domingo, 19 de fevereiro de 2017

Os filmes do Oscar: LION: UMA JORNADA PARA CASA (6 indicações)


por Ricky Nobre 



Além dos filmes com temática afro americana, os “baseados em fatos reais” também estão marcando forte presença nesse Oscar. Com apenas cinco anos de idade, o pequeno Saroo (Sunny Pawar, desde já, uma das crianças mais adoráveis da história do cinema) ajuda a mãe e o irmão que vivem em extrema pobreza numa pequena vila no interior da Índia. Ao acompanhar o irmão que ia procurar trabalho, ele acaba adormecendo em um vagão de trem vazio, de onde não consegue sair, e acaba a 1.600 quilômetros de distância de casa. Após enfrentar diversos perigos a que estão expostas as crianças de rua indianas, ele acaba num orfanato, onde é adotado por um casal australiano (Nicole Kidman e David Wenham). Vinte anos se passam e Saroo, já adulto (Dev Patel, indicado como ator coadjuvante... OI???), enfrenta as inquietações quanto à sua origem (da qual se lembra pouco) e parte numa busca por sua família e o lugar onde viveu, onde sua principal ferramenta é o recém lançado Google Earth.


 

A teimosia dos produtores acabou por garantir que o filme fosse realizado da forma correta. Eles tentaram financiamento americano, mas todos os estúdios exigiam que a ação na segunda parte do filme se passasse nos EUA e não na Austrália, condição que eles se recusaram a aceitar. Insistindo em ambientação e equipe australianas, o filme, com um orçamento mais modesto, tem uma estética mais realista e menos “envernizada”. O olhar que o filme tem sobre a Índia e sobre a miséria de parte de seu povo é destituído de sensacionalismos ou de uma fotografia feita para embelezar ou glamurizar a pobreza, o que é uma agradabilíssima surpresa vindo de um diretor que fez carreira em publicidade, aqui em seu primeiro longa-metragem.

 

Ainda que a busca de Saroo por suas origens seja envolvente e as atuações de Patel e Kidman sejam ótimas, o filme brilha mesmo é em sua primeira metade. Mesmo muito esperto pra sua idade, Saroo é jovem demais para enfrentar os perigos de uma grande metrópole, sendo que jamais saiu das proximidades de seu vilarejo, com o agravante que fala apenas hindi, e não a língua mais comum na cidade, o bengali. A naturalidade do jovem ator Sunny Pawar é impressionante e é essencial para sensação agridoce de sua adoção, onde ele sabe que finalmente terá um lar, mas ainda com sua família original na cabeça e no coração. 

 

Com uma história simples que tem um apelo emocional considerável, o diretor Garth Davis evita a pieguice melosa que poderia ser a ruína do filme. Mesmo assim, não é recomendável assistir o Lion sem uma caixa de lenços do lado. Da grande. 

 

INDICAÇÕES AO OSCAR
Filme
Atriz coadjuvante: Nicole Kidman
Ator coadjuvante: Dev Patel
Roteiro adaptado: Luke Davies baseado no livro A Long Way Home de Saroo Brierley e Larry Buttrose
Música original: Dustin O'Halloran and Hauschka
Fotografia: Greig Fraser
 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Os filmes do Oscar: CAPITÃO FANTÁSTICO (1 indicação)


Por Ricky Nobre


E mais uma vez um dos melhores filmes do ano recebe uma indicação solitária de consolação. Viggo Mortensen concorre a melhor ator interpretando o fantástico pai de três filhos e três filhas que cria e educa os rebentos de um jeito, digamos assim... um tanto... peculiar. Vivendo no meio do mato, Ben ensina os filhos de 5 a 17 anos (com nomes de fazer inveja à prole de Baby e Pepeu) a viver em comunhão com a natureza, caçar, técnicas de sobrevivência, pesado treinamento físico, literatura, política, sociologia, filosofia, física quântica... É uma espécie de comunidade hippie anabolizada. Sofrendo de transtorno bipolar, a mãe das crianças permanece hospitalizada por alguns meses. No caminho para visita-la, Ben descobre que ela cometeu suicídio. Ao saber que seu desejo final de ser cremada seria despeitado pelos pais, a família parte para uma missão de resgate do corpo da mãe.

