos de nós mesmos cotidianamente, reproduzindo com humor sutil o constrangimento comum em situações sociais, os famosos “nossa, mesmo, que legal...” seguidos de silêncios desconfortáveis em frustradas tentativas de simpatia. No mesmo sentido, a protagonista fala com o namorado no Brasil via Skype, que finge se interessar pelo curso dela que, por sua vez, finge não se importar com o desinteresse dele. 

 


Assim como interpretações, representações e discursos espontâneos se confundem, entrelaçam e completam, o mise-en-scène e o registro documental se relacionam da mesmo forma, tornando o cinema e o trabalho do ator uma discussão perfeitamente integrada, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, vem à mente com certa frequência. Não surpreende que os primeiros nomes dos personagens são os mesmos de seus atores. Martha Nowill e Maria Manoella são as protagonistas Marta e Manuela, da mesma forma que se apresenta como Michel o badalado Michel Malamed, que deve ter se divertido muito interpretando uma versão ligeiramente canalha de si mesmo. Assim como eles, todos os atores se apresentam com seus primeiros nomes reais, o que nos deixa imaginando o quanto isso pode tê-los deixado à vontade para, a qualquer momento do trabalho, alterar entre seus personagens e suas expressões pessoais.


 

Não deixe que tudo isso o deixe intimidados diante de Vermelho Russo, uma vez que sua principal qualidade é conter tanto conteúdo e tanta reflexão num filme simples, muitas vezes dramático, constantemente engraçado e ternamente emocionante, seja pela história das amigas, seja pelas fascinantes aulas de teatro russo. Toda a análise, porém, toma proporções ainda mais fascinantes quando sabemos que em 2009, as atrizes Martha Nowill e Maria Manoella, melhores amigas, foram realmente a Moscou para um curso sobre Stanislavski, realmente tiveram uma séria briga (cuja reinterpretação no filme gerou ferimentos físicos) e que, sob a proposta e a direção de Braun, recontam, reinterpretam e revivem a experiência em Vermelho Russo. Se a relação entre as personagens de Tio Vânia que ensaiaram no curso já dialogava com a relação de Marta e Manuela no filme, o espelho se torna mais complexo com a história de Martha e Manoella. 



VERMELHO RUSSO

Com: Maria Manoella, Martha Nowill, Esteban Feune de Colombi, Soraia Chaves, Michel Melamed, Mikhail Troynik e Elena Babenko.

Direção: Charly Braun

Roteiro: Martha Nowill e Charly Braun

Fotografia: Alexandre Samori

Montagem: Caroline Leone e Charly Braun

Música: Candelaria Saenz Valiente