sábado, 10 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: BELA VINGANÇA – 5 indicações

Por Ricky Nobre


ATENÇÃO: Esse texto NÃO contém spoilers diretos do filme. Mas esta análise pode alterar a expectativa e a percepção da obra.

Talvez já seja um spoiler por si só dizer que Bela Vingança não é o que você espera. A estreia na direção da atriz e roteirista Emerald Fennell se mostra uma obra divisiva desde sua première no Festival de Sundance. Existem diversos motivos para amar e odiar o filme, alguns justificáveis, outros não. Nele, Cassandra é ex estudante de medicina que trabalha num café e passa seus fins de semana em clubes se fingindo de bêbada à beira da inconsciência, onde sempre (SEMPRE!) algum homem a leva pra casa com más intenções, até que ela se revela sóbria, para o susto do potencial estuprador. Em seu caderno de notas, o registro das centenas de vezes em que ela repetiu essa armadilha. Esta vida sem outro objetivo esconde um passado traumático do qual ela não consegue se livrar.

 

Fennell flerta com gêneros estabelecidos e suas estéticas, armando situações que não se desenvolvem ou concluem como o público espera. Inicialmente, é clara a promessa de um típico filme B de vingança estilo A Vingança de Jennifer, clássico exploitation de 1978 que inaugurou um subgênero de terror, onde um estupro violento e chocante é necessariamente seguido de uma vingança sanguinária por parte da vítima. O título brasileiro, em sua obviedade, acaba por reforçar essa expectativa, quando seria bem melhor traduzi-lo mais literalmente como “Uma Jovem Promissora”. A própria sequência inicial de créditos, onde surge o título do filme, faz referência ao design da época, no melhor estilo Tarantino. A música original do novato Anthony Willis, com uma orquestra diminuta, referencia os thrillers da época, e prenuncia constantemente um banho de sangue que o público permanece aguardando, agindo, por várias vezes, em contraste com todos os demais elementos do filme, seja a fotografia, as interpretações ou o tom cômico do roteiro.

 

Aliás, o humor do filme é também um ponto polêmico, pois pode ser considerado de mal gosto qualquer tom cômico num filme que trata especificamente sobre abuso sexual. Aqui, contudo, o abuso jamais é o assunto do humor, mas diversos outros elementos que cercam a vida de Cassandra. Sua trajetória vai de isolamento do mundo, o planejamento e execução de uma vingança mais focada em pessoas específicas, passando por um momento de aposta numa reconexão com a vida e com o amor, fase onde o filme brinca com clichês de comédia romântica. Se a certa altura, determinada revelação se mostra totalmente previsível, o que se segue não poderia ser mais surpreendente, para bem e para mal.

 

O filme tem uma estética muito elaborada, com excelente fotografia e uma paleta de cores incrível. Cada elemento de cena é cuidadoso (a “auréola” de santa na parede é um dos melhores), assim como o uso de, além da música original, de músicas pop originais e versões orquestradas. Esses elementos, somados à já citada constante sugestão de um thriller violento, os elementos cômicos e diversas subversões de expectativas, deixam o filme sempre com vários pés em vários gêneros simultaneamente, tornando a obra uma mistura bizarra de fábula colorida e bem-humorada com realismo cruel e esmagador. 

 

Fannel parece saber exatamente o que quer com o filme e não talvez não seja desleixo seu que alguns pontos pareçam mal resolvidos. Se uma algema sede sem explicação alguma ou se nenhum das centenas de homens que Cassandra enganou se fingindo de vulnerável reagiu de forma perigosa (por mais que esse perfil de abusador seja majoritariamente composto por covardes) ou mesmo a sincronia mágica dos últimos eventos do desfecho, isso serve para que a história siga na direção que ela quer, porém não deixa de ser lamentável que se torça algumas lógicas básicas para que o roteiro chegue em determinado ponto. 

 

Em meio a tudo isso, a cola que mantém o filme íntegro e o público sempre atento em meio a esse caleidoscópio de Fannell é Carey Mulligan, que interpreta Cassandra com uma integridade e coerência impressionantes, num trabalho sutil, sem arroubos, de construção de uma pessoa quebrada, uma jovem promissora presa a uma memória que não consegue superar, desistindo da vida e se submetendo a riscos desnecessários.

 

Fannell faz Cassandra rejeitar a vingança sanguinária (talvez por ser um gênero do cinema de terror criado por homens, onde o sofrimento feminino também era espetáculo) em favor de uma vingança moral, onde não apenas os homens são alvo, mas também as mulheres que, de alguma forma, corroboram com a opressão masculina. Mas, ao mesmo tempo, parece dizer que não há saída para quem escolhe tentar a conscientização em vez da punição e que, quando escolhe a punição física, o contragolpe vem impiedoso. A vingança de Cassandra é amarga e deixa o espectador com uma mistura confusa e perturbadora de sentimentos e ideias. Bela Vingança é um filme perturbador por muitos motivos, certos e errados. Mas é um filme com identidade e um propósito. O tipo de filme que o tempo julga melhor do que as sensações imediatas que provoca.

