segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Uma nova trilogia para a nova rainha do terror.

Mia Goth, neta da atriz brasileira Maria Gladys, reina absoluta em X e Pearl.
 

X: cinema sujo

X chegou pela produtora A24 com carimbo prévio de cult, narrando o horror pelo qual passa uma pequena equipe que aluga uma casa para rodar um filme pornográfico em 1979. O diretor Ti West não abre mão de elementos do slasher clássico, ao mesmo tempo em que mantém o filme consciente de si (como as fortes referências a O Massacre da Serra Elétrica original), e encontra tempo de estabelecer algumas ótimas discussões.


West sustenta um paralelo entre a pornografia e o horror como gêneros "sujos", que podem ser limpos de sua imundície inata através de uma prática artística mais refinada (tirando aqui algum sarro do tal “horror elevado”, do qual a própria A24 tornou-se símbolo), e não escapa à percepção a forma como a figura do personagem do diretor é caricata nesse sentido, ainda mais quando sua hipocrisia é posta à prova, em outra discussão relevante, felizmente escrita de forma a não soar "postiça" dentro do filme.


West parece não conseguir (ou querer) fugir do clichê norte americano em ser muito mais explícito nas cenas de violência do que nas cenas de sexo e, sintomaticamente, o único nu frontal de todo filme é de um cadáver. É também bastante hábil a utilização de artifícios que convençam o público de que as mortes possam ser causadas por pessoas claramente frágeis fisicamente. A violência que começa brutal, vai se tornando mais rápida e sutil nas mortes seguintes, utilizando-se da técnica de Hitchcock em Psicose (1960), onde só a lembrança do primeiro assassinato é suficiente para deixar o público tenso.

A alma do filme, porém, é uma estranha ligação entre as personagens Maxine e Pearl. É a partir destas duas mulheres, a jovem e a velha, ambas interpretadas por Mia Goth, que o horror de X toma forma. Mais do que os corpos destruídos pela violência, o horror é causado pelos corpos naturais. Os corpos jovens trazem horror aos idosos, que veem neles a amargura de uma vida deixada para trás junto com sonhos de juventude e todo o tempo perdido. Os corpos idosos causam horror e repulsa aos jovens, um lembrete constante não apenas da morte, mas do medo de não conseguirem viver a vida plenamente.

O diretor West faz esse malabarismo de estabelecer essas discussões e simbolismos sem, em momento algum, interromper o fluxo de entretenimento de comédia sexy com toques de suspense da primeira metade e do horror slasher da segunda. X é ao mesmo tempo "elevado" e pedestre, autoconsciente, mas também direto e honesto. Terror divertido que dá papo pra conversa de bar.

 

 

Pearl: um melodrama de horror


Durante seus mais de 15 anos de carreira, quase todos dedicados ao terror, Ti West não havia conseguido nem uma fração do sucesso e da atenção que seu projeto iniciado em X está recebendo. E West deve muito de seu sucesso a Mia Goth. Ao viajar com equipe e elenco para filmar X na Nova Zelândia, ele teve que permanecer em quarenta por 15 dias, seguido as regras do país. Daí surgiu a ideia de escrever um prequel, contando a juventude de Pearl, que Mia Goth interpretaria em X sob pesada maquiagem. West e Goth escreveram o roteiro juntos em tempo recorde por facetime, e toda a produção transcorreu em segredo, paralelamente às filmagens de X. Sendo rodados simultaneamente, é surpreendente o quanto os filmes são diferentes, em ritmo, temática, forma, intensidade emocional e até na própria forma de lidar com o gênero.


Ambientado em 1918, último ano da 1ª Guerra Mundial e da última pandemia antes da Covid, a gripe espanhola, o filme nos mostra o despertar da psicopatia de Pearl, isolada em casa com um pai imobilizado por um derrame e uma mãe extremamente controladora e fanática religiosa. Seu sonho de ser bailarina de cinema a leva a devaneios, enquanto dá vazão às frustrações matando pequenos animais e espera o marido voltar da guerra, uma esperança que ela, aos poucos, abandona.


