sexta-feira, 21 de julho de 2017

DE CANÇÃO EM CANÇÃO


Por Ricky Nobre


Terrence Malick ocupa um lugar de destaque, porém bastante peculiar em meio à safra de grandes cineastas americanos que despontaram na década de 1970, como Scorcese, Coppola, Spielberg e De Palma. Malick caracterizou-se como o típico “cineasta bissexto”, com espaços entre suas obras que variavam entre 5 a até 20 anos. Sempre lembrado pelo belíssimo Cinzas do Paraíso (1978), Malick permaneceu como um cineasta avesso às regras e obviedades comerciais, até mesmo em Além da Linha Vermelha (1998) , talvez seu filme mais acessível ao grande público. A partir de Árvore da Vida (2011), porém, Malick engatou quatro filmes em sequência, com mais um a ser lançado ainda este ano. Como se estivesse correndo em busca do tempo perdido, ele mantém seu estilo poético, por vezes contemplativo ou hermético, e consistentemente intimista. Nesse contexto, De Canção em Canção vem sendo recebido de forma bastante controversa: se, por um lado, recebeu louvores do New York Times e do Independent, cerca de quinze pessoas abandonaram o filme em sua primeira exibição para a imprensa. 

 

No  efervescente cenário musical de Austin, Texas, a jovem compositora e musicista Faye (Rooney Mara) se divide entre o doce e leve compositor BV (Ryan Gosling) e o produtor sexy e controlador Cook (Michael Fassbender). Cook, poderoso e já estabelecido na indústria, pode ser uma excelente possibilidade de ascensão profissional para ambos. Por mais que eles tentem levar a vida sem regras e amarras, a amizade, paixão e trabalho se misturam e desgastam. Sentindo-se cada vez mais distante de Faye e BV, Cook conhece a garçonete Rhonda (Natalie Portman), que é imediatamente atraída pelo mundo e personalidade rica e opressora de Cook.

 

De Canção em Canção foi filmado sem roteiro escrito. Munidos das descrições de cada cena dadas por Malick, o elenco se desdobrou num intenso exercício de improvisação. Como resultado, temos atores profundamente mergulhados em seus personagens, sendo essa imersão provavelmente a única conexão sólida que o filme terá com o público. Foram ao todo 40 intensos dias de filmagens, espalhados por um período de dois anos. Apesar de uma grande variedade de tipos de câmeras terem sido usadas, desde película 35mm até a badalada digital RED e até Go Pro, o filme parece ter sido quase que inteiramente rodado com lentes 18mm. Na busca de um contato sempre próximo e íntimo com os atores, não importando o quão limitados fossem os espaços (tudo também parece ser locação, nada em estúdio, inclusive as casas), o resultado muitas vezes são objetos e corpos distorcidos pelo uso da grande-angular a curtíssima distância. Este é apenas um exemplo de algo que se repete com enorme frequência em De Canção em Canção. Numa busca pela naturalidade plena, pela não interpretação, pelo realismo palpável e não posado, Malick consegue exatamente o oposto. 

 

Ao inserir seus atores em situações reais, como interações com populares em cenas no México e com astros do rock nos bastidores de festivais, ou mesmo em uma (a única!) cena em que se simula um show em que Faye participava, fica evidente que se trata de ficção inserindo-se na realidade, numa mistura mal sucedida de documentário com interpretação (a participação de Patti Smith é uma bela e honrosa exceção). Chega a doer o coração perceber que o maravilhoso trabalho do elenco acaba sendo embrulhado num pacote que o afasta do público, não pela não convencionalidade da narrativa, mas pela artificialidade que é gerada, ironicamente, da tentativa de evitá-la a todo custo.

 

A partir deste material, seguiram-se mais de três anos de pós-produção, com um primeiro corte que chegava a oito horas de duração. Mais do que diminuir sua duração, a luta no extenuante processo de edição parece ter sido o de dar sentido ao material filmado, papel no qual as narrações em off dos quatro principais personagens, gravadas muito depois das filmagens, podem ter sido de fundamental importância. A intenção de Malick parece mesmo ter sido a de capturar momentos, fragmentos de felicidade, prazer, dor, desejo, dúvida, frustração, desespero, amor. Porém, a extrema fragmentação da narrativa torna-se extenuante e incômoda de acompanhar, uma vez que os pedaços não se juntam direito, seja emocionalmente, seja no fiapo de história. 

 

A música, que deveria, junto com o quarteto principal, ser a estrela do filme, apresenta-se tão fragmentada quanto a própria narrativa e apenas muito raramente age como um “cimento” eficiente para ligar os pedaços num todo coerente. Quem esperar ver um filme sobre música ficará ainda mais decepcionado. Nas pouquíssimas cenas em que os personagens parecem estar fazendo música, tudo parece constrangedoramente amador, algo que é mais um elemento que traz artificialidade ao filme, não pelo excesso de trabalho, mas pela ausência. Na verdade, o público passa a maior parte do filme sem saber exatamente o que os personagens fazem, se cantam, tocam, compõem, escrevem... Parece não fazer a menor diferença para Malick qual a relação dos personagens com a música e, afinal, que música eles efetivamente fazem. 

 

Se o espectador se dá ao esforço de, diligentemente, procurar encontrar sentido nas migalhas de informação sobre os personagens e suas vidas, é a abundância de emoção investida pelos atores que o mantém nessa ingrata tarefa. A deslumbrante atriz que é Rooney Mara constrói uma personagem tão fascinada pela luz de BV quanto pela escuridão de Cook. A felicidade, o amor e a paz estão claramente em seus dias com o compositor cuca-fresca, no qual Ryan Gosling mostra o grande ator que pode ser. O Cook de Fassbender traz fragmentos de “rei do mundo” já vistos antes em seus trabalhos como Magneto e Steve Jobs. Se não existe roteiro que sustente sua personalidade manipuladora, seu egocentrismo e até crueldade, a mera presença, postura e sutilezas impressas por Fassbender dão conta do que não é dito. Natalie Portman, cuja personagem tem o destino mais trágico neste “quadrilátero amoroso”, tem também a mais ingrata das tarefas, pois constrói sua Rhonda quase que praticamente do nada. É absolutamente óbvio que é impossível não creditar Malick no sucesso do trabalho do elenco. Se eles chegaram a esse nível de resultado, foi sem dúvida com uma excelente direção de atores. O problema é... bem, todo o resto.

 

Com mais de 40 anos de carreira, Malick trilha por um caminho (muito semelhante do anterior Cavaleiro de Copas) que poderia ser muito revigorante, que é um estilo praticamente de cinema de guerrilha, ao filmar sem qualquer estrutura de estúdio, em meio à realidade da rua e dos festivais de música. É possível reconhecer o antigo Malick criador de deslumbrantes imagens. Em determinado ponto, é impossível não imaginar como ele esperou horas pelo momento exato em que o Sol brilharia com precisão, com uma luz específica, por debaixo de uma ponte. Mas De Canção em Canção é, no fundo, um filme feito com técnicas mais apropriadas para jovens cineastas de 20 anos sem um centavo no bolso. Se você é O Terrence Malick e quer usar as mesmas técnicas, espera-se que mostre um resultado muito melhor.

 

DE CANÇÃO EM CANÇÃO (Song To Song, 2017)

Com: Rooney Mara, Ryan Gosling, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer e Lykke Li

Direção e roteiro: Terrence Malick

Fotografia: Emmanuel Lubezki

Montagem: Rehman Nizar Ali, Hank Corwin, Keith Fraase

COTAÇÃO:


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