 

A direção e o roteiro de Matt Ross (vencedor de melhor diretor na mostra Un Certain Regard em Cannes) lançam um olhar extremamente simpático a Ben, ainda que seus métodos pedagógicos sejam, muitas vezes, questionáveis ou simplesmente absurdos. Essa simpatia é vital para manter na mente do espectador o fato de que aquelas crianças realmente idolatram os pais, ainda que alguns conflitos aconteçam. Pode parecer terrivelmente chocante para parte do público a alegria da garotada em receber armas brancas de presente no Dia de Noam Chomsky (que eles celebram em vez do Natal); ou a forma chocantemente direta que ele responde perguntas sobre sexo ou morte, mesmo para as crianças mais novinhas, sob a justificativa de que ele não mente para os filhos; ou ainda, a brutalidade do treinamento físico, que poderia ser considerada abuso infantil em qualquer sociedade civilizada.

 

Ao mesmo tempo em que ele incentiva constantemente o pensamento crítico (a cena em que Kielyr analisa Lolita é perfeita), Ben por várias vezes impõe sua autoridade de forma severa, anulando os questionamentos que ensinou os filhos a ter. Ben quer que suas escolhas na criação dos filhos sejam respeitadas, mas não se furta até mesmo a humilhar uma família que tem padrões e hábitos típicos do americano médio, ainda que, ao fazê-lo, exponha de forma muito clara a absoluta tragédia que é o sistema educacional americano. 

 

Muitas das críticas ao filme vêm com o argumento de que ele acaba, com seu humor e imensa simpatia, por celebrar uma forma de educação brutal e abusiva. Mas o diretor Matt Ross conta com a capacidade do público em ler sutilezas. Se Ben criou uma filha de 8 anos capaz não só de recitar, mas de discutir com inteligência a Carta de Direitos americana, criou também um filho de 17 anos completamente destituído de habilidades sociais, capaz de passar para as sete melhores universidades do país, mas sem ter a permissão do pai de cursar alguma. O público percebe isso e, quando várias coisas começam a dar errado, fica claro que algo naquela família precisa ser repensado, ao ponto do sogro, retratado todo o tempo como o vilão, acabar soando como a voz da razão. 

 

Ben precisa enfrentar a realidade de que não criou seus filhos para o mundo real. Mas para que espécie de mundo a educação “normal” forma as pessoas? Uma coisa que fica inquestionavelmente clara é o quanto o amor está presente naquela família, e o quanto o amor guiará as decisões que Ben precisa tomar. Pais e mães, mesmo falhando, e muito, tentam fazer o melhor que podem, o que sabem fazer. E só dá pra aprender errando. 

 

INDICAÇÃO AO OSCAR
Ator: Viggo Mortensen

 
 Em praticamente todos os tapetes vermelhos, o elenco do filme "deu o dedo" pra todo mundo!

Chá das Cinco #30 - Dica de leitura: "A Dieta do Son of a Bitch"

Dica de livros hoje com Eddie Van Feu falando sobre um livro de humor com uma dieta revolucionária que vai fazer você emagrecer, nem que seja na porrada!

Tudo o que você jamais esperou de um livro de dietas:
• Frases injuriosas e degradantes
• Linhas d'água com motivos ultrajantes
• Ofensas em todas as páginas

CONFIRA AÍ!
E COMPRE AQUI: operabufa.uol.com.br

 

O NOME DA ROSA JEDI


por Renato Rodrigues
Quando anunciaram que o subtítulo do próximo Star Wars seria The Last Jedi todos se perguntaram se a tradução iria entregar a rapadura: O ÚltimO Jedi (se referindo ao Luke) ou A ÚltimA Jedi (O que quer dizer que o Luke morreria).