West foi extremamente feliz ao equilibrar a dramaticidade de seu conteúdo com a leveza de sua forma. Assim como X evocava a estética B de obras como O Massacre da Serra Elétrica (1974), ou mesmo a Z dos filmes pornográficos, West cria um pastiche dos anos 40 e 50 com a tipografia, a tela scope, uma paleta muito saturada e luminosa em referência ao Technicolor, e uma trilha orquestral massiva e onipresente. Essa estética, curiosamente, não se leva tão a sério, dando certa leveza e humor, até mesmo em cenas mais fortes. O enorme poder do filme vem do texto, dos personagens e de como a direção trabalha com os atores.


Podendo muito facilmente cair na caricatura pura e simplista, principalmente devido às escolhas estéticas, o filme pega o espectador desprevenido em cenas chave ao apresentar diálogos incrivelmente maduros em interpretações impressionantes. A grande discussão entre mãe e filha é mais impactante que qualquer morte do filme, com especial destaque para como a personagem da mãe se agiganta. Seus pontos de vista são humanos e sólidos, tirando a personagem da vilania materna barata e simplista, ao mesmo tempo em que solidifica a forma como ela de fato esmaga a filha da mesma forma que a vida a esmagou.


E isso é só o começo. Num crescente macabro de delírio e paranoia, Mia Goth brilha em diversos momentos, num trabalho absolutamente estelar, com cada grande momento superando o anterior: do desespero de "eu sou uma estrela", para um monólogo de 7 minutos que evoca Persona (1966) de Bergman, para a cena de créditos mais assustadora e genial já vista, onde, em silêncio, Pearl enlouquece por 2 minutos diante de nossos olhos. 


Não se vê muitas mortes no filme, e o gore é bem ocasional, praticamente tirando o filme da categoria de slasher, da qual X é genuíno representante. Pearl é um grande melodrama de época, quase uma sátira do gênero, mas tão emocionalmente intenso e genuíno que o torna uma obra única. Mia Goth, que também assina como produtora executiva, se afirma como a nova rainha do terror desta década, deixando os fãs mergulhados em expectativa e ansiedade por sua volta em MaXXXine, a terceira parte da trilogia.

 

COTAÇÃO X:


COTAÇÃO PEARL:


 

 

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

PANTERA NEGRA: WAKANDA PARA SEMPRE

Por Ricky Nobre

O novo filme do Universo Marvel chega com muitas responsabilidades em suas costas. É o 30º filme da franquia e também o que fecha a Fase 4, fase esta marcada pela mediocridade, com apenas um filme acima da média (o ótimo Homem Aranha) e outro muito abaixo (o inacreditável Thor 4). Mas seu grande desafio era sobreviver a todos os percalços. O roteiro já estava pronto quando ocorreu a trágica morte do protagonista Chadwick Boseman e, numa decisão ousada, a Marvel preferiu matar o personagem do que reescalar o ator, o que indicava que o manto do Pantera Negra seria passado a outro personagem. Mais adiamentos vieram com a pandemia e mais outro depois que a atriz Letitia Wright atrasou as filmagens ao se recusar a se vacinar, além de rumores de que espalhava ideias conspiracionistas e negacionistas no set, gerando conflitos com seus colegas, o que ela negou. O fato do filme ter sido concluído era uma vitória por si só, mas ele ainda precisava estar à altura da expectativa de ser a continuação do que muitos consideram um dos melhores filmes da Marvel.

 

Ryan Coogler realizou um filme bastante diferenciado dos recentes da Marvel em vários aspectos. Ele investe muito na emoção e no drama, e o humor, embora continuamente presente, é perfeitamente regulado com todo o tom do filme. Esse talvez seja o acerto primordial de Coogler: o tom. Há uma unidade narrativa, dramática e estética que torna o filme sólido e com uma identidade própria. Visualmente, é quase tão impressionante quanto o primeiro, com destaque para os figurinos que trazem uma beleza fora do comum, sendo um instrumento de forte cristalização cultural das duas grandes nações representadas na história. A música também tem um papel muito proeminente não apenas na narrativa, mas na construção da identidade étnica dos povos do filme. 

 

Muito bem cuidados também estão os personagens. Sendo a emoção e o drama os principais elementos, são nos personagens que o roteiro mais investe. Eles são sólidos, bem escritos, e muito bem defendidos pelo elenco. Letitia Wright mostra porque a Marvel teve tanta paciência com seu comportamento durante a produção, entregando uma Suri forte, decidida, mas também quebrada, amargurada e vingativa, e seu arco é bem construído. Angela Basset está majestosa como sempre, com sua emoção e realeza sempre à flor da pele. Danai Gurira tem seu melhor momento como Okoye até o agora e Dominique Thorn introduz bem a jovem Riri, a Coração de Ferro, mas que não tem tanto destaque como talvez muitos estavam esperando. Por outro lado, M'Baku tem participação bem limitada e com certeza poderia ter sido melhor aproveitado.

É um filme primordialmente feminino, e Coogler trabalha com isso tão organicamente, sem tentar chamar atenção para isso com momentos artificiais, que o público pode até demorar a perceber que existem apenas três personagens masculinos relevantes, sendo o mais importante o de Namor, o Príncipe Submarino em sua estreia no MCU. Seguindo suas origens nos quadrinhos, ele começa como o vilão, sendo o grande antagonista de Wakanda. Assim como o Killmonger do primeiro filme, sua “vilania” não é banal ou clichê, mas de um líder capaz de qualquer coisa para proteger sua nação secreta, inclusive aniquilar Wakanda ou qualquer outra nação da superfície. Sua origem foi repensada para o filme, baseando-se nas culturas Asteca e Maia, o que pode irritar os mais puristas, mas que está longe de ser um problema. O filme debate o colonialismo contemporâneo, onde nações poderosas ainda buscam pilhar outras à procura de valiosos recursos naturais, e o vibranium é o grande tesouro deste universo. Não é um debate que avance muito ao longo da história, mas é posto como um motor para diversas forças que se movem no filme.

 

O roteiro, infelizmente, peca em detalhes mais concretos da história. Existem várias facilitações para que a história avance, como um cativeiro excessivamente vulnerável, ou um abuso com a boa vontade do público em aceitar a “tecnologia mágica” de Wakanda, algo comum em ficção científica, mas que aqui permite o aparecimento de máquinas extraordinárias literalmente da noite pro dia, podendo gerar até confusões sobre o real tempo transcorrido entre uma cena e outra. O grande ápice dramático da conclusão é razoavelmente bem trabalhado, mas deixa a sensação de que algo falta, o que é parcialmente explicado em uma cena posterior, abrindo um caminho possível para os acontecimentos do próximo filme. Ao fim, consegue manter um ótimo ritmo, com boa fluidez, excelentes lutas, e seus 161 minutos nunca se arrastam. Os efeitos, muito bons no geral, pecam nas cenas de voo de Namor, que se move parecendo um videogame.

 

Wakanda Forever é uma obra que confia no seu poder emocional junto ao público. É tão bem resolvido nesse aspecto, que alguns problemas e fragilidades podem passar completamente despercebidos até uma análise posterior mais atenta. Até mesmo os créditos principais que rolam ao final seguem um padrão totalmente diferente de todos os demais filmes da Marvel, buscando uma sensibilidade única, o que é seguido também pela impactante cena pós créditos. Ainda que não atinja a excelência do primeiro, é facilmente o melhor filme da Fase 4 e com real potencial de dar fôlego a um projeto que começa a demonstrar sinais de desgaste. É um filme fiel aos seus temas, seus personagens e aos sentimentos destes, e que respeita as emoções do público. O legado do Pantera Negra segue invicto.

 

 COTAÇÃO:

 

PANTERA NEGRA: WAKANDA PARA SEMPRE (Black Panther: Wakanda Forever, 2022 – EUA)

Com: Letitia Wright, Angela Bassett, Tenoch Huerta, Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Winston Duke, Martin Freeman, Michaela Coel, Dominique Thorne e Julia Louis-Dreyfus.

Direção: Ryan Coogler

Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole

Fotografia: Autumn Durald Arkapaw

Montagem: Kelley Dixon, Jennifer Lame e Michael P. Shawver

Música: Ludwig Göransson         

Design de produção: Hannah Beachler

Figurinos: Ruth E. Carter


quinta-feira, 26 de maio de 2022

Obrigada, Ray Liotta!

Ray Liotta sempre me foi muito simpático, mesmo fazendo papel de vilão, o que era bem comum. Ele tinha esse ar de bonitão maluco que vai te matar. Achamos que éramos só nós que tínhamos essa impressão, mas quando ele participou do Saturday Night Live, foi exatamente essa a piada que ele encenou!
Eu me inspirei nele para o visual do mago Noicent, personagem de Crônicas de Leemyar, o que enriqueceu muito o personagem.



Hoje, Ray Liotta não está mais conosco. Morreu dormindo, cheio de projetos, no meio da gravação de um filme. Ele nunca soube que ajudou uma escritora brasileira a criar um personagem tão legal. Ele nunca soube o quanto nos divertiu e emocionou com suas interpretações. Talvez agora ele possa saber.
Desejamos que ele retorne ao lar e continue sua jornada espiritual, com talento e bom humor, como era sua marca.
Obrigada, Ray!



terça-feira, 17 de maio de 2022

A MÉDIUM: Fé, Possessão e Rituais Interessantes em um Roteiro Nem Tanto

Eddie Van Feu





Com estreia no Brasil em 19 de maio pela Paris Filmes, o filme dirigido por Banjong Pisanthanakun, o mesmo de Espíritos - A Morte está ao Seu Lado (2004), A Medium conta a história de Nim, uma médium respeitada em sua comunidade que recebeu uma entidade como herança. Quando sua sobrinha manifesta sintomas estranhos, acredita-se que ela possa ser a próxima médium que receberá a divindade. SQN. A moça é possuída por uma legião de espíritos perturbados e perturbadores, demônios que buscam vingança.

Eu estava muito empolgada com esse filme porque Espíritos – A Morte está ao Seu Lado, está na minha lista de melhores filmes de terror. Tive a sorte de ver no cinema e a audiência estava animada, apesar de ser a última sessão. Em dado momento, quando o encosto estava atazanando os personagens, alguém na plateia falou:

– Se fosse aqui no Brasil era só procurar um pai de santo que resolvia isso rapidinho!

A galera riu e concordou (hoje em dia, eu não sei se a reação seria tão de boas, porque as pessoas estão mais malucas). E, na minha experiência, o cara que falou isso tinha toda a razão. Faltava aos personagens de Espíritos conhecimento do mundo espiritual para saber o que fazer, coisa que acontece muito em filmes de terror. 

Em A Médium, o que não faltam são especialistas em reconhecer um problema espiritual quando veem um. Nós acompanhamos Nim e sua visão simples da vida. Vemos os rituais, que muito se assemelham aos nossos rituais afrobrasileiros. Sua irmã, que recusou a herança mediúnica, se converteu ao cristianismo e vende carne de cachorro em um açougue ilegal, o que por mim já rende um karma básico.

Quando a sobrinha de Nim começa a se comportar estranhamente, esperamos que Nim e conhecidos médiuns seus saibam o que fazer. Estamos meio certos e meio errados.

O filme tem problemas. No estilo found footage, ele simula um documentário sobre a Nim e sua mediunidade. Particularmente, eu não curto esse estilo, em que a história é contada através do ponto de vista de uma ou mais câmeras nas mãos de pessoas que pretendem ser amadoras. Apesar de não ser meu estilo, ele conseguiu prender meu interesse, talvez pela simpatia da personagem Nim, talvez pelos rituais e visual interessante.

Os problemas começam mesmo quando os personagens demoram demais para perceber o que está acontecendo. Nim parecia ser mais esperta, mas demora até tomar uma atitude. A mãe da moça possuída, a que tem o açougue ilegal, é realmente meio limitada e seus erros até se justificam por essa limitação. Nim encontra ajuda em um outro médium, que parece bem seguro do que faz. E ele também comete erros crassos.



Basicamente, o filme é a sinopse. E ele poderia ser muito mais rico do que isso, com uma cultura exótica cheia de possibilidades de surpreender o espectador. Mas o roteiro joga algumas informações importantes de forma muito vaga, e ninguém parece dar muita atenção. Nim tira do chapéu que o espírito que está possuindo a sobrinha é de um suicida da família. A informação não se baseia em nada, além do achômetro dela e quando ela percebe que está errada, parece uma grande surpresa, mas qualquer um que esteja vendo o mesmo que ela (que tem acesso às filmagens das câmeras do documentário), saberia disso.

A preparação do ritual final é muito bacana e mostra que magia não é mágica e que é preciso muito trabalho, muita atenção e muito conhecimento para se fazer determinados rituais de grande porte, como um exorcismo. O problema é que quando se faz um ritual desse tamanho, você presta atenção em coisas básicas como, por exemplo, não deixar bebês e pessoas despreparadas tomando conta da pessoa possuída. Não é preciso ser um exorcista do Vaticano para saber isso. Ou, não deixar a pessoa possuída com acesso livre à casa na semana em que ela será exorcizada, especialmente se ela já demonstrou comportamento perigoso para si mesma ou para os outros. Outros erros básicos vão sendo cometidos, o que nos leva a crer que os personagens estão à serviço do roteiro. Eles não são burros, mas o roteiro precisa que eles façam burrices, para chegar aonde o roteirista quer que chegue. 

O local do ritual parece ter uma importância na trama, mas ela jamais é explicada. O que é aquele prédio? Por que está abandonado? Por que é importante? Por que ele está no meio do mato? Por que tem que ser ali? As poucas explicações foram dadas de forma muito simplista, praticamente jogadas, e são insuficientes para que possamos entender direito o que está acontecendo.

O mais legal de um filme de terror é compreender o que está acontecendo e POR QUÊ! E isso não é entregue de forma satisfatória. O que é estranho, já que isso foi perfeitamente entregue em Espíritos, cujo roteiro tem vários pontos de virada. A Médium não muda seu rumo em momento algum, carece de movimento. 

Outra coisa que não faz sentido é a presença onipotente das entidades que possuem a moça e a total apatia das entidades do bem. Numa situação comum, com pessoas comuns, já é frustrante ver pessoas sem saber o que fazer e sem ferramentas para lidar com o problema que o roteiro lhes dá. Até entendemos quando elas morrem, porque afinal não sabiam fazer uma oração de exorcismo, um ritual de banimento e nem conheciam ninguém que soubesse fazer isso. Eram pobres idiotas em uma situação terrível. Agora, numa comunidade que praticamente vive aquilo, é imperdoável não ver entidades dispostas a deter aquela praga, já que havia rituais e médiuns à rodo por ali.

Conforme a possessão evolui, o filme descamba para o exagero temperado com gore, o que pode agradar uma fatia da audiência. No mais, vale pelos rituais e por apresentar uma cultura nova. Um bom roteirista teria feito um ótimo trabalho com esse material. Mas ele deve ter sido possuído por um fã de A Bruxa de Blair.





segunda-feira, 25 de abril de 2022

Novo Filme de Terror do Diretor de Espíritos

Eu tive a sorte de assistir Espíritos no cinema e ver todo mundo sair morrendo de medo, meia-noite, por corredores intermináveis pelos fundos de um shopping fechado em um estacionamento vazio! Esíritos está na minha lista de favoritos de terror e já estou empolgada com a chegada dessa nova obra do mesmo diretor. 

A Médium (The Medium) chega aos cinemas em 19 de maio com enredo assustador que tem suas primeiras cenas reveladas no trailer recém-divulgado pela Paris Filmes. O cartaz, igualmente misterioso, acabou de ser divulgado nas redes oficiais da distribuidora.

No trailer publicado na última semana nas redes oficiais da Paris Filmes, o público conhece a história de Nim, uma importante médium de uma pequena comunidade que vê sua sobrinha ser possuída por uma entidade que acreditam ser um Deus, mas ao decorrer do longa mostra-se uma falange de demônios.

O trailer também mostra rituais e tradições, o que é sempre enriquecedor para quem gosta de magia como eu.

Trailer dublado https://youtu.be/MOv0aKFI8Kc e legendado https://youtu.be/ZrZBAJ9XCtI

O longa chega com exclusividade aos cinemas no próximo mês e tem direção de Banjong Pisanthanakun, o mesmo de Espíritos - A Morte está ao Seu Lado (2004).




domingo, 27 de março de 2022

Os filmes do Oscar: O ATAQUE DOS CÃES – 12 indicações

Por Ricky Nobre

Jane Campion já fez história no Oscar de 1993 ao ganhar três prêmios por O Piano (melhor filme, direção e roteiro original). Dona de uma filmografia bissexta, porém muito sólida, ela volta com essa aclamada desconstrução do gênero western, que abocanhou nada menos que 12 indicações ao prêmio. Ataque dos Cães tem uma aparência muito modesta, principalmente se levarmos em conta o burburinho que gerou logo após sua estreia na Netflix e a expectativa ao ostentar tantas indicações da Academia. A duração é padrão, são poucos personagens, poucos cenários e a história toda pode ser resumida em poucos minutos. Mas isso é só a aparência. 

 

Em 1925, dois irmãos cuidam de um rancho, de onde tiram uma vida bastante confortável. George é comedido, educado, amável e mais urbano, enquanto Phil gosta do trabalho duro do rancho, mas é grosseiro, fanfarrão e até meio cruel. Quando George se casa com Rose, uma viúva dona de uma taberna, nasce um turbilhão de sentimentos em Phil, como ciúmes pelo irmão, ódio pela mulher e desprezo por Peter, filho adolescente dela. Enquanto Rose torna-se fisicamente doente e entrega-se ao álcool, se inicia uma estranha relação entre Phil e Peter.

 

O western é “desconstruído” há muito tempo. Um grande marco é Os Imperdoáveis (1992) de Eastwood, mas podemos também voltar mais talvez em Meu ódio será tua herança (1969), ou na própria reinvenção do gênero feita da Itália. O gênero que reinou do nascimento do cinema até fins dos anos 60 sempre passou por ajustes e reinvenções. Ao tornar-se (muito) mais raro a partir de fins dos 70, cada western produzido parecia ter o fardo de definir o gênero na época em que foi lançado. Ao ser ambientado na década de 1920, O Ataque dos Cães já se posiciona como um western que já é posterior ao período normalmente retratado no gênero, ou seja, ele já chega sugerindo que os temas e arquétipos já não são os mesmos. 

 

Os irmãos George e Phil se contrapõem como “civilização vs barbárie”. George parece deslocado naquele contexto de “velho oeste”, mas é Phil, defensor ávido do clichê de cowboy durão, é que é o deslocado no tempo. Sua obsessão pelo velho mentor Bronco Henry sugere o quanto ele se agarra a um mundo, uma lógica que vai se desfazendo à sua volta. Seu próprio irmão e o filho da cunhada são lembretes constantes disso e sua reação é sempre de violência e abuso, seja físico ou moral. Por trás dos modos de cowboy machão clássico, seus atos não são de herói, mas de vilão. A forma como ele persegue e atormenta Rose quase nunca vem de confronto direto, mas de abuso psicológico sutil e constante.

 

Mas a complexidade de Phil vai além, pois até mesmo sua persona de cowboy à moda antiga é uma armadura, uma fachada. Por isso, ao ver em Peter alguém tão jovem que não parece se abalar com o bullying e não se envergonha ou se desculpa pela forma como se apresenta, Phil começa a querer se aproximar de quem, inicialmente, desprezava, e tentar ser o novo Bronco Henry daquele possível jovem cowboy. 

 

Campion mantém um ritmo lento e constante, por vezes, enigmático. O filme parece uma costura de fragmentos, alguns com maior o menor significado isoladamente. Quase nada no apresenta de forma objetiva, totalmente compreensível por si só. Os pedaços vão se juntando e ganhando sentido lentamente. A forma como o elenco defende seus personagens é essencial para que o público se engaje em unir os pontos e a forma como a fotografia captura as paisagens infindáveis e como os personagens se inserem nelas guardam alguns ecos de Terrence Malick e seus épicos contidos (quando Malick era Malick...). A música de Jonny Greenwood tem mais a ver com o cinema de terror do que dos westerns clássicos, mais interessada em ilustrar a escuridão vivida pelos personagens do que a beleza das paisagens.

 

Existe um clima constante de suspense, a maior parte do tempo sutil, mas ele está ali, empilhando camadas de tensão, quanto mais sabemos sobre Phil e mais nos simpatizamos com o desespero de Rose e o ar de inocência de Peter. Tentando evitar spoiler, não se pode deixar de comentar como, num filme que se desvenda tão lentamente, a virada de mesa nos instantes finais obriga o público a repensar tudo que viu e religar todos os pontos novamente. Ataque dos Cães é um filme totalmente emanado de seus personagens e por eles se apresenta, se move e se resolve e, onde nada é dito claramente, depende da conexão completa do público com eles para fazer sentido, não só dos fatos mas, principalmente, das emoções. 

COTAÇÃO:


 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Direção: Jane Campion

Roteiro adaptado: Jane Campion

Ator: Benedict Cumberbatch

Ator coadjuvante: Jesse Plemons

Ator coadjuvante: Kodi Smit-McPhee

Atriz coadjuvante: Kirsten Dunst

Fotografia: Ari Wegner

Montagem: Peter Sciberras

Música: Jonny Greenwood

Som: Richard Flynn, Robert Mackenzie e Tara Webb

Direção de arte: Grant Major e Amber Richards