terça-feira, 17 de maio de 2022

A MÉDIUM: Fé, Possessão e Rituais Interessantes em um Roteiro Nem Tanto

Eddie Van Feu





Com estreia no Brasil em 19 de maio pela Paris Filmes, o filme dirigido por Banjong Pisanthanakun, o mesmo de Espíritos - A Morte está ao Seu Lado (2004), A Medium conta a história de Nim, uma médium respeitada em sua comunidade que recebeu uma entidade como herança. Quando sua sobrinha manifesta sintomas estranhos, acredita-se que ela possa ser a próxima médium que receberá a divindade. SQN. A moça é possuída por uma legião de espíritos perturbados e perturbadores, demônios que buscam vingança.

Eu estava muito empolgada com esse filme porque Espíritos – A Morte está ao Seu Lado, está na minha lista de melhores filmes de terror. Tive a sorte de ver no cinema e a audiência estava animada, apesar de ser a última sessão. Em dado momento, quando o encosto estava atazanando os personagens, alguém na plateia falou:

– Se fosse aqui no Brasil era só procurar um pai de santo que resolvia isso rapidinho!

A galera riu e concordou (hoje em dia, eu não sei se a reação seria tão de boas, porque as pessoas estão mais malucas). E, na minha experiência, o cara que falou isso tinha toda a razão. Faltava aos personagens de Espíritos conhecimento do mundo espiritual para saber o que fazer, coisa que acontece muito em filmes de terror. 

Em A Médium, o que não faltam são especialistas em reconhecer um problema espiritual quando veem um. Nós acompanhamos Nim e sua visão simples da vida. Vemos os rituais, que muito se assemelham aos nossos rituais afrobrasileiros. Sua irmã, que recusou a herança mediúnica, se converteu ao cristianismo e vende carne de cachorro em um açougue ilegal, o que por mim já rende um karma básico.

Quando a sobrinha de Nim começa a se comportar estranhamente, esperamos que Nim e conhecidos médiuns seus saibam o que fazer. Estamos meio certos e meio errados.

O filme tem problemas. No estilo found footage, ele simula um documentário sobre a Nim e sua mediunidade. Particularmente, eu não curto esse estilo, em que a história é contada através do ponto de vista de uma ou mais câmeras nas mãos de pessoas que pretendem ser amadoras. Apesar de não ser meu estilo, ele conseguiu prender meu interesse, talvez pela simpatia da personagem Nim, talvez pelos rituais e visual interessante.

Os problemas começam mesmo quando os personagens demoram demais para perceber o que está acontecendo. Nim parecia ser mais esperta, mas demora até tomar uma atitude. A mãe da moça possuída, a que tem o açougue ilegal, é realmente meio limitada e seus erros até se justificam por essa limitação. Nim encontra ajuda em um outro médium, que parece bem seguro do que faz. E ele também comete erros crassos.



Basicamente, o filme é a sinopse. E ele poderia ser muito mais rico do que isso, com uma cultura exótica cheia de possibilidades de surpreender o espectador. Mas o roteiro joga algumas informações importantes de forma muito vaga, e ninguém parece dar muita atenção. Nim tira do chapéu que o espírito que está possuindo a sobrinha é de um suicida da família. A informação não se baseia em nada, além do achômetro dela e quando ela percebe que está errada, parece uma grande surpresa, mas qualquer um que esteja vendo o mesmo que ela (que tem acesso às filmagens das câmeras do documentário), saberia disso.

A preparação do ritual final é muito bacana e mostra que magia não é mágica e que é preciso muito trabalho, muita atenção e muito conhecimento para se fazer determinados rituais de grande porte, como um exorcismo. O problema é que quando se faz um ritual desse tamanho, você presta atenção em coisas básicas como, por exemplo, não deixar bebês e pessoas despreparadas tomando conta da pessoa possuída. Não é preciso ser um exorcista do Vaticano para saber isso. Ou, não deixar a pessoa possuída com acesso livre à casa na semana em que ela será exorcizada, especialmente se ela já demonstrou comportamento perigoso para si mesma ou para os outros. Outros erros básicos vão sendo cometidos, o que nos leva a crer que os personagens estão à serviço do roteiro. Eles não são burros, mas o roteiro precisa que eles façam burrices, para chegar aonde o roteirista quer que chegue. 