 

COTAÇÃO:



INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Direção: Emerald Fennell

Atriz: Carey Mulligan

Roteiro original: Emerald Fennell

Montagem: Frédéric Thoraval

 

BELA VINGANÇA (Promising Young Woman, Reino Unido / EUA – 2020)

Com: Carey Mulligan, Bo Burnham, Jennifer Coolidge, Laverne Cox, Alison Brie, Connie Britton e Alfred Molina

Direção e roteiro: Emerald Fennell

Fotografia: Benjamin Kracun

Montagem: Frédéric Thoraval

Música: Anthony Willis

Design de produção: Michael Perry

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: O TIGRE BRANCO – 1 indicação

Por Ricky Nobre

Não falha: todo ano tem um filme ousado, poderoso e desconfortável no Oscar, mas que ostenta apenas uma indicação. Seguindo o exemplo de O Lagosta, Projeto Flórida e Animais Noturnos, esta coprodução Índia/EUA leva apenas uma indicação de consolação quando poderia ter recebido algumas mais. O Tigre Branco é baseado no livro do escritor indiano Aravind Adiga e dirigido pelo americano de família iraniana Ramin Bahrani. Apesar da maior parte da equipe e elenco serem naturais de Índia, a nacionalidade do diretor põe certa dúvida quanto à autenticidade do retrato da sociedade indiana, com toda sua desigualdade e injustiças. Inevitavelmente, o olhar estrangeiro sempre traz uma percepção diferente, e isso não é, por si só, bom ou ruim. 

 

Em O Tigre Branco acompanhamos a história de Balram, que começa a contar como conseguiu sair da miséria de uma vila explorada por um senhorio, até chegar a se tornar um empresário de sucesso. Em sua jornada, o filme nos mergulha até às narinas numa sociedade profundamente desigual e injusta, com regras tão rígidas que tornam a mobilidade social quase uma utopia. A narração do Balram, constante do primeiro ao último minuto de projeção, o que não é incomum em algumas adaptações de obras literárias, não rouba da linguagem cinematográfica o protagonismo da narrativa, mas faz parte dela. Com uma acidez mordaz, o texto expõe as entranhas da “maior democracia do mundo” que segue elegendo políticos populistas que, em transações escusas, mantém os ricos em constante vantagem. A cultura de servidão como algo não apenas suportável, mas desejado, é colocada como o grande muro que separa o povo oprimido de qualquer impulso de reação contra a esmagadora opressão que sofre. Nessa narração constante do protagonista, temos frases inesquecíveis, que ficarão marcadas em brasa na mente do espectador, principalmente a metáfora do galinheiro, principal simbolismo utilizado por Balram.

 

Talvez tenha sido um erro do roteiro começar no primeiro minuto mostrando o protagonista já bem-sucedido, pois tira um pouco o impacto do desfecho. Por outro lado, há um tênue, porém constante suspense, uma inquietação incômoda do espectador que sabe que aquela servidão cega e totalmente subserviente vai atingir um ponto de ruptura em algum momento e que, provavelmente, será violento. Nessa progressão lenta e angustiante, um dos principais destaques é a atuação de Adarsh Gourav, que domina completamente o filme, aparentemente sem nenhum esforço. Gourav e o diretor Bahrani nos pegam pela mão e nos mergulham completamente naquele mundo, nos fazendo compreender cada aspecto apresentado daquela cultura que nos parece ao mesmo tempo tão familiar e tão alienígena.

 

O Tigre Branco é uma obra desafiadora, incômoda, mas que não é totalmente desprovida de artifícios comerciais, principalmente na narração cuidadosamente construída para ser atraente e compreensível para públicos estrangeiros, ainda que muitas vezes seca e ácida. O filme desafia o espectador a contrapor os valores morais do senso comum com a realidade cruel em que Balram está inserido. Nesse mundo de servidão, dominação e de luta e ódio de classe, O Tigre Branco mostra ecos do coreano Parasita, dos brasileiros Cidade de Deus e Que Horas Ela Volta? e do mexicano Roma. O próprio roteiro parece mirar um pouco não exatamente na universalização da história de Balram, mas no quanto ela é capaz de ressoar em culturas e sociedades diferentes, especialmente em uma das várias frases marcantes do filme: “Para os pobres, a única forma de chegar no topo é pelo crime ou pela política. No seu país também é assim?”


 COTAÇÃO:


 

INDICAÇÃO AO OSCAR:

Roteiro adaptado: Ramin Bahrani, baseado no livro de Aravind Adiga

 

O TIGRE BRANCO (The White Tiger, EUA / Índia – 2020)

Com: Adarsh Gourav, Rajkummar Rao, Priyanka Chopra, Vijay Maurya, Swaroop Sampat e Sanket Shanware.

Direção: Ramin Bahrani

Roteiro: Ramin Bahrani, baseado no livro de Aravind Adiga

Fotografia: Paolo Carnera

Montagem: Ramin Bahrani e Tim Streeto

Música: Danny Bensi e Saunder Jurriaans

Design de produção: Chad Keith

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: RELATOS DO MUNDO – 4 indicações

Por Ricky Nobre

Quem está acostumado ao cinema de ação de Paul Greengrass (os filmes da franquia Bourne entre eles) pode se surpreender com esse western mais intimista. Sim, existem umas três sequências de ação muito bem realizadas, mas o tom geral do filme é bem diferente. Tom Hanks (perfeito sempre!) é o Coronel Kidd, veterano da guerra civil que atravessa o oeste norte americano lendo as notícias dos jornais para a população, em eventos com um ligeiro toque teatral. Ele acaba por cruzar o caminho de uma menina de origem alemã (Helena Zengel, de Transtorno Explosivo) cuja família foi morta, sendo depois criada por nativos americanos. Sem conseguir se comunicar com a menina que fala apenas a língua kiowa, ele agora precisa levá-la até seus tios, mas este será um longo e perigoso caminho.

 

Durante a jornada do Capitão e da jovem Johanna, somos apresentados à paisagem natural, política e social do Texas de 1870. Inconformados com a derrota na guerra civil, os texanos seguiam insatisfeitos com as políticas da União e com a negação de seu sacrossanto direito de exterminar índios e escravizar negros. Neste turbilhão, que por vezes os fazem ser recebidos com desconfiança de cidade em cidade, os dois vão lentamente se conectando apesar das diferenças culturais e geracionais. 

 

O filme apresenta diversos temas interessantes de serem abordados mas não se aprofunda de fato em nenhum. Talvez o melhor ponto destacado seja a visão de vida da América branca de seguir sempre em frente, em linha reta, e dos nativos, de reconhecimento do passado para seguir adiante. A direção segura e o show de interpretação de Hanks e Zengel garantem um filme razoavelmente divertido, excitante e tocante, mas também deixa a impressão de que temas preciosos foram deixados apenas nas pinceladas. A intenção pareceu ser realizar um filme leve e agradável que tivesse temas mais fortes apenas como pano de fundo. Mesmo assim, ele segue a linha dos westerns pós anos 60, onde o mal não vem dos vilões clichês e o herói não é o guerreiro sempre pronto para a violência. Recomendável para quem procura um bom filme que não se aprofunde demais em assuntos mais pesados.


 COTAÇÃO:


INDICAÇÕES AO OSCAR:

Fotografia: Dariusz Wolski

Música original: James Newton Howard

Direção de arte: David Crank e Elizabeth Keenan

Som: Oliver Tarney, Mike Prestwood Smith, William Miller e John Pritchett

 

RELATOS DO MUNDO (News of The World – EUA e China, 2020)

Com: Tom Hanks, Helena Zengel

Direção: Paul Greengrass            

Roteiro: Paul Greengrass e Luke Davies, baseado no livro de Paulette Jiles

Música: James Newton Howard

Fotografia: Dariusz Wolski

Montagem: William Goldenberg              

Design de produção: Mark Bridges

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: ERA UMA VEZ UM SONHO – 2 indicações

Por Ricky Nobre

A adaptação de Era Uma Vez Um Sonho (horrendo título nacional herdado da nossa edição do livro) chega com uma imensa responsabilidade e uma tarefa delicada: transpor para cinema o best-seller polêmico de J.D. Vance que, a partir de suas experiências pessoais e de sua família, traça um raio X da cultura do povo do interior dos EUA, especialmente da região dos Alapalaches e Ozarks. Junto com o sucesso, vieram muitas discussões sobre a forma com que o autor retrata seu povo e sua crise cultural e social nas últimas décadas. O livro chegou a ser considerado um mapa para entender a parcela dos eleitores responsáveis pela eleição de Trump, justamente no ano de 2016 em que o livro foi lançado.

 

A principal dúvida era como uma adaptação hollywoodiana iria lidar com todo o conteúdo político, social e cultural do livro, uma vez que muitas das críticas que o livro recebeu foi da forma como o autor acreditava estar traçando um retrato completo e incontestável de seu povo de origem, tendo, inclusive, diversos trabalhos acadêmicos produzidos que contestavam várias de suas afirmações. 

 

Entra em cena o diretor Ron Howard, um cineasta que personifica exatamente o tipo de cinema que a Academia sempre pareceu ter tanto apreço: agradável, correto, tecnicamente apurado e raso. A solução de Howard para toda a turbulência sociopolítica do livro foi simplesmente ignorá-la. Howard preferiu investir no melodrama, talvez numa tentativa de universalizar a história familiar, como uma narrativa dramática que poderia acontecer em qualquer lugar.

 

O filme segue o relato de JD em duas fases: sua adolescência em Ohio em fins dos anos 90 e sua vida em Connecticut em 2011. Em meio a uma entrevista de emprego que pode mudar sua vida, ele descobre que sua mãe sofreu uma overdose e precisa voltar para acudi-la. A narrativa em flashback vai construindo a vida familiar de JD, os problemas com a mãe viciada e de vida desregrada, sua fase delinquente e o papel da avó em sua mudança de vida. 

 

É curioso perceber que as questões que em o livro se aprofunda e que o tornaram tão relevante, e que o filme evita como uma praga, são tão essenciais na história do protagonista que se fazem presentes mesmo assim. O custo da educação superior, a ausência de um sistema de saúde pública, o preconceito da elite com a população pobre, a marginalização de dependentes químicos e portadores de transtornos mentais, a falta de perspectiva de vida da parcela mais pobre e a evasão para grandes centros e o ingresso nas Forças Armadas como únicas formas de ascensão social. Tudo isso está lá. São questões que movem o protagonista, são seus obstáculos, sua realidade e os parâmetros a partir dos quais ele toma suas decisões. Mas não há qualquer espécie de discussão ou aprofundamento desses temas. A personagem da mãe, além da dependência, sofre claramente de algum tipo de transtorno mental e isso é sequer mencionado. Mal temos a noção de quais os posicionamentos dos personagens quanto a essas questões, que dirá de seu diretor e roteiristas. Howard poderia ter posto as visões do autor original (que, afinal, é o protagonista) em perspectiva, poderia dar sua própria visão dessas questões, ou mesmo apresentar visões opostas para o público absorver e refletir. Mas ele preferiu o drama familiar puro e simples.

 

Nessa abordagem, principalmente se levarmos em conta o público estrangeiro e completamente alheio às questões abordadas no livro, o filme funciona bem para quem busca um simples drama familiar. Nesse tipo de filme as interpretações são essenciais e Howard se garantiu muitíssimo bem ao trazer Amy Adams e Glenn Close para o projeto, onde o jovem Owen Asztalos também se sai muito bem. Esse elenco meio que carrega sozinho o peso de manter o público engajado na história. O filme até que vai muito bem até se tornar evidente que a personagem da mãe não vai sair do retrato inicial de dependente problemática, a irmã ser uma mera figurante, a avó ter uma personalidade extremada e que, apesar de ser um pouco melhor escrita, falta maior profundidade. Como drama despretensioso funciona, e o elenco engrandece muito a experiência, mas em nada se assemelha à pretensão do material de origem. A “elegia caipira” aqui não se concretiza e o espectador que não tem intimidade com o universo retratado não se sente verdadeiramente inserido nele. A forma limitada como o roteiro desenvolve os personagens gera lacunas emocionais e intelectuais no filme que o público acaba tendo que preencher por si só, não porque foi uma proposta do diretor de não entregar tudo pronto e mastigado, mas por falhar em apresenta-los de forma mais completa e coesa. Muita atenção e energia foram gastas para tornar os atores o mais semelhantes possível fisicamente com as pessoas reais retratadas. A transformação de Glenn Close chegou a chocar e emocionar JD e seus familiares, tamanha a semelhança com sua avó real. Essa característica acaba sendo um perfeito símbolo de como o filme investe mais na superfície do que no âmago.

 

Ainda assim, tira-se alguma visão de mundo e de vida de sua conclusão, principalmente na escolha final do protagonista de um dilema que paira sobre ele por todo o filme. Por fim, o filme celebra uma espécie de híbrido de individualismo com dedicação familiar, como um pode ser a forma de manter o outro. Era Uma Vez um Sonho reúne as principais características que a Academia tanto gosta, mas acabou por levar apenas duas indicações. Um pouco mais de cuidado conseguiria levar o filme não à altura de todo seu potencial, mas pelo menos ao nível de exigência mínimo da Academia com esse tipo de filme. O sucesso comercial do filme não pode ser mensurado da forma tradicional, da mesma forma que nenhum filme no último ano pode. A crítica surrou esse filme muito mais que o público, que têm deixado comentários mais simpáticos na internet. Na carreira do diretor, é um filme típico. Um filme de Ron Howard não costuma ser ruim. Mas também não costuma ser bom. E esse é simplesmente um filme de Ron Howard.

 

 COTAÇÃO:


 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Atriz coadjuvante: Glenn Close

Cabelo e maquiagem: Eryn Krueger Mekash, Matthew Mungle e Patricia Dehaney

 

ERA UMA VEZ UM SONHO (Hillbilly Elegy – EUA, 2020)

Com: Amy Adams, Glenn Close, Gabriel Basso, Haley Bennett, Freida Pinto, Bo Hopkins e Owen Asztalos

Direção: Ron Howard

Roteiro: Vanessa Taylor, baseado no livro de JD Vance

Fotografia: Maryse Alberti

Montagem: James Wilcox

Música: David Fleming e Hans Zimmer

Design de produção: Molly Hughes

terça-feira, 6 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: PIECES OF A WOMAN (1 indicação)

 Por Ricky Nobre

Pieces of a Woman, que levou os prêmios de melhor filme internacional e atriz em Veneza, é uma obra que se construiu de forma muitíssimo pessoal para seus criadores. O cineasta Kornél Mundruczó e a roteirista Kata Wéber mantiveram uma parceria profissional e pessoal durante anos, colaborando em filmes como Lua de Júpiter e Deus Branco. Quando a filha do casal morreu durante o parto, Wéber só viu possibilidade para processar e curar sua dor e viver seu luto ao se mudar sozinha de Budapeste para Berlin. O resultado desse processo doloroso foi o roteiro deste filme que Mundruczó dirige com conhecimento íntimo e único da dor que moveu a escritora, dor esta que também o moveu.

A primeira meia hora de filme tem efeitos diferentes dependendo do quão informado está o espectador quando começa a assisti-lo. Se totalmente desinformado sobre a história, a longa sequência de parto traz um desconforto crescente, onde detalhes e indícios já o informam de que algo está errado, de que a dor que a protagonista sofre não é normal, que a insegurança da doula que substitui outra na última hora pode significar problemas inesperados. Quem já sabe os fatos que movimentam todo o restante do filme experimenta uma surra emocional, uma experiência excruciante de cada passo em direção a um destino temido, cujos detalhes mais mórbidos o diretor, com sensibilidade, abandona na hora certa. Tudo isso num plano sequência ininterrupto que transmite com perfeição a progressão emocional dos acontecimentos e dos personagens. Mundruczó chegou a declarar que se sentiu trapaceando ao resumir um processo de 10 horas em 23 minutos, mas o diretor sabe que o tempo da realidade não é o tempo do filme, e da forma como foi escrita e encenada a sequência dá a perfeita sensação de todo o processo.

A protagonista Martha vive seu luto reclusa, sem explosões emocionais, focada no trabalho, e sem interesse algum nos processos criminal e civil movidos contra a doula. Sua mãe pressiona para que ela participe dos processos, para fazer “justiça”. O marido vive a raiva e a frustração de não conseguir controlar os acontecimentos, como ele controla a construção da ponte sobre um rio de sua cidade. Aliás, Sean é o personagem que mais transita entre a luz e as trevas, no que talvez seja o melhor trabalho de Shia LaBeouf. A grande Ellen Burstyn brilha como a mãe, precisa e sem exageros, aos 88 anos, ainda ativa na TV e no cinema, com vários projetos futuros já engatilhados. Mas o filme é mesmo de Vanessa Kirby, capaz de viver não só a esmagadora intensidade da sequência do parto, mas também toda a sutiliza de Martha em seu luto recluso e silencioso. Mundruczó valoriza os traços fortes, lindos e expressivos da atriz, que o impressionou por lembrar as antigas estrelas do cinema do leste europeu.

O desafio do filme é manter a força da narrativa após uma introdução tão poderosa, e Mundruczó conduz bem os atos do filme que têm perfis emocionais tão diferentes. Há quem considere que o filme se perde no último ato, mas ele é absoluta e rigorosamente essencial para a jornada emocional da protagonista e sua afirmação da forma de viver seu luto e de se reconectar com a vida. Nessa fase de emoções e interpretações mais sutis, a ótima música de Howard Shore assume um papel mais presente e essencial.

Pieces of A Woman é uma obra sobre a pessoalidade do luto, como cada um o vive de uma forma, e como o luto da mulher, da mãe, é monitorado e julgado. De como pontes são essenciais para entender a dor do outro, mas não para controlá-la. De como as sementes que plantamos podem não florescer no tempo que esperamos. Mas a vida permanece e vence.

COTAÇÃO:


 

INDICAÇÃO AO OSCAR:

Atriz: Vanessa Kirby

 

PIECES OF A WOMAN (2000, Canadá, Hungria e EUA)

Com: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Iliza Shlesinger, Sarah Snook e Molly Parker.

Direção: Kornél Mundruczó        

Roteiro: Kata Wéber

Fotografia: Benjamin Loeb

Montagem: Dávid Jancsó

Música: Howard Shore

Design de produção: Sylvain Lemaitre                    

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Estrelas Brilham para Sempre

por Eddie Van Feu


Ela escreveu alguns textos da Wicca comigo (de astrologia e o confabulando), me ajudou a traduzir o Magia Prática, de Franz Bardon, escreveu várias revistas de Previsões e de astrologia, deu aulas de mangá no Curso de Desenho do Daniel Azulay e participou de vários vídeos do meu canal e do Alcateia. Você pode tê-la conhecido em algum desses momentos. Ela também nos apoiou e ajudou em todos os projetos malucos que tínhamos, dando dicas, fazendo mapas astrais de personagens, mostrando opções, dando conselhos sábios. 

 


Ela também era minha melhor amiga. Não só o trabalho nos unia, mas o amor, o companheirismo, a cumplicidade, e os gostos em comum. 



Hoje eu venho com uma notícia triste. Para nós, do Alcateia, foi devastadora. Na quinta-feira, dia 25 de março, perdemos nossa querida amiga e loba Patrícia Balan. Foi de repente. Sem aviso. Num mal súbito, seu coração parou.


 

Ela era jovem e saudável e a notícia nos pegou de surpresa. Você também deve estar chocado. Então, gostaria de lhe trazer também essas informações: sei que ela está bem agora. Sei que ela está livre e de volta ao lar. E, apesar da dor atroz que estamos sentindo, sei também que a Espiritualidade está fazendo o seu melhor por nós. Tivemos lindos trinta e dois anos de amizade, com muitos bons momentos e muitas superações. 



Tivemos mais tempo de vida juntas do que separadas e isso é algo a ser celebrado. Poucas pessoas possuem amizades tão fortes e tão longas.



O mundo ficou mais pobre. Mais sem graça. E mais burro. Porque Patrícia era a pessoa mais inteligente que eu conheci, dona de uma sagacidade impressionante, um humor único e uma memória invejável. Dominava a língua inglesa e todos os seus sotaques, sabia ensinar desenho como ninguém e era uma grande contadora de histórias. 



O Alcateia nunca perdeu tanto em tão pouco tempo, perdendo duas de suas lobas mais ativas em menos de um mês. Patrícia, como alma que não era daqui, nunca se encaixou totalmente nesse mundo. Lutou contra a depressão, contra as convenções, contra cobranças diversas, contra dificuldades mil. 



Mas ela nunca esteve sozinha. Nós sempre estivemos lá. Assim como ela sempre esteve conosco em nossos momentos mais difíceis. Ela não era só minha amiga. Era também a melhor amiga do Renato, do Ricky, da Luciana, do Carlos, do JM. Era amiga querida do Magno, do Marcelo, do Michel, da Delazir e de pessoas que ela alegrou e inspirou, mesmo à distância. 



Agora, ela vive em nossos corações e tenho certeza que continuaremos a viver no coração dela, porque, como eu sempre digo, ela só está em outro lugar, outro mundo, muito mais legal que o nosso.


 

Hoje, mesmo com o coração triste, fico feliz em saber que estivemos juntos por todos esses anos. Me sinto honrada com sua amizade e sei que um dia vamos nos reencontrar. E até lá, desejo que ela aproveite um breve descanso e volte a trabalhar nos bastidores, ajudando esse mundo caótico a encontrar seu rumo.

 


E que bom que ela nos deixou um legado! Ela viverá para sempre através do que nos ensinou e dos momentos que vivemos. E você poderá revê-la, quando bater saudade, nos quadrinhos da Wicca Teens, na Joabe, passeando em Leemyar, na Diane, a clériga nórdica de Titânia, e em seus diversos vídeos no Alcateia , no canal dela e no meu. Porque estrelas brilham, e mesmo muito depois de morrerem, sua luz continua chegando até nós, iluminando o céu, inspirando a alma. 


 

 

 

segunda-feira, 22 de março de 2021

ZACK SNYDER’S JUSTICE LEAGUE

Por Ricky Nobre

Liga da Justiça de Zack Snyder não é o primeiro nem será o último filme a ir para os cinemas completamente diferente das intenções originais de seu diretor. O público pôde ver o corte original de A Marca da Maldade (1956) apenas em 1998, 14 anos após a morte de seu diretor Orson Welles. Duna (1984) teve uma versão estendida, mas não uma versão aprovada pelo seu diretor David Lynch pois, segundo ele, não foi possível na época filmar tudo que ele queria, portanto, apenas resgatar as cenas cortadas não seriam capazes de tornar a versão estendida uma real versão do diretor. Dependendo da quantidade de material cortado, do orçamento do filme, do interesse do público, entre outros fatores, versões do diretor tornaram-se algo relativamente comum nos últimos 20 anos. Caso o estúdio tenha forçado o corte de meia hora num filme para que ele fosse aos cinemas, ele pode voltar sem muitos problemas em DVD em sua versão original. Muitas vezes é melhor, mas às vezes é até pior. Porém, o mérito de tornar essas versões disponíveis ao público é dar ao artista a chance de pôr sua visão pessoal na rua, para que o público aprecie e tire suas conclusões. E, apesar de na história de Hollywood haver diversos casos semelhantes, o de Liga de Justiça foi bem mais complexo.

 

Após apresentar um primeiro corte de 4 horas que a Warner considerou inassistível, o diretor Snyder foi afastado do projeto. A tensão já vinha de antes, com as críticas a Batman Vs Superman, um sucesso de bilheteria e fracasso de crítica. O sucesso comercial, porém, foi abaixo do esperado pelo estúdio, o que pôs os produtores em alerta. Mesmo suspeitando de uma futura demissão, Snyder continuou filmando tudo que queria à revelia do estúdio e estava disposto a brigar com a Warner por sua versão. Uma tragédia familiar, porém, esmagou sua vontade de lutar por um filme. Entra Joss Whedon que, sob a promessa do estúdio de poder realizar um filme da Batgirl (que, por fim, nunca aconteceu), é incumbido de dar mais leveza, humor, cor e rapidez ao filme, não podendo ultrapassar duas horas de projeção. Não tinha como dar certo.

 

Liga da Justiça foi recebido com frieza por público e crítica. A bilheteria mundial de 657 milhões de dólares mal cobriu todos os gastos extras que foram despendidos para que a forma do filme fosse completamente modificada em um prazo muito exíguo. Histórias sobre o conteúdo da versão original e se ela estaria ou não completa começaram a circular com velocidade viral na internet. #Releasethesnydercut tornou-se a maior harshtag do mundo nerd. Mas era impossível que a Warner gastasse milhões de dólares para realizar TODO o processo de pós-produção de um filme inassistível. Não?

 

Pois numa conjunção milagrosa de fatores, a Warner disponibilizou 35 milhões de dólares (inflado para 70 milhões posteriormente) para que a versão de Zack Snyder para Liga da Justiça se tornasse um grande chamariz para o serviço de streaming HBOmax. Com algumas refilmagens (não tantas quanto se propaga), Snyder teve liberdade total e absoluta para finalizar o filme exatamente como ele havia imaginado (com algumas poucas revisões “depois do fato”, como o aspecto de tela). Sendo esta versão do diretor uma obra 100% sem concessões, como ela se compara com a versão lançada nos cinemas?


É preciso analisar o filme pelos seus méritos próprios, mas é impossível fazê-lo desvinculado do conjunto da obra de Zack Snyder e do que ele criou para o universo de super-heróis de DC. O “snyderverso”, como vem sendo chamado, está longe de ser uma unanimidade. Mas pode-se dizer que, inserido nesse universo e sob suas regras e pontos de vista, este Liga da Justiça é o melhor trabalho de Snyder para a DC.

 

Inicialmente, estranha-se o filme ser dividido em partes. Essa montagem tem origem na ideia de lançar o filme como uma minissérie na HBOmax, sendo a versão em longa metragem contínuo reservada para um lançamento restrito em cinemas e para home vídeo. Mas a Warner mudou de ideia na última hora, e Snyder preferiu deixar as divisões. De fato, as partes e seus títulos têm certa simpatia, lembram os capítulos de numa minissérie em quadrinhos encadernada. Como se pode prever por sua duração de 242 minutos, o filme não tem pressa. Nenhuma! E isso não é ruim. Lento não é sinônimo de tedioso, e este não é de forma alguma um filme chato. Em sua concepção original, vemos muitas cenas familiares em versões mais longas, dispostas em ordenação bem diferente da versão dos cinemas. Nisso, todos os personagens ganham em desenvolvimento, sendo o mais beneficiado deles o Ciborgue, que tem aqui praticamente um filme de origem dentro do filme. Já Batman é o que menos apresenta novidades, possivelmente por ter tido amplo espaço no filme anterior.

 

Ao longo da projeção, vemos todo o imenso talento de Snyder para a concepção visual e uma tranquilidade para desenrolar os acontecimentos para o encontro dos personagens. Tanto quanto Ciborgue, ganha também o vilão Lobo da Estepe, não apenas por seu visual muitíssimo superior, mas também por ter uma real motivação e uma personalidade mais definida e (um pouco) menos “vilão genérico”. Num lado negativo, temos uma certa tendência à cafonice que, geralmente, Snyder consegue disfarçar bem dentro de seu estilo “modernoso”. Várias cenas são acompanhadas de canções que, nem sempre, casam bem com as cenas em questão.  Seu gosto exagerado por baixa saturação, sombras e câmera lenta é largamente conhecido, e ele continua errando a mão em algumas cenas. Nem toda cena precisa de uma pomposidade majestosa e triunfante (como o flashback de Victor jogando futebol). Quando tudo é majestoso, corre o risco de nada mais ser.

 

No geral, a comparação com a versão dos cinemas é inevitável: a história (que nunca foi particularmente inspirada) é mais bem contada, os personagens têm seu devido desenvolvimento, suas motivações são mais claras e o ritmo, ainda que lento, é melhor. As cenas de ação são bem superiores e o filme, em seu todo, é bem mais majestoso e épico, do jeito Snyder de ser. A batalha final tem um desenrolar bem mais detalhado e Snyder é muito bem-sucedido na construção do suspense, deixando o espectador de olho arregalado esperando o vai acontecer.

 

A música de Junkie XL (que aqui assina como Tom Holkenborg) casa bem com o estilo do diretor e dá continuidade à identidade sonora dos filmes anteriores da franquia. Ainda que seja um representante do estilo atual de música de cinema, com os vícios dessa geração, com o clichê da pesadíssima percussão para cenas de ação e um estilo mais de “sound design” do que musical, a trilha é, em seu todo, mais bem realizada do que nos filmes anteriores, principalmente Batman Vs Superman, onde Junkie XL trabalhou em parceria com Hans Zimmer, situação onde XL tende a ter menos personalidade e funcionar mais como um assistente de Zimmer. Trabalhando solo, XL rende bem melhor e produz o som que casa com os visuais de Snyder. No geral, a música de Junkie XL serve melhor a esta versão do que a de Danny Elfman (pouco inspirada) serviu à versão do cinema.

 

O filme, porém, não sai incólume das autoindulgências de Snyder. Ao se decidir em montar Liga da Justiça como havia originalmente concebido, ele não se preocupa com continuidades de obras futuras, oferecendo alguns conflitos a Aquaman que, em seu filme solo posterior, mostram-se como já resolvidos na juventude. Mas não é preocupação de Snyder fazer seu filme se encaixar suavemente numa franquia cuja continuidade nem o próprio estúdio parece dar importância. A escolha à posteriori do enquadramento na proporção 1,33:1 (possível graças às filmagens em película no sistema Super 35mm) também é um aspecto dessa “vibe” de Snyder de não se restringir em nada. Ainda que o principal veículo de distribuição do filme seja um serviço de streaming, Snyder opta por um enquadramento que só tem real efeito impactante numa sala IMAX de projeção em película (cujo aspecto é 1,45:1). O resultado disso na telinha não deixa de ser curioso. Temos, de fato, uma sensação de espaço expandido, mas isso vem mais do excesso de espaço acima e abaixo dos personagens. Considerando que esse filme, se fosse finalizado por Snyder lá em 2017, teria sido lançado nos cinemas na proporção 2,35:1 (a exemplo dos dois anteriores), é uma conclusão óbvia que ele enquadrou as cenas com essa proporção em mente. Isso fica claro quando percebemos que praticamente não existem “closes” fechados dos personagens durante o filme, pois o enquadramento foi drasticamente “aberto” acima e abaixo dos atores. A grande exceção são as cenas adicionais com o Coringa, rodadas meses antes do lançamento, quando Snyder já havia decidido pelo novo enquadramento. A escolha de enquadramento é uma prerrogativa do diretor, uma das principais decisões (se não a mais importante) na construção da linguagem do filme. Lançar Liga da Justiça em 1,33:1 não é certo nem errado. É uma decisão artística. Porém, como não foi feita no momento das filmagens, e sim 3 anos depois, fica evidente em vários momentos que não foram exatamente assim que as cenas foram pensadas.

 

Além disso, algumas cenas realmente sobram (a cantoria para Aquaman é a primeira que vem à mente), mas o grande problema é tudo que foi filmado (na época ou à posteriori) que serve apenas para o diretor apresentar o que ele planejava para um filme posterior (que tende a não ser realizado), sendo quase todas as cenas concentradas num epílogo que realmente sobra após a conclusão da trama. O que se desenrola nele serve tanto como as únicas migalhas que ele pode apresentar para os fãs das linhas gerais de um “Liga da Justiça 2”, e também como uma provocação e pressão moral sobre a Warner, sinalizando que, dependendo do sucesso comercial desta versão, não uma, mas DUAS sequências já estão na cabeça do diretor. No epílogo é onde o fanservice vence e o cinema perde. Como filme, ele termina de verdade quando Superman corre em direção à tela. Tudo o que vem depois é um anticlímax, inclusive a música dos créditos finais, onde a cantora Allison Crowe pira no vibrato na pior gravação de Hallelujah já feita.

 

Quanto à visão de Snyder desse universo, ela já é conhecida e não se pode esperar nada de diferente. Seu Superman é aquela visão triste que conhecemos e isso não muda aqui. Apesar de Lex Luthor ter dito em Batman Vs Superman que aquela era a grande luta entre a luz e as trevas, este Superman de Snyder jamais foi luz, e isso é simplesmente confirmado aqui, e só. Snyder adora heróis violentos e gosta de valorizá-los em poses e ângulos majestosos e quase divinos (Aquaman salvando um pescador é um exemplo simples disso). Mulher Maravilha nos quadrinhos nunca foi adepta do estilo escoteirão do Superman e mata quando necessário. Mas aqui ela explode até um Zezinho sem poder, porque o mundo de Snyder é assim. E só aceitando isso é possível viver no Snyderverso. Talvez o principal esforço de Joss Whedon na versão de cinema tenha sido salvar Superman desse abismo trevoso de Snyder, mas a própria dificuldade da tarefa, somado a um CGI desastroso, tornaram os resultados alvo de críticas e chacotas. Não que não fosse um alívio ver Superman sorrindo, mas parecia um remendo tardio num universo estragado.

 

Uma das conclusões surpreendentes que se tira após 4 horas de Liga da Justiça é o quanto de Snyder já tinha na versão finalizada por Joss Whedon. Ainda que este tenha sido exposto como um profissional absolutamente tóxico e abusivo no ambiente de trabalho, a ele foi dada uma tarefa impossível. Alguns vão preferir aquela versão mais resumida de uma trama que nunca foi tão complexa assim pra começar, aliado a um resgate de um olhar mais luminoso sobre Superman. Outros (a maioria, talvez) irá preferir a versão original agora lançada, seja por ser uma obra mais completa, coesa e bem acabada, seja por pura fanboyzice dos seguidores do diretor. Zack Snyder’s Justice League deixa bem claro o erro trágico da Warner na condução do projeto. Tivesse o estúdio permitido um corte de 3 horas para Snyder lançar seu filme nos cinemas, com sua versão completa em DVD e bluray meses depois, teria gasto muito menos dinheiro na produção e, com certeza, arrecadado mais na bilheteria, tendo, possivelmente, o reconhecimento de melhor na trilogia de Snyder na DC, tonando desnecessário todo esse carnaval que se fez em torno desta versão. Snyder parece disposto a terminar a saga imaginada por ele caso a Warner veja vantagem financeira em restaurar o “snyderverso”. Mas talvez seja melhor para sua carreira começar a se dedicar a projetos de autoria própria, evitando comparações entre as versões clássicas de personagens consagrados e sua versão muitas vezes mais sombria e violenta, principalmente se levarmos em conta que Snyder possui uma visão bem juvenil do que é material adulto. Para qualquer pessoa interessada em cinema, o snydercut é uma aula de como a adição e subtração de cenas e detalhes altera a percepção de uma obra. Para fãs de super-heróis, é munição de um campo de batalha nerd sem fim. Quem for de mente e coração aberto ganhará mais.


 COTAÇÃO:


 

ZACK SNYDER'S JUSTICE LEAGUE (2021)

com: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Ray Fisher, Jason Momoa, Ezra Miller, Willem Dafoe, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, Amber Heard e J.K. Simmons.
Direção: Zack Snyder
História: Zack Snyder, Chris Terrio e Will Beall    
Roteiro: Chris Terrio
Fotografia: Fabian Wagner
Montagem: David Brenner, Carlos M. Castillón e Dody Dorn    
Música: Thomas Holkenborg
Design de produção: Patrick Tatopoulos