A Lucasfilm divulgou uma tradução experta do título no Twitter que acabou com as dúvidas sem dar spoilers de nada: Star Wars: Os Últimos Jedi é o nome do filme no Brasil.

Ahá, SACANEOU TODO MUNDO!!!!!



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Os filmes do Oscar: A CHEGADA (8 indicações)


Por Ricky Nobre


O contato com seres de outros planetas é um dos temas mais caros à literatura e ao cinema de ficção científica. Em seu terceiro filme americano, o canadense Denis Villeneuve traz de volta o medo da invasão alienígena, enfatizando o que há de mais relevante e precioso na ficção científica: a discussão de temas humanos. 

 

Louise (Amy Adams, duplamente garfada nas indicações este ano), uma expert em linguística, é recrutada pelas forças armadas dos EUA quando 12 OVNIs aterrissam no planeta, em diferentes países. Seu trabalho junto com o cientista Ian (Jeremy Renner) é o de tentar estabelecer contato com os alienígenas que, a princípio, não parecem oferecer perigo. Além da tensão e das incertezas da missão, Louise irá lidar com as fantásticas descobertas sobre a linguagem dos alienígenas, a pressão crescente conforme os ânimos vão se acirrando entre chineses e russos em relação aos aliens, com as constantes memórias de sua filha morta por um câncer e a estreita relação dessas memórias com suas descobertas.

 

A Chegada é o tipo de filme em que é impossível discutir adequadamente sem revelar seus principais segredos. O fato é que ele trata de um ramo da ficção científica que é muito popular, extremamente fascinante mas também altamente polêmico, dadas as suas ramificações e teorias controversas. A plausibilidade de sua resolução pode ser tema de horas de discussão, e irá exigir mente bem aberta. Felizmente, o roteiro, junto com a inteligência e sensibilidade de Villeneuve, oferece elementos suficientes para que, de forma muito particular, tudo faça sentido (ou pelo menos gere excelentes discussões). 

 

Mesmo com todo o mistério que envolve a trama, a emoção é um ponto chave do filme. Não apenas a emoção de Louise diante de tudo que testemunha e de toda a apreensão e temor que a situação traz, mas também, e principalmente, as que vai experimentando pouco a pouco, invadindo-a lentamente e que tem a ver com importantes decisões em sua vida que ela tomou, toma e tomará posteriormente, em especial, uma que lhe trará enorme felicidade, mas também profunda tristeza. 

 

Com a emoção tendo tal protagonismo, chega a ser triste a opção pela abordagem da trilha musical de Jóhann Jóhannsson, onde a música assume basicamente o papel de efeitos sonoros, na mesma linha seguida em Sicario, outra colaboração entre Jóhannssone e Villenouve. São longas e frias texturas sonoras que basicamente ambientam e, de fato, dão um tom entre o tenso e o misterioso. Mas é tão destituída de emoção que essa função musical ficou a cargo de uma música pré existente (On the Nature of Daylight de Max Richter). Decepcionante, apesar de não ser nada nova essa tendência da música no cinema ter se tornado puro sound design

 

A Chegada está na ilustre e honradíssima companhia de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Spielberg, O Dia em que A Terra Parou, de Wise e Contato de Zemeckis e é, desde já, um clássico do gênero. E é num filme de invasão alienígena que vemos uma história sobre abraçar e aceitar a vida com tudo de belo e terrível que ela traz. 

 

INDICAÇÕES AO OSCAR
Filme
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro adaptado: Eric Heisserer baseado em "Story of Your Life" de Ted Chiang
Fotografia: Bradford Young
Montagem: Joe Walker
Edição de som: Sylvain Bellemare
Mixagem de som: Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye
Design de produção: Patrice Vermette e Paul Hotte

Chá das Cinco #29 - Dubladores que eternizaram seus personagens (parte 2)

Segunda parte de nosso vlog homenageando alguns dubladores que eternizaram algum ator ou personagem. São tantos que é difícil escolher, vamos fazer outros vídeo com esse tema no futuro!
Conosco hoje estão Renato, JM, Patrícia Balan e Kal J. Moon do www.poltronapop.com.br

 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Chá das Cinco #28 - Dubladores que eternizaram seus personagens (parte 1)

Ontem todos se emocionaram com o vídeo do Isaac Bardavid se despedindo do Wolverine.
Então Eddie Van Feu, Antero Leivas, Patrícia Balan e Renato Rodrigues se juntaram para homenagear alguns dubladores queridos que deram vida em português para personagens que ficarão eternizados com suas vozes!

Foi difícil escolher, a vontade é ficar horas falando de TODOS!
Por isso, AMANHÃ tem a segunda parte deste vídeo!

 

Os filmes do Oscar: MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR (8 indicações)


Por Ricky Nobre



Estrelas Além do Tempo, Loving e Um Limite Entre Nós são filmes com temática negra que vieram do lado mais endinheirado de Hollywood. Moonlight, porém, é uma produção independente realizada com cerca de 5 milhões de dólares e que rendeu 20 milhões só nos EUA. É também um dos filmes com maior quantidade de indicações ao Oscar este ano, tendo também levado o Globo de Ouro de melhor filme (drama). Talvez seja o único com chances de enfrentar o alegre e adorado La La Land, mas é uma tarefa árdua para um dos filmes com menos “cara de Oscar” indicado nos últimos anos. 

 

Não é fácil realizar uma análise satisfatória de Moonlight sem entrar no polêmico terreno do spoiler, principalmente porque o próprio ato de discutir uma de suas principais qualidades, que é sua estrutura, pode acabar prejudicando muito a própria experiência do filme. Moonlight segue a trajetória de Chiron, morador de um bairro negro de Miami em três atos distintos: infância (Alex R. Hibbert), adolescência (Ashton Sanders) e fase adulta (Trevante Rhodes). Vítima frequente de bullying, o pequeno Chiron (apelidado de “Little”) vive largado no mundo fugindo dos garotos que o perseguem e evitando voltar para casa, onde mora com a mãe viciada em crack (Naomie Harris). Nos longos períodos em que fica fora de casa, Little conhece o traficante Juan (Mahershala Ali) e sua namorada Teresa (Janelle Monáe), que lhe servirão de porto seguro e referência para o futuro. 

 

O que mais surpreende em Moonlight é a simplicidade quase casual com que temas espinhosos são tratados, como homossexualidade na comunidade negra e a relação da juventude negra com tráfico e uso de drogas, violência e encarceramento. Sem qualquer fiapo de discurso panfletário, o filme mostra a relação entre o abandono da juventude e suas consequências nas vidas dessas pessoas. Com uma mãe incapaz de criar devidamente o filho graças ao vício e uma escola que não deu importância ao bullying até atingir trágicas consequências, foi justamente nas improváveis companhias de Juan e Teresa que Chiron encontra algum carinho e abrigo. Todos esses elementos, mais a relação com o amigo Kevin nessas três fases, serão fundamentais para compreender o homem que ele se tornará. 

 

A ausência total de sensacionalismo diante dos temas tratados é certamente originada na familiaridade de seus criadores com o universo apresentado. Tanto o diretor e roteirista Barry Jenkins quanto o autor da peça original Tarell Alvin McCraney moravam na mesma região de Miami mostrada no filme e tiveram mães viciadas em crack. Moonlight é um filme essencialmente negro, masculino e da periferia. É também complexo e simples, cruel e delicado. E, apesar de ser possível extrair dele uma “mensagem universal” que extrapole os limites da comunidade negra, não é um filme pra todo mundo, especialmente por ser completamente despido de moralismos.

 

INDICAÇÕES AO OSCAR
Filme
Diretor: Barry Jenkins
Ator coadjuvante: Mahershala Ali
Atriz coadjuvante: Naomie Harris
Roteiro adaptado: Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney baseado na peça Moonlight Black Boys Look Blue de Tarell Alvin McCraney
Música original: Nicholas Britell
Fotografia: James Laxton
Montagem: Nat Sanders e Joi McMillon