O local do ritual parece ter uma importância na trama, mas ela jamais é explicada. O que é aquele prédio? Por que está abandonado? Por que é importante? Por que ele está no meio do mato? Por que tem que ser ali? As poucas explicações foram dadas de forma muito simplista, praticamente jogadas, e são insuficientes para que possamos entender direito o que está acontecendo.

O mais legal de um filme de terror é compreender o que está acontecendo e POR QUÊ! E isso não é entregue de forma satisfatória. O que é estranho, já que isso foi perfeitamente entregue em Espíritos, cujo roteiro tem vários pontos de virada. A Médium não muda seu rumo em momento algum, carece de movimento. 

Outra coisa que não faz sentido é a presença onipotente das entidades que possuem a moça e a total apatia das entidades do bem. Numa situação comum, com pessoas comuns, já é frustrante ver pessoas sem saber o que fazer e sem ferramentas para lidar com o problema que o roteiro lhes dá. Até entendemos quando elas morrem, porque afinal não sabiam fazer uma oração de exorcismo, um ritual de banimento e nem conheciam ninguém que soubesse fazer isso. Eram pobres idiotas em uma situação terrível. Agora, numa comunidade que praticamente vive aquilo, é imperdoável não ver entidades dispostas a deter aquela praga, já que havia rituais e médiuns à rodo por ali.

Conforme a possessão evolui, o filme descamba para o exagero temperado com gore, o que pode agradar uma fatia da audiência. No mais, vale pelos rituais e por apresentar uma cultura nova. Um bom roteirista teria feito um ótimo trabalho com esse material. Mas ele deve ter sido possuído por um fã de A Bruxa de Blair.





segunda-feira, 25 de abril de 2022

Novo Filme de Terror do Diretor de Espíritos

Eu tive a sorte de assistir Espíritos no cinema e ver todo mundo sair morrendo de medo, meia-noite, por corredores intermináveis pelos fundos de um shopping fechado em um estacionamento vazio! Esíritos está na minha lista de favoritos de terror e já estou empolgada com a chegada dessa nova obra do mesmo diretor. 

A Médium (The Medium) chega aos cinemas em 19 de maio com enredo assustador que tem suas primeiras cenas reveladas no trailer recém-divulgado pela Paris Filmes. O cartaz, igualmente misterioso, acabou de ser divulgado nas redes oficiais da distribuidora.

No trailer publicado na última semana nas redes oficiais da Paris Filmes, o público conhece a história de Nim, uma importante médium de uma pequena comunidade que vê sua sobrinha ser possuída por uma entidade que acreditam ser um Deus, mas ao decorrer do longa mostra-se uma falange de demônios.

O trailer também mostra rituais e tradições, o que é sempre enriquecedor para quem gosta de magia como eu.

Trailer dublado https://youtu.be/MOv0aKFI8Kc e legendado https://youtu.be/ZrZBAJ9XCtI

O longa chega com exclusividade aos cinemas no próximo mês e tem direção de Banjong Pisanthanakun, o mesmo de Espíritos - A Morte está ao Seu Lado (2004).




domingo, 27 de março de 2022

Os filmes do Oscar: O ATAQUE DOS CÃES – 12 indicações

Por Ricky Nobre

Jane Campion já fez história no Oscar de 1993 ao ganhar três prêmios por O Piano (melhor filme, direção e roteiro original). Dona de uma filmografia bissexta, porém muito sólida, ela volta com essa aclamada desconstrução do gênero western, que abocanhou nada menos que 12 indicações ao prêmio. Ataque dos Cães tem uma aparência muito modesta, principalmente se levarmos em conta o burburinho que gerou logo após sua estreia na Netflix e a expectativa ao ostentar tantas indicações da Academia. A duração é padrão, são poucos personagens, poucos cenários e a história toda pode ser resumida em poucos minutos. Mas isso é só a aparência. 

 

Em 1925, dois irmãos cuidam de um rancho, de onde tiram uma vida bastante confortável. George é comedido, educado, amável e mais urbano, enquanto Phil gosta do trabalho duro do rancho, mas é grosseiro, fanfarrão e até meio cruel. Quando George se casa com Rose, uma viúva dona de uma taberna, nasce um turbilhão de sentimentos em Phil, como ciúmes pelo irmão, ódio pela mulher e desprezo por Peter, filho adolescente dela. Enquanto Rose torna-se fisicamente doente e entrega-se ao álcool, se inicia uma estranha relação entre Phil e Peter.

 

O western é “desconstruído” há muito tempo. Um grande marco é Os Imperdoáveis (1992) de Eastwood, mas podemos também voltar mais talvez em Meu ódio será tua herança (1969), ou na própria reinvenção do gênero feita da Itália. O gênero que reinou do nascimento do cinema até fins dos anos 60 sempre passou por ajustes e reinvenções. Ao tornar-se (muito) mais raro a partir de fins dos 70, cada western produzido parecia ter o fardo de definir o gênero na época em que foi lançado. Ao ser ambientado na década de 1920, O Ataque dos Cães já se posiciona como um western que já é posterior ao período normalmente retratado no gênero, ou seja, ele já chega sugerindo que os temas e arquétipos já não são os mesmos. 

 

Os irmãos George e Phil se contrapõem como “civilização vs barbárie”. George parece deslocado naquele contexto de “velho oeste”, mas é Phil, defensor ávido do clichê de cowboy durão, é que é o deslocado no tempo. Sua obsessão pelo velho mentor Bronco Henry sugere o quanto ele se agarra a um mundo, uma lógica que vai se desfazendo à sua volta. Seu próprio irmão e o filho da cunhada são lembretes constantes disso e sua reação é sempre de violência e abuso, seja físico ou moral. Por trás dos modos de cowboy machão clássico, seus atos não são de herói, mas de vilão. A forma como ele persegue e atormenta Rose quase nunca vem de confronto direto, mas de abuso psicológico sutil e constante.

 

Mas a complexidade de Phil vai além, pois até mesmo sua persona de cowboy à moda antiga é uma armadura, uma fachada. Por isso, ao ver em Peter alguém tão jovem que não parece se abalar com o bullying e não se envergonha ou se desculpa pela forma como se apresenta, Phil começa a querer se aproximar de quem, inicialmente, desprezava, e tentar ser o novo Bronco Henry daquele possível jovem cowboy. 

 

Campion mantém um ritmo lento e constante, por vezes, enigmático. O filme parece uma costura de fragmentos, alguns com maior o menor significado isoladamente. Quase nada no apresenta de forma objetiva, totalmente compreensível por si só. Os pedaços vão se juntando e ganhando sentido lentamente. A forma como o elenco defende seus personagens é essencial para que o público se engaje em unir os pontos e a forma como a fotografia captura as paisagens infindáveis e como os personagens se inserem nelas guardam alguns ecos de Terrence Malick e seus épicos contidos (quando Malick era Malick...). A música de Jonny Greenwood tem mais a ver com o cinema de terror do que dos westerns clássicos, mais interessada em ilustrar a escuridão vivida pelos personagens do que a beleza das paisagens.

 

Existe um clima constante de suspense, a maior parte do tempo sutil, mas ele está ali, empilhando camadas de tensão, quanto mais sabemos sobre Phil e mais nos simpatizamos com o desespero de Rose e o ar de inocência de Peter. Tentando evitar spoiler, não se pode deixar de comentar como, num filme que se desvenda tão lentamente, a virada de mesa nos instantes finais obriga o público a repensar tudo que viu e religar todos os pontos novamente. Ataque dos Cães é um filme totalmente emanado de seus personagens e por eles se apresenta, se move e se resolve e, onde nada é dito claramente, depende da conexão completa do público com eles para fazer sentido, não só dos fatos mas, principalmente, das emoções. 

COTAÇÃO:


 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Direção: Jane Campion

Roteiro adaptado: Jane Campion

Ator: Benedict Cumberbatch

Ator coadjuvante: Jesse Plemons

Ator coadjuvante: Kodi Smit-McPhee

Atriz coadjuvante: Kirsten Dunst

Fotografia: Ari Wegner

Montagem: Peter Sciberras

Música: Jonny Greenwood

Som: Richard Flynn, Robert Mackenzie e Tara Webb

Direção de arte: Grant Major e Amber Richards

quinta-feira, 24 de março de 2022

Os filmes do Oscar: LICORICE PIZZA – 3 indicações

Por Ricky Nobre

Aprendemos nos últimos dois anos que estes são tempos em que podemos esperar qualquer coisa. Ainda assim, talvez ninguém esperasse uma comédia romântica fofa e adorável e com final gostosinho vindo de Paul Thomas Anderson. Claro, é a versão de Anderson do que é fofo e adorável, mas mesmo assim. Licorice Pizza não é parecido com nada que o diretor tenha lançado em seus 25 anos de carreira no cinema e, ainda assim, é um filme de Anderson até o último fiapo. 

 

O diretor volta à Los Angeles de sua infância da década de 70 para contar a história de Gary, um jovem ator de 15 anos que se apaixona por Alana, uma mulher de 25, na fila da foto da escola. Ele a convida para sair e ela apenas ri. Porém, ela comparece ao encontro, e o tempo vai forjando uma amizade, com contornos platônicos. Gary é um típico garoto de 15 anos que acha que sabe e pode tudo, e que, de fato, tem ótimo tino para negócios. Alana é a mulher de 25 que ainda não sabe seu lugar no mundo, mas que se encontra como parceira dos empreendimentos de Gary. A diferença de idade é o elefante na sala que os acompanha numa série de acontecimentos, numa estrutura episódica, com diversos novos personagens que entram e saem. 

 

A primeira coisa que dá muito certo em Licorice Pizza são os protagonistas. Alana Haim (da banda Haim) e Cooper Hoffman (filho de Philip Seymour Hoffman), ambos estreando como atores, não apenas são perfeitos em seus personagens, como também possuem uma química impecável como um casal improvável (e legalmente impossível), com uma amizade genuína, onde sempre discutem, mas não se desgrudam. Mesmo sem a beleza padrão de estrelas de cinema, a câmera parece amar os dois, que esbanjam carisma, ele em seus baldes de autoconfiança, ela na total falta de questão em ser simpática. Personagens excêntricos, bizarros e carismáticos vão e vêm, mas o filme é perfeitamente ancorado neles e na dinâmica peculiar dos dois.

 

A viagem no tempo forjada por Anderson é perfeita. Do momento que o filme começa até o rabicho dos créditos, somos transportados para 1973 e lá ficamos, com figurinos e direção de arte impecáveis e uma fotografia perfeita, assinada pelo próprio Anderson e Michael Bauman. Anderson sempre faz seus filmes em película, nunca em digital. Aqui ele vai além, e todo o processo de marcação de luz e ajuste de cores é feito em processos óticos e fotoquímicos, como sempre foi feito em película até fins do século passado, sem incluir nenhuma fase em processo digital. Essa fotografia 100% analógica é a bolha que nos mantém naquele mundo, sem ter vontade de sair. Pode lembrar o que Tarantino fez em Era Uma Vez em Hollywood, mas sem a avidez em chamar a atenção para si mesmo (o que era adequado naquele caso). Aqui, o ambiente apenas te cerca e te aconchega, como quem te convida pra visitar sua casa e te deixa completamente à vontade.

 

Um cineasta que já trabalhou com temas tão pesados, desta vez traz tanta leveza não apenas na tela, mas também na produção. As irmãs de Lana Haim (que são suas parceiras na banda) interpretam suas irmãs no filme, assim como os pais delas também, e toda a família Haim meio que interpreta a si mesma. Indo além, a mãe das moças foi professora de arte de Anderson e ele já dirigiu diversos clipes da banda delas. Além disso, Anderson e Philip Seymour Hoffman (pai do jovem protagonista) fizeram diversos filmes juntos e foram melhores amigos até sua morte prematura. Diversos pequenos papéis e boa parte dos figurantes são familiares e amigos do diretor, do elenco e da equipe, e esse clima transborda no filme. Existe uns toques de Jim Jarmush no estilo do humor (não tanto no timing) e a presença rápida e divertida de Tom Waits acaba reforçando isso.

 

É curioso notar que, num filme que se parece tão radicalmente diferente dos anteriores do cineasta, invariavelmente tensos, ainda exista um sutil traço de tensão vindo da personagem de Alana. Apenas nela podemos ver alguma tensão no fato de existir uma potencialidade romântica e sexual entre um garoto de 15 anos e uma mulher de 25. Como seria de se esperar, isso excita Gary e tensiona Alana, que se irrita até com o fato de se dar tão bem com os amigos igualmente adolescentes de Gary. Mas a tensão está só nela (daqueles à volta dela, vemos mais é estranhamento) e, ainda que não seja meramente pontual, não é onipresente, ficando a maior parte do tempo abaixo da superfície. Anderson parece preferir não expandir essa tensão nem esse dilema, ainda que seja um tema capaz de causar muita polêmica e pânico moral. Ele prefere naturalizar a dinâmica dos dois, um amálgama de amizade, tensão sexual e amor platônico, aparentemente usando como escudo a década em que o filme se passa. É um enorme risco, mas funciona na medida em que é tudo muito leve. 

 

Nesse sentido, Anderson parece aproveitar que tem o público na mão e joga a resolução dos personagens e o desfecho da história bem nos últimos minutos e sai correndo. É tão contagiante quanto o sorriso dos dois, mas nos deixa com a vontade de ficar um pouco mais de tempo com eles. Licorice Pizza é uma história simples com toda a potencialidade de ser tão agridoce quanto uma memória de juventude que faz o coração pular. Porém, uma vez na vida, Anderson escolheu só a doçura. É o efeito colateral de se fazer um filme cercado de gente que se ama.

COTAÇÃO:


 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Diretor: Paul Thomas Anderson

Roteiro original: Paul Thomas Anderson

 

LICORICE PIZZA (EUA – 2021)

Com: Alana Haim, Cooper Hoffman, Este Haim, Danielle Haim, John Michael Higgins, Sean Penn, Tom Waits, Bradley Cooper, Benny Safdie e Nate Mann

Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson

Fotografia: Paul Thomas Anderson e Michael Bauman

Montagem: Andy Jurgensen

Música: Jonny Greenwood

Design de produção: Florencia Martin

quarta-feira, 23 de março de 2022

Os filmes do Oscar: AMOR, SUBLIME AMOR – 7 indicações

Por Ricky Nobre

Steven Spielberg sempre sonhou em fazer um musical. Em 1985 ele chegou a cogitar essa possibilidade de seguir esse caminho com A Cor Púrpura e, ainda que tenha desistido, existem duas cenas no filme que seguem a lógica de musical e que são especialmente poderosas. Em 1991, ele decide fazer de Hook um musical. John Williams compôs todas as músicas, Leslie Bricusse escreveu todas as letras, mas semanas antes do início das filmagens, ele desistiu novamente, só que, desta vez com imenso arrependimento. Spielberg jamais gostou do resultado final de Hook. Porém, sempre ficou em sua cabeça uma obra pela qual se apaixonou ainda aos 10 anos de idade: West Side Story. 65 anos depois de lançado na Broadway e 60 após a filme dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins, Spielberg nos traz sua versão do que é considerado um dos maiores musicais já criados.

 

A versão de 2021 de Amor, Sublime Amor é uma anomalia completamente deslocada no cenário cinematográfico atual. Ela é fruto do absoluto descomprometimento do cineasta em relação a expectativas, seja do público, seja de produtores. Spielberg é, certamente, o cineasta mais poderoso de Hollywood e não existe ninguém capaz de dizer o que ele deve ou não fazer. Desta forma, ele constrói uma meticulosa atualização da obra original (não há sequer uma linha de diálogo que não tivesse sido reescrita), enquanto dá ao filme uma atmosfera, um brilho específico que parece saído direto da Era de Ouro de Hollywood, ao mesmo tempo em que empenha um esforço que se espalha por toda a equipe de obliterar o máximo possível qualquer traço de estereótipos e preconceitos sobre porto-riquenhos em específico e latinos em geral. É preciso frisar que foi “o máximo possível”, porque ainda se trata de uma obra originalmente escrita por quatro autores judeus que jamais conheceram um porto-riquenho e está impregnada de noções que pertencem à época em que foi criada, que foi o ano de 1957.

 

Se formos comparar com o filme de 1961, a diferença mais óbvia e bem-vinda está no fato de que cada membro o elenco agora pertence à mesma etnia de seus personagens, sem os constrangedores blackfaces usados há 60 anos. Mais ainda, foi escolhido um ator trans para interpretar o personagem Anybodys, o que faz todo o sentido. Indo além, desta vez todos os atores cantam suas próprias músicas, nenhum foi dublado, uma vez que boa parte do elenco tem experiência com teatro musical. Mas isso é apenas o começo. O roteiro de Tony Kushner se aprofunda nos personagens e no ambiente, contextualiza a tensão no bairro devido aos projetos de gentrificação, adiciona mais camadas e motivações aos personagens principais, e é mais incisivo ao tratar as questões raciais, trazendo a história mais perto das sensibilidades e conhecimentos do nosso século, ainda que ela continue se passando nos anos 50. 

 

Se os diálogos foram todos mudados, as letras das músicas permanecem intactas quase em sua totalidade, com exceção apenas dos trechos iniciais de America, cujas passagens depreciativas sobre Porto Rico já foram polêmicas na época e que sofreu pequenas mudanças ao longo do tempo, tanto no filme original quanto em encenações posteriores. A performance da Filarmônica de Nova Iorque sob a regência de Gustavo Dudamel é simplesmente excepcional, com utilização das orquestrações originais e ainda, em algumas músicas específicas, os atores cantam ao vivo, sem playback. As coreografias são incrivelmente vibrantes e enérgicas, atualizando com absoluto sucesso as coreografias originais que já eram revolucionárias para a época. A direção de arte impressionantemente detalhada, aliada à fotografia impecável, mantém uma ligeira, mas inescapável estética de cenário de estúdio, algo rotineiro até o início dos anos 70, mas que passou a ser evitado como uma praga, tornando a busca por realismo a regra na indústria. 

 

Desta forma, o West Side Story de Spielberg busca se distanciar de tudo de ruim que o deixou datado, seja as representações raciais e culturais, seja atores dublados, ou mesmo a superficialidade dos personagens. Porém, se agarra, celebra e potencializa de forma até apoteótica não apenas a estupenda música de Leonard Bernstein e as letras de Stephen Sondheim, mas o próprio cinema musical hollywoodiano. Porém, isso não é feito meramente referenciando ou copiando musicais clássicos, ou mesmo o filme original. Spielberg é talvez o mais habilidoso narrador da história do cinema. Cada cena é um exemplo de seu total domínio da câmera e rigorosa precisão da montagem, que sempre dá a impressão que é feito sem nenhum esforço, e o que pode ser reconhecido facilmente como típicos maneirismos spielberguianos dão a impressão de que não havia outra forma de fazer senão aquela. 

 

A presença de Rita Moreno, a Anita da versão de 1961 e primeira atriz latina a ganhar um Oscar, não em uma mera participação especial, mas em um novo e importante personagem, eleva o filme em diversos níveis, seja na metalinguagem, seja aprofundando o tema racial, seja como uma importante referência ao personagem Tony. Ao tirar a música Somewhere do casal e dar para sua personagem Valentina, Spielberg altera o significado na letra, que deixa de ser um hino de esperança do casal por tempos melhores e vira o lamento de uma velha latina que vê as mesmas tragédias que viu na juventude se repetindo. É um inesperado e doloroso toque de amargura numa história de amor que já sabemos que ganha contornos trágicos. 

 

Mas há problemas, e eles, infelizmente, estão no casal central. Ainda que a escolha de Rachel Zegler como Maria seja simplesmente perfeita, Ansel Elgort como Tony puxa o filme pra baixo sempre que aparece. O jovem ator que se saiu tão bem em Baby Driver, por exemplo, aqui apresenta o carisma de uma empada, formando uma química quase zero com sua parceira de cena. Essa química melhora um pouco mais adiante, a partir da cena da igreja, mas não dá conta da paixão avassaladora que o casal diz ter, e Zegler tem que carregar a emoção das cenas nas costas sem ajuda alguma. Além disso, Elgort não convence como um ex-líder de gangue que quase matou alguém a soco, não parece que está nele, que seja algo que ele precise conter ou superar. Sendo honesto, Richard Beymer na versão original não era muito melhor, mas de alguma forma funcionava, não só por ter química melhor com Natalie Wood mas porque era um roteiro bem menos exigente com seus atores. 

 

Mas quem corresponde a todas as exigências e excede todas as expectativas é Ariana DeBose como Anita. Se Rita Moreno brilhou no papel há 60 anos, DeBose entrega absolutamente tudo nesta versão, cantando, dançando e interpretando com perfeição, criando a personagem mais fascinante e concreta do filme. 

 

Outro problema é um aspecto muito elementar da história original que não podia ser mudado. É muito difícil para o público de hoje aceitar que o casal vá para a cama após um evento trágico muito particularmente devastador. A obra original se apoiava na lógica de Romeu e Julieta, sua inspiração principal, e confiava que o público aceitaria um como sempre aceitou o outro. Sempre foi um tópico polêmico na obra, e Spielberg parece ter decido não fazer nada para justificar, amenizar ou contornar, apenas deixa a música A Boy Like That fazer seu trabalho, potencializado pelas excelentes interpretações de Zegler e DeBose (a contraposição com a Somewhere de Moreno também age nesse sentido). Mas ainda é algo que tira muita gente do sério. A fraqueza de Elgort como Tony não ajuda um casal que tem uma dinâmica bem problemática para as sensibilidades atuais e acaba expondo a fragilidade do texto nesse ponto. E isso que meio que resume o que é este West Side Story de Spielberg. 

 

Como dito no início. Spielberg realizou seu sonho de filmar um musical sem estar preocupado com expectativas alheias. O público mais jovem cresceu com musicais mais modernos musicalmente, dos filmes de High School Musical aos espetáculos de Lynn Manuel Miranda. Em 1957, West Side Story era, em forma e conteúdo, algo totalmente inovador, porém hoje é uma relíquia, que soa antigo aos ouvidos jovens. As melodias e orquestrações de Bernstein embalando atores em belíssimos figurinos dos anos 50, com coreografias vigorosas em um cenário de estúdio, com toda atmosfera de uma Hollywood que não existe mais, é algo que parece não pertencer a esse século. Ainda que o texto tenha atualizado com muito sucesso boa parte do que envelheceu mal e a linguagem cinematográfica de Spielberg permaneça absolutamente atual, West Side Story continua parecendo um filme que é difícil de entender por que foi feito, por que existe. Steven Spielberg quis, durante toda sua vida, filmar um musical. Aos 75 anos, ele decidiu que já era a hora. Lançado em tempos de pandemia, se saiu mal nas bilheterias.

 

West Side Story sempre terá problemas inerentes vindos do quão alheios os criadores originais eram do universo abordado. Se este filme tem uma razão de ser, foi ter eternizado para a tela uma visão bem mais atualizada desta história, tornando-a mais fiel aos seus temas e personagens. Com um ator mais adequado como protagonista, ganharia a força que era imperativa ao casal central, mas que se perdeu. Talvez seja por isso que este seja um filme tão divisivo, não para a crítica em geral, mas para o público. Quem compra a lógica problemática do casal central e toda a estética de musical clássico, abraça o filme em sua totalidade. Os que repelem a dinâmica dos dois, acaba repudiando o filme, ainda que admirem o triunfo técnico que ele é. Spielberg fez o que artistas fazem: apresentar ao mundo uma obra sem concessões e que saia do fundo do seu coração e o represente como artista. Cabe aos corações e mentes do público recebê-lo ou não.

 COTAÇÃO:



INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Diretor: Steven Spielberg

Atriz coadjuvante: Ariana DeBose

Fotografia: Janusz Kaminski

Direção de arte: Adam Stockhausen e Rena DeAngelo

Figurino: Paul Tazewell

Som: Brian Chumney, Tod A. Maitland, Andy Nelson e Gary Rydstrom

 

AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story, EUA – 2021)

Com: Ansel Elgort, Rachel Zegler, Ariana DeBose, David Alvarez, Rita Moreno, Corey Stoll, Mike Faist, Josh Andrés Rivera e Iris Menas.

Diretor: Steven Spielberg

Fotografia: Janusz Kaminski

Montagem: Sarah Broshar e Michael Kahn

Design de produção: Adam Stockhausen

Música: Leonard Bernstein

Letras: Stephen Sondheim

segunda-feira, 21 de março de 2022

Os filmes do Oscar: DUNA – 10 indicações

Por Ricky Nobre

Adaptar Duna é um problema há quase 50 anos. Lançado em 1965, o livro de Frank Herbert mudou os rumos da literatura de ficção científica e capturou a imaginação de diversos cineastas. Em 1975, o cineasta surrealista Alejandro Jodorowsky elaborou um projeto que foi compilado em um livro gigante, com um design de produção extraordinário e com todo o filme desenhado plano a plano. Todos os produtores procurados ficaram abismados com o trabalho. Mas era caro demais e ninguém confiava no “doidão” Jodorowsky e o projeto jamais foi realizado.

 

 A versão nunca feita de Duna virou documentário em 2013.

Em 1984, David Lynch, ainda se afirmando na carreira, dirigiu uma produção de Dino De Laurentis na qual não possuía controle criativo. A produção foi interrompida antes que ele tivesse sequer conseguido filmar tudo o que queria e a montagem foi retirada de suas mãos, resultando em um filme longo, confuso, esteticamente brilhante e bizarro (como se espera de Lynch) e um fracasso de público. O produtor chegou a lançar na TV uma versão estendida MUITO mal montada que Lynch se recusou a assinar. Muitos anos depois, fãs realizaram por conta própria uma montagem com tudo o que havia de disponível, tomando o roteiro original como guia, revelando um filme problemático, mas ainda assim, bem melhor que o original.

 

 O filme de David Lynch não saiu como o diretor queria.

Em 2000, o canal SyFy produziu uma minissérie que adaptava o livro de forma bem mais detalhada, seguindo-se de outra minissérie que dava conta dos dois livros seguintes. Era um feito extraordinário para a TV da época, mas tinha limitações e não envelheceu bem, mas era, até agora, a mais fiel adaptação da obra de Herbert e a única que cobria livros posteriores. Em 2021, o projeto de Denis Villeneuve chegou com uma expectativa monstruosa sobre os ombros de seu diretor.

 

 Mesmo com as limitações da TV, a minissérie trouxe a história mais completa.

Duna é uma história com uma multidão de personagens num panorama político complexo e intrincado, casas nobres, ordens religiosas, profecias messiânicas, e uma mensagem pró ecologia, anti-capitalista e anti-imperialista. É necessário um roteiro extremamente habilidoso para conseguir reduzir tudo isso de forma inteligente e compreensível, que se encaixe não só no tempo disponível, mas na linguagem cinematográfica. Esta versão é um misto de erros e acertos. Um dos principais acertos é seu protagonista, o jovem Paul Atreides. O público entende a sua angústia e ansiedade em ser assombrado por sonhos que não compreende, pelas expectativas de seu pai por sua posição em uma casa nobre e pela recém descoberta possibilidade de ser possuidor de poderes extraordinários e um “messias” para o povo Fremen do desértico planeta Arrakis, ou Duna. Bem desenvolvida também é a parte da trama que envolve a Casa Atreides ser designada ao planeta Arrakis e de como isso pode ser uma armadilha política. 

 

Outros aspectos, porém, são apenas pincelados. Para quem está tendo seu primeiro contato com Duna, fica muito vago quem são as mulheres da ordem religiosa Bene Gesserit e sua real influência no cenário político. A própria estrutura deste Império universal é bem mal desenvolvida, assim com a Casa Harkonnen é mostrada de forma bem superficial. O mais grave de tudo provavelmente seja que não fica bem impresso na mente do espectador a informação mais essencial deste cenário, que é a extrema importância da especiaria para todo o funcionamento econômico e político do Universo. Não há o senso de gravidade necessário, e fica a impressão de que é apenas a exploração de um recurso natural que dá muito dinheiro, e não algo que, se interrompido, causará o total colapso do Império. 

 

Duna, por sua magnitude, é uma história pesada, e Villeneuve assume essa característica na sua totalidade. Esse peso já era evidente nas adaptações anteriores, até a da TV, bem mais leve e colorