domingo, 12 de setembro de 2021

Dylan Dog e as Criaturas da Noite: Um Equívoco do Início ao Fim

 Eddie Van Feu
 
O filme é de 2011, mas eu só vi agora e a experiência foi tão esquisita que eu tinha que compartilhar com você! 





Inspirado em uma série de quadrinhos que rola até hoje e tem uma grande base de fãs, ele traz Brandon Routh no papel título. Nos quadrinhos, Dylan Dog é um detetive que investiga casos paranormais em roteiros interessantes, como no caso do homem que era tão inexpressivo em sua vida que acaba se tornando invisível, literalmente. Aí eu pensei: “Ah, um filme baseado em quadrinhos com terror e Brandon Routh! O que pode dar errado?” Então, tudo!
Pra começar, direção e roteiro são medíocres em essência e me ofende que essa gente tenha ganho dinheiro por isso. A inspiração nos quadrinhos começa no título e termina no fusquinha que Dylan dirige. As atuações são terríveis. A trama parece ter sido escrita por um Mestre de RPG Lobisomem de 12 anos em um dia ruim.



Dá pra perceber que tem algo errado nos primeiros três minutos de filme. Foi, aliás, quando eu parei e só retomei por teimosia alguns dias depois. Na primeira sequência, que já é um cliché em si, há uma tremenda falta de ritmo que já aponta que a direção é desastrosa. O momento de suspense com amimais mortos empalhados em uma sala escura não funciona, graças à atriz com cara de papel em branco e a trilha sonora inexistente. A seguir, vemos Brandon Routh jogando pela janela qualquer referência ao personagem agindo como um detetive super mega fodão que acerta todas, prevê o futuro e não tem medo de nada. Atenção! Não é culpa do ator! Ele seguiu o roteiro e o diretor.




Daí em diante é ladeira abaixo. O amigo de Dylan, Marcus, que deveria ser um alívio cômico, fracassa retumbantemente e não sei se podemos culpá-lo. Suas falas são péssimas, o humor não funciona, e o texto se detém tempo demais em piadas sem graça (na esperança de que se esticarem bastante consigam fazer alguém rir). A mocinha não tem fala, expressão, carisma e é tão esquecível que ninguém lembra dela no final, depois da batalha que deveria ser o clímax.



As cenas de ação são tão ruins, mas tão ruins, que eu comecei a me perguntar se o filme era dos anos 80. “Não pode ser! O Brandon Routh está ali! Eu o estou vendo!”, pensei. Gente! É sério! As lutas são piores (BEM PIORES) que qualquer episódio de Buffy e Angel, que são para a TV e anteriores! Os efeitos de vampiros, inclusive, são muito similares aos de Buffy. O lobisomem que aparece no começo é claramente alguém de macacão peludo! Aí eu pensei: “Coitados! Deve ter sido uma produção com pouco dinheiro!” Eles tiveram 20 milhões de dólares! VINTE MILHÕES! E segundo alguns sites, 35 milhões! Ah, eu pedia uma auditoria! CPI neles!
O roteiro é simples e previsível, com direito a artefato mágico que faz algo incrível. Só que nada é explicado corretamente, graças ao texto horrível e a péssima direção, deixando tudo um pouco confuso. Só dá pra entender porque é muito básico mesmo e porque alguém depois faz questão de explicar para a audiência que cochilou no meio.
Enfim, eu vi até o final porque era como alguém vendo um acidente acontecendo. Não encontrei uma explicação para o filme ser tão ruim. Para os fãs do quadrinho, foi uma ofensa. Para os que só queriam um bom filme, foi uma decepção. Não funciona nem como um, nem como outro. Sinceramente, eu teria feito bem melhor.



quinta-feira, 9 de setembro de 2021

"Um Casal Inseparável", com Nathalia Dill e Marcos Veras, estreia hoje nos cinemas

Hoje é dia de lançamento nos principais cinemas da cidade. “Um Casal Inseparável” estreia hoje com distribuição da H2O Films. Na história, o relacionamento da professora de vôlei de praia Manu (Nathalia Dill) e do pediatra Leo (Marcos Veras) fica em risco após um mal entendido. A produção do filme é da TvZERO, com coprodução da Globo Filmes e Telecine, e direção de Sergio Goldenberg.  Confira o trailer. 




A agência Atabaque é a responsável pela campanha de lançamento e ativação em todos os aplicativos de música de “Água de Chuva no Mar”, clássico originalmente gravado por Beth Carvalho, que ganhou uma versão exclusiva interpretada por Mart'nália, feita para a trilha original do filme “Um Casal Inseparável”.

 “Um bom lançamento de uma trilha sonora original potencializa o lançamento do filme e vice-versa. A Atabaque acredita nessa sinergia e estamos confiantes com essa parceria com a TV Zero”, afirma André Izidro, sócio da Atabaque.



A Atabaque tem a proposta de trabalhar a música como negócio em todos os âmbitos, sendo uma aceleradora de talentos e um laboratório de experiências para desenvolver carreiras, projetos e criar oportunidades. Liderada pelo ex-CMO da powerhouse Kondzilla, André Izidro, e pelo sócio Odilon Borges, advogado com especialização em Direitos Autorais, contratos internacionais e licenciamento; a Atabaque tem o objetivo de analisar dados, conectar pessoas e criar hits.

Saiba mais em @atabaque.biz


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

A Cisterna: Suspense de Corrupção e Vingança

por Eddie Van Feu


Uma jornalista ambiciosa é sequestrada e colocada em um poço. Suas matérias sobre corrupção na distribuição de água parecem uma boa causa, mas nem tudo o que parece é. Nesse dirigido por Cristiano Vieira (“Eu Sinto Muito”), acompanhamos o desespero de Lorena para sobreviver, com um pano de fundo que envolve corrupção, ambição e erros fatais de quem julga rápido demais.



Filmado com simplicidade e elegância, A Cisterna toca em uns pontos interessantes, nevrálgicos na nossa sociedade. A personagem principal, interpretada por Fernanda Vasconcelos, é uma jornalista ambiciosa e destemida que não se omite na hora de confrontar crimes, seja a corrupção no sistema de água que tira seu lucro da seca e da escassez, seja acusando um padrasto de pedofilia e fazendo-o perder a guarda da filha. Sua gana e coragem, a princípio admirável, é o que a coloca em perigo. Sua ambição também compromete a criação da filha única e coloca na mesa a questão: mulheres podem ser profissionais de sucesso E serem boas mães? Deveríamos mesmo cobrar isso delas? Por que não cobramos o mesmo dos homens?



Ao mesmo tempo, acompanhamos o ator chileno Cristobal Tápia Montt, um homem melancólico, amargo e infeliz, que vive um conflito interno invisível aos que o rodeiam.

O filme cumpre seu papel de abrir questionamentos para quem estiver disposto a olhar os detalhes além da trama. Também não deixa nada a desejar quando o tema é suspense. A trilha de Dudu Maia é discreta, parece um coração batendo em tensão enquanto nos sentimos presos dentro de um poço sem saída.

Cristiano Vieira, que também escreveu além de dirigir, faz um bom trabalho ao mostrar uma coisa com uma mão, enquanto prepara uma surpresa com a outra, como um bom truque de mágica. É um filme todo certinho, sem grandes arroubos, mas também sem grandes erros. É uma boa diversão para quem gosta de uma boa história. Destaque para as ótimas interpretações da belíssima Fernanda Vasconcelos e do talentoso Cristobal Tápia Montt que convencem do início ao fim.

A Cisterna foi filmada em Brasília em 2019 e teve seu lançamento atropelado pela pandemia, como tantos outros. Com estreia para o dia 09 de setembro nas plataformas iTunes, Now, Google Play, Vivo e Oi.

Incluído na seleção oficial do New York Cinema Festival, o filme terá sua estreia internacional no festival que terá início em 24 de outubro. O filme também fez parte da seleção oficial do Festival de Havana na edição de 2020.



quinta-feira, 13 de maio de 2021

LIBELU: ABAIXO A DITADURA

Por Ricky Nobre

Em 1976, o cantor e compositor Belchior mostra para Elis Regina sua nova música “Como Nossos Pais”. Elis pede para poder gravar a música primeiro, antes do próprio Belchior, e a gravação é lançada naquele mesmo ano no álbum Falso Brilhante. Além de ser um tapa na cara em cada verso e uma das interpretações mais magistrais de Elis, “Como Nossos Pais” lamenta a derrota de uma geração. A luta armada contra a ditadura militar brasileira estava completamente perdida. “Por isso, cuidado, meu bem / Há perigo na esquina / Eles venceram / E o sinal está fechado pra nós / Que somos jovens”. Naquele mesmo ano, porém, um grupo de jovens da USP estava forjando uma nova forma de lutar.

 

A tendência estudantil Liberdade e Luta (LIBELU, numa apropriação da forma jocosa como outros grupos se referiam a ela) surgiu a partir de uma organização clandestina, a OSI (Organização Socialista Internacionalista), mas tomou rumos próprios quanto à forma de atuação. Sua postura irreverente, com festas embaladas a rock, pode ser lida hoje, talvez, como uma gênese da hoje considerada “esquerda festiva”. Era muito mal vista por seus pares, mas se espalhou, tomou força e foi capaz de resgatar e pôr de volta na boca do povo o grito “abaixo a ditadura”, silenciado após o AI-5 em 1968. 

 

O diretor Diógenes Muniz diz que o tema lhe chamou a atenção quando descobriu um poema que Leminski havia dedicado ao grupo: “Me enterrem com os trotskistas / na cova comum dos idealistas / onde jazem aqueles / que o poder não corrompeu.” A partir daí, Diogenes traz para a tela diversos ex membros do Libelu 40 anos depois de sua dissolução e, além de remontar todo o histórico do grupo a partir dos depoimentos, investiga o que o tempo fez com esse idealismo, quão incorruptíveis e sonhadores permaneceriam. As entrevistas, todas realizadas numa sala do prédio da FAU-USP, trazem nomes como Demétrio Magnoli, Paulo Moreira Leite, Markus Sokol, Fernanda Pompeu e Reinaldo Azevedo, de uma lista de 20 entrevistados, que já mostra os caminhos díspares que cada um seguiu. 

 

O grande feito do documentário Libelu é resgatar a herança do grupo para além da imagem de “doidões da faculdade”, estabelecendo um lugar claro de luta em um momento onde esta parecia perdida. E tão importante quanto o papel do Libelu na volta das passeatas e grandes manifestações contra a ditadura é também a importância que o grupo teve na vida de cada um dos entrevistados e como essa vivência se reflete em sua vida pós faculdade e em suas visões políticas atuais. O diretor deixa clara a importância que dá ao próprio espaço universitário ao apresentar a entrevista de Palocci, concedida quando este estava em prisão domiciliar (entrevista, aliás, de inesperada sinceridade), onde parte dela é exibida em um telão na mesma sala onde todos os demais entrevistados gravaram seus depoimentos. Ele faz questão de pô-lo ali, no mesmo nível de todos. O filme também não se furta a tratar de temas delicados, como o racismo dentro da esquerda.

 

Vencedor do prêmio de melhor documentário nacional no Festival É Tudo Verdade 2020, Libelu é uma viagem pelo histórico da luta contra o regime militar, pelos sonhos de juventude e pelos pedaços que vão ficando pelo caminho. Os ecos que ressoam na realidade política brasileira de hoje são inevitáveis.

 

 COTAÇÃO:


 

CALENDÁRIO DE LANÇAMENTO

13/05 – Lançamento nos cinemas

27/05– Entra em cartaz no TvoD (NOW, Vivo Play, Oi Play, Google Play, iTunes, Apple TVe Youtube Filmes) 

20/07 - Estreia no Canal Brasil

Agosto - Estreia na Globonews

 

LIBELU: ABAIXO A DITADURA, 2020.

Direção e Roteiro DIÓGENES MUNIZ

Produção Executiva LETÍCIA FRIEDRICH

Direção de Fotografia FÉLIX LIMA

Montagem ANDRÉ FELIPE

Trilha Sonora Original SAMUEL FERRARI, TIAGO JARDIM

Produtores LETÍCIA FRIEDRICH e LOURENÇO SANT'ANNA

Produção: Boulevard Filmes em coprodução com Globo Filmes, Globonews e Canal Brasil

domingo, 25 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: O SOM DO SILÊNCIO – 6 indicações

Por Ricky Nobre

Existem vários tipos de luto. Um deles pode ser o luto por si mesmo ou por uma parte de sua vida que desaparece de uma hora para outra. Em O Som do Silêncio, Ruben, um baterista que forma uma dupla de heavy metal com sua namorada Lou, perde drasticamente a audição em questão de dias. Ele inicialmente finge que não está acontecendo, até que procura um médico que lhe mostra a gravidade da situação e que era imperativo se afastar de ruídos altos para preservar a audição que restou. Mas, em negação, continua se apresentando em turnê, até que o som o abandona quase que completamente. Quando a raiva bate e se mostra um perigo até para ele mesmo, Lou o convence a procurar ajuda, e ele chega numa comunidade de surdos onde ele precisará aprender a viver em sua nova condição.

 

O que difere O Som do Silêncio de tantos outros dramas edificantes de sofrimento e superação é sua crueza e sua honestidade. Ainda que o diretor Darius Marder opte com frequência por sutileza e delicadeza, a forma como acompanhamos a história de Ruben é carregada de verdade, seja a que ele experimenta e sente, seja a das pessoas que o rodeiam. O objetivo de Paul, que gerencia a comunidade onde ele passa a viver, é de que ele aceite sua nova condição e aprenda a viver com ela como sua realidade atual, que ele consiga um momento em que ele fique parado, em repouso, em silêncio, sem que a cabeça gire a 300 por hora sobre o que acontece com ele. Mas isso é tudo o que Ruben pensa. Inconformado, ele acredita precisar arrumar dinheiro para os implantes que podem lhe trazer de volta a audição, para poder voltar com Lou, botar a banda na estrada, gravar o disco que planejavam, e tudo voltar como era antes. Só que nada será como antes novamente. Ele aprende libras e se conecta cada vez mais com as pessoas da comunidade, vive momentos de alegria, mas sua vida anterior não lhe sai da cabeça.

 

O filme é muito bem-sucedido ao mostrar os amores de Ruben. Ele ama a música, não apenas o metal que toca em seus shows, mas velhas gravações de blues e da Motown que rodam em seu toca-discos. Ama Lou por ser sua parceira musical, ama a pessoa que ela é e ama ela ter “salvado sua vida”, pois ele parou de usar drogas nos quatro anos em que estão juntos. Ele ama seu trabalho e ama a estrada por onde viaja em seu ônibus-trailer, seu lar, indo de cidade em cidade, de show em show. Com isso tão bem estabelecido, sentimos o brutal impacto de, com a perda da audição, Ruben perder tudo isso de uma vez, já que nem a convivência com Lou é possível, pois na comunidade, nessa fase de aprendizado, ninguém de fora é permitido. Daí a obsessão de Ruben em reaver tudo que perdeu, não importa os custos.

 

A total imersão que sentimos no mundo do protagonista se dá principalmente por três fatores: a câmera, o som e Riz Ahmed. A câmera segue Ruben com constante intimidade, sempre atenta aos pequenos gestos e expressões. Geralmente livre e “na mão”, é uma câmera que lembra o estilo documental, da mesma forma que a montagem segue um pouco essa lógica, onde os saltos temporais ficam implícitos nas diferenças de comportamento e atividades do personagem. A experiência anterior exclusiva do diretor nessa área (montou e escreveu diversos documentários e dirigiu um) explica seu estilo.

 

Quanto ao som, talvez seja um dos experimentos mais extraordinários no cinema em décadas. Um absoluto primor técnico e artístico, o som, ao critério extremamente sensível e preciso da direção, nos joga para dentro e para fora da cabeça de Ruben, sempre no momento exato. A cada fase de perda de audição, ouvimos exatamente o que ele ouve, trazendo para muito perto de nós seu medo, desespero e decepção. Quando ouvimos o som puro do mundo à volta dele, é sempre extremamente rico, repleto de camadas belas e sutis dos mais diferentes sons e ruídos, e tudo sem ser exagerado nem embolado, não é uma cacofonia. É a música do mundo. É como se o diretor esfregasse na nossa cara a beleza dos sons que nos rodeia e aos quais não damos valor, mas que agora estão fora do alcance de Ruben. O contraste com o som do silêncio de Ruben é sempre preciso e chocante. Outro destaque do trabalho sonoro é a reprodução do som dos implantes, drasticamente diferentes dos sons reais, que também têm alto impacto dramático.

 

Por fim, temos o trabalho extraordinário do ator Riz Ahmed. Sua total entrega vai desde a preparação, onde aprendeu libras e a tocar bateria, até a forma como ele expressa cada emoção, seu olhar de raiva, de medo, seu olhar perdido por não saber como viver sem ouvir, a determinação, a decepção e a serenidade. Ahmed nos faz íntimo de Ruben e torcemos e sentimos por ele a cada passo.

 

Talvez o filme peque apenas por tomar algumas liberdades justamente no que se refere aos implantes auditivos. Apesar de mostrar com total realismo seu funcionamento, eles, apesar de seu alto custo, são na realidade cobertos pela imensa maioria dos planos de saúde dos EUA, ao contrário do que é dito no filme. Da mesma forma, existe todo um longo trabalho anterior à cirurgia não só de preparação mas de esclarecimento sobre o real efeito deles na audição, assim como a recuperação da cirurgia não é tão imediata. Num filme com uma preocupação realista tão profunda, pareceu que essas liberdades serviram como um atalho dramático do roteiro, que não casa muito bem com o restante do filme. Mas para quem não está familiarizado com o assunto, flui sem problemas.

 

Darius Marder nos oferece uma surpreendente estreia na direção de ficção e é, sem dúvida, um nome para ser acompanhado com atenção. O realismo da abordagem e a escolha por evitar a emoção fácil, o melodrama e as “mensagens edificantes” tornam o filme uma experiência singular. Seguimos o protagonista em uma viagem que vai do som do metal pesado que ele toca em seus shows, ao som metalizado e distorcido dos implantes que ele julgava serem sua salvação. Sound of Metal é uma experiência triste, um tanto desesperadora, mas profundamente humana.

 

COTAÇÃO: 


INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Ator: Riz Ahmed

Ator coadjuvante: Paul Raci

Roteiro original: Darius Marder e Abraham Marder

Som: Nicolas Barker, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Carlos Cortes e Philip Bladh

Montagem: Mikkel E. G. Nielsen

 

O SOM DO SILÊNCIO (Sound of Metal, EUA – 2019)

Com: Riz Ahmed, Olivia Cooke, Paul Raci, Lauren Ridloff e Mathieu Amalric.

Direção: Darius Marder

Roteiro: Darius Marder e Abraham Marder

Fotografia: Daniël Bouquet

Montagem: Mikkel E. G. Nielsen

Design de produção: Jeremy Woodward

sábado, 24 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: A VOZ SUPREMA DO BLUES – 5 indicações


Por Ricky Nobre

O dramaturgo norte americano August Wilson foi o criador do que ficou conhecido como “O Ciclo do Século” ou “O Ciclo de Pittsburgh”, composto por dez peças teatrais, cada uma ambientada em uma década do século XX, retratando a realidade da comunidade negra dos EUA. Em 2016, Denzel Washington produziu, dirigiu e estrelou Um Limite Entre Nós, ambientada nos anos 50. Agora ele volta apenas como produtor trazendo A Voz Suprema do Blues, que se passa na década de 20, como parte de um projeto de filmar todas as dez peças de Wilson.

 

O título original Ma Rainey's Black Bottom se refere a uma das mais de 100 músicas gravadas por Ma Rainey, conhecida como “a mãe do blues”, pelo selo Paramount entre 1923 e 1928. O filme é baseado no fiapo de fatos que se conhece da biografia de Ma Rainey. Mais do que tentar traçar um retrato fiel da história da cantora, o texto procura retratar com fidelidade seu talento, a personalidade bombástica e também a realidade dos artistas negros da época. Desta forma, acompanhamos a narrativa ficcional de um dia de gravação de Ma Rainey e sua banda, em dezembro de 1927, quando ela gravou uma dúzia de músicas, além daquela dá o título. Fora Ma Rainey e o dono da gravadora, todos os demais personagens são ficcionais, e contam a mesma história da protagonista, sob outro ponto de vista.

 

Enquanto ensaiam numa sala fechada, os membros da banda mostram diferentes visões sobre o que é ser negro nos EUA em geral e artistas negros em particular, assim como todo preconceito e violência que sofrem. Músicos de gerações diferentes têm visões que coincidem ou se colidem. O destaque é para o jovem trompetista Levee (Chadwick Boseman, em seu derradeiro papel), um músico de muito talento, muita ambição, pouca paciência e quase nenhum limite. Ele sabe que tem talento, conhece a indústria da música (que crescia), sabe o que faz sucesso, quer impor a si e a suas ideias, pois tem fé em si. Sua agressividade de jovem impaciente, mas também de “fera enjaulada”, colide com a visão de vida e personalidades mais cautelosas de seus colegas músicos mais velhos e experientes. Com terríveis memórias de violência racial vindas da infância, Levee não se conforma com limites, seja uma porta trancada, sejam os injustos limites que lhe são impostos por sua cor. Assim, ele sempre tenta transpor esses limites, seja se engraçando com a namorada de Ma Rainey, seja tentando impor um arranjo diferente do combinado.

 

De forma similar, Ma Rainey, já estabelecida na carreira e um grande sucesso de vendas de discos que transcendeu o sul e dominou o resto do país, vê no valor de sua arte o seu poder de barganha. Ela impõe sua vontade, tem “ataques de diva”, cria dificuldades onde talvez elas não precisassem existir. Mas ela sabe o enorme valor financeiro que ela tem para a gravadora, e que esse é o único valor que o empresário branco vê nela. O que ela quiser exigir, ela exige, e se esse é o único jeito de ter um branco em posição de poder tratando-a com o respeito devido, então assim será. Com narrativas, a maior parte do tempo, separadas, Levee e Ma Rainey dividem a cena e entram em colisão em um tempo reduzido do filme, sendo bem maior os seus desenvolvimentos em separado. 

 

A fraqueza do filme vem da limitada habilidade do diretor George C. Wolfe e do roteirista Ruben Santiago-Hudson em transpor a peça teatral para a tela. Com enorme experiência em teatro e quase nenhuma em cinema, ambos falham em adaptar o tom dos diálogos, das interpretações e do mise-en-scène para a tela. Por mais admirável que seja a performance de Chadwick Boseman, esta é uma bela interpretação para o palco. Todas as cenas e toda a dinâmica entre os músicos são essencialmente teatrais, com longos monólogos e uma dramaticidade que não rende tão bem na tela. O diretor tenta dar vida à câmera, que passeia pelo cenário, fugindo da imobilidade, mas as interpretações são teatro puro. Porém, quando Viola Davis entra... tudo muda como num passe de mágica. Davis pega aquele mesmo texto, com aquela mesma direção e transforma aquilo em cinema como se para isso bastasse respirar. A impressão é de que tudo é feito rigorosamente sem esforço algum. Tamanho é o poder de sua performance que todos os demais atores com os quais divide a cena respondem de forma semelhante, e tudo vira mais cinema. 

 

Por mais que Ma Rainey tenha sido um exemplo pioneiro de artista negra se impondo numa indústria de entretenimento controlada por brancos, ao fim, é impossível tratar de questões deste porte sem uma grande dose de amargura. Na inexperiência, no inconformismo e na frustração de Levee, ele acaba direcionando seu ódio para aquele que menos merecia, enquanto o dono da gravadora segue o padrão, apropriando-se da arte de negros e vendendo-a por brancos para brancos. Ao arrombar a porta, ela leva a lugar nenhum. Uma síntese de dois aspectos da luta de artistas negros para se imporem que poderia ter gerado um belíssimo filme se fosse entregue a artistas que efetivamente dominassem a linguagem do cinema.

 

COTAÇÃO: 


INDICAÇÕES AO OSCAR:

Ator: Chadwick Boseman

Atriz: Viola Davis

Direção de arte: Mark Ricker, Karen O'Hara e Diana Sroughton

Maquiagem e cabelo: Sergio Lopez-Rivera, Mia Neal e Jamika Wilson

Figurino: Ann Roth

 

A VOZ SUPREMA DO BLUES (Ma Rainey's Black Bottom, EUA – 2020)

Com: Viola Davis, Chadwick Boseman, Colman Domingo, Glynn Turman, Michael Potts, Jeremy Shamos e Taylour Paige

Direção: George C. Wolfe

Roteiro: Ruben Santiago-Hudson, baseado na peça de August Wilson

Fotografia: Tobias Schliessler

Montagem: Andrew Mondshein

Música: Branford Marsalis

Design de produção: Mark Ricker

 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Os filmes do Oscar: MANK – 10 indicações

Por Ricky Nobre

Em 1971 a renomada crítica cinematográfica Pauline Kael publicou um artigo intitulado Raising Kane, onde defendia a tese de que o roteiro de Cidadão Kane foi escrito exclusivamente por Herman Mankiewicz e, portanto, Orson Welles não merecia nem o crédito de co-roteirista nem o Oscar recebido em 1942. Ainda que muitos colegas de profissão tivessem criticado o conteúdo do artigo, e mais ainda, que o cineasta Peter Bogdanovich tenha desmentido ponto a ponto os argumentos de Kael em um artigo próprio no ano seguinte, a história se espalhou de tal forma que ainda hoje é repetida como verdade. Com uma produção absolutamente impecável, o novo filme de David Fincher Mank falha justamente por se apoiar numa tese já desbancada por documentos arquivados da época, mais precisamente, os sete tratamentos diferentes do roteiro, onde apenas o primeiro é de autoria exclusiva de Mankiewicz. Os seis seguintes são em parceria com Welles. 

 

O roteiro de Mank foi escrito originalmente pelo pai de Fincher na década de 90, e em fins daquela década esteve prestes a ser produzido, mas o estúdio não aprovou a abordagem estética de Fincher, cancelando o projeto. Recentemente, porém, o cineasta recebeu carta branca da Netflix para produzir o filme como quisesse. De fato, toda a estética de Mank é justamente seu maior trunfo. Infelizmente, porém, Fincher se apaixonou pelo roteiro de seu pai, ainda que sua base fosse uma teoria já completamente refutada. O próprio diretor, junto com Eric Roth, revisou o roteiro na tentativa de torna-lo mais condizente com essa realidade, mas o fato é que a base permanece, que é a reivindicação total da autoria do roteiro.

 

A concepção de Mank é fascinante. Rodado em preto e branco, o filme passou por diversos processamentos na pós-produção para que a imagem captada em digital 8K parecesse ter sido rodada em película do início de 1940. Pequenos riscos e até as tradicionais “marcas de cigarro” que marcavam as trocas de rolo no momento da projeção foram incluídos. Entretanto, muito mais que esses efeitos de pós-produção e a simulação de um estilo antigo, é a própria beleza do trabalho do fotógrafo Erik Messerschmidt que impressiona e dá ao filme o que talvez seja sua principal identidade. O curioso, porém, é a escolha da proporção 2,20:1 para a tela, em vez da 1,33:1 usada na época. Talvez para dar uma sensação de mais espaço e grandiosidade. Mas não deixa de ser estranho, uma vez que tanto trabalho foi despendido para simular uma estética específica.

 

 Da mesma forma, o som, que muitos insistem em afirmar que é mono, é de fato multicanal, principalmente na música. Porém, a maioria dos sons são realmente concentrados no centro da tela, com a ambientação surround tendo apenas um “eco” do filme, simulando a projeção numa grande sala de cinema. Esse eco, curiosamente, é verdadeiramente a gravação e isolamento da reverberação do filme sendo reproduzido numa grande sala, que foi devidamente gravada e remixada de volta no filme. Porém, a principal e mais fascinante característica do som é uma perfeita simulação do timbre e das limitações características da tecnologia da época, trabalho que levou muito mais tempo do que o esperado. O resultado é perfeito, obra do genial engenheiro de som Ren Klyce. 

 

A música de Trent Reznor e Atticus Ross (da banda Nine Inch Nails), é rigorosamente diferente do trabalho eletrônico composto por eles para todos os demais filmes de Fincher a partir de A Rede Social. Aqui, temos um trabalho 100% acústico com composições de jazz e o estilo clássico de scoring hollywoodiano, com suaves toques herrmanianos (Cidadão Kane foi, de fato, o primeiro filme do lendário compositor Bernard Herrmann). Microfones antigos e os mesmos filtros e equalizações criados para a mixagem do filme foram usados para dar a sonoridade de gravação antiga. 

 

Na proporção em que o roteiro trabalha a serviço desta estética retrô, ele funciona muito bem. Os diálogos são espertos, rápidos, recitados pelos atores com os exatos maneirismos das interpretações da Hollywood clássica. Se os atores não soam como pessoas reais falando, é justamente porque muito trabalho e tempo foram despendidos para que fosse exatamente assim. Desta forma, o Mank apresentado pelo ator Gary Oldman segue essa linha de língua ferina e repostas rápidas e precisas, moduladas entre vários graus de embriaguez. A montagem intercala o processo criativo de Mank, que dita o roteiro para sua assistente, preso à cama após um acidente de carro, com memórias da década anterior e seu trabalho entre gigantes da indústria como Louis B. Mayer e Irving Thalberg, e suas lembranças de William Randolph Hearst e a atriz Marion Davies, sua amiga e paixão platônica. Esses flashbacks servem para dar suporte à inspiração de Mank para o roteiro que, mesmo não citando nomes, era baseado na vida do magnata da comunicação Hearst. 

 

Não deixa de ser curioso, de um jeito meio bizarro, que o filme, numa exemplificação do poder de manipulação da mídia controlada por Hearst (em conluio com a MGM), denuncie a propagação de depoimentos falsos em campanhas e cinejornais com o intuito de minar a campanha do candidato democrata à prefeitura de Los Angeles, enquanto o próprio roteiro se baseia numa premissa falsa. O próprio personagem de Hearst foi muito menos explorado do que poderia, sendo ele a peça-chave do roteiro que estava sendo escrito por Mank.

 

Apesar do brilhantismo técnico e estético e dos excelentes diálogos valorizados pelo ótimo elenco, Mank carece de um brilho além dessas qualidades. Mesmo como uma grande homenagem a Cidadão Kane em particular e à Hollywood clássica em geral, a história contada em si não é particularmente memorável e os flashbacks, ainda que fragmentados, parecem mais interessantes do que o processo de criação de um dos grandes roteiros da história do cinema. Mesmo com problemas de prazo, bloqueios criativos, bebedeiras e enorme pressão, não existe um suspense ou uma maior ou relevante emoção ao vermos Mank lutando para escrever o roteiro. 

 

Ao final, o filme oferece uma interpretação que se assemelha com a realidade, quando Mank entrega um roteiro gigante, onde fica claro que precisará ser reescrito. Mas, logo após, nas últimas cenas, flerta novamente com a teoria de que Welles nada teve a ver com o processo. Não só isso, mas muitas das situações do filme são inventadas ou altamente fantasiadas, fazendo de Mank um filme desaconselhável para quem se interessa em saber de fato como tudo aconteceu. Vale como um espetáculo de amor ao cinema, mas um amor que se atém muito mais à forma. Pois o que falta ao filme é, na verdade, um coração.

 

COTAÇÃO:


INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Direção: David Fincher

Ator: Gary Oldman

Atriz coadjuvante: Amanda Seyfried

Música: Trent Reznor e Atticus Ross

Direção de arte: Donald Graham Burt e Jan Pascale

Fotografia: Erik Messerschmidt

Maquiagem e cabelos: Gigi Williams, Kimberley Spiteri e Colleen LaBaff

Figurino: Trish Summerville

Som: Ren Klyce, Jeremy Molod, David Parker, Nathan Nance e Drew Kunin

 

 

MANK (EUA – 2020)

Com: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Arliss Howard, Tuppence Middleton, Tom Burke e Charles Dance.

Direção: David Fincher

Roteiro: Jack Fincher

Fotografia: Erik Messerschmidt

Montagem: Kirk Baxter

Música: Trent Reznor e Atticus Ross

Design de produção: Donald Graham Burt

Os filmes do Oscar: MINARI – 6 indicações

Por Ricky Nobre

Histórias de imigrantes são uma tradição do cinema americano. Numa nação construída a partir do mito do “sonho americano” e da “terra das oportunidades”, a própria arte e indústria cinematográficas nasceram também sobre esse amálgama de diversas culturas e influências. E como a máquina de propaganda que sempre foi, Hollywood usou essa temática com frequência, mostrando sim as muitas dificuldades, mas com finais sempre felizes e triunfantes. Demorou muito para que começassem a aparecer histórias mais realistas e menos glamorosas sobre o tema. Minari, onde o cineasta Lee Isaac Chung se baseia vagamente em suas memórias de infância, chega com humor e delicadeza para fazer um caminho um pouco menos óbvio.

 

Uma família coreana, que já vivia numa grande cidade dos EUA a alguns anos, se muda para o interior em busca de melhores condições. Sem dar detalhes à esposa, Jacob adquire um pedaço de terra no meio do nada e uma casa que é, apesar do grande tamanho, essencialmente um trailer, para desespero da esposa que esperava algo melhor. O casal de filhos tem dificuldades em lidar com as constantes brigas dos pais por causa do lugar. A menina Anne, um pouco mais velha, é séria e tem um ar de responsabilidade. O garoto David, sapeca e ativo, tem um sopro no coração que pode ser fatal. Em pouco tempo, chega a vovó Soonja, mãe da esposa Monica, que traz um ar de vida totalmente novo para a família. Ainda que pareça de início leviano e irresponsável, Jacob surpreende ao conseguir tirar daquela terra o melhor que ela tem e, com a ajuda de um vizinho trabalhador e meio doidinho, ele supera diversas dificuldades, algumas delas geradas pela sua própria teimosia. 

 

O elenco é um dos trunfos do diretor, pois se sai muitíssimo bem em criar um agradável senso de intimidade com a família. Steven Yeun (o Glenn de The Walking Dead) e Yeri Han criam uma dinâmica delicada, onde a teimosia dele e a irritação dela colidem com frequência. Mas o tesouro do filme é Yuh-Jung Youn e Alan Kim, respectivamente a vovó Soonja e o pequeno David. Juntos eles são responsáveis pelos momentos mais engraçados, delicados e fofos do filme e dominam sem dificuldade alguma qualquer cena em que aparecem. 

 

O roteiro progride como uma sucessão de pequenos momentos. Não há desconexão, não é fragmentado, mas passa a sensação de uma coleção de memórias que se sobrepõe a qualquer fiapo de trama que o filme apresente, e nisso, a fotografia de tons suaves de Lachlan Milne e a delicadíssima música de Emile Mosseri criam a atmosfera ideal. 

 

A delicadeza e bom humor não excluem momentos mais sóbrios (a sutil crítica ao capitalismo no comentário sobre o descarte de pintos machos provoca certo desconforto), e até mesmo trágicos, conforme o filme avança. Como a fluidez inesperada da vida, uma notícia alegre e extraordinária é seguida, em questão de poucas horas, de uma terrível tragédia. E sem nenhum resquício de melodrama manipulativo, seja nas interpretações ou na música, o filme deixa claro o que é realmente importante nessa vida e que tudo pode ser refeito, um novo começo sempre é possível. Assim como as sementes de minari (uma espécie de “agrião coreano”) que a vovó Soonja traz da Coréia, só precisa do tempo e do solo corretos.

 

COTAÇÃO:


INDICAÇÕES AO OSCAR

Melhor filme

Direção: Lee Isaac Chung

Ator: Steven Yeun

Atriz coadjuvante: Yuh-Jung Youn

Roteiro original: Lee Isaac Chung

Música: Emile Mosseri

 

MINARI (EUA, 2020)

Com: Steven Yeun, Yeri Han, Yuh-Jung Youn, Alan Kim, Noel Cho e Will Patton

Direção e roteiro: Lee Isaac Chung

Fotografia: Lachlan Milne

Montagem: Harry Yoon

Música: Emile Mosseri

Design de produção: Yong Ok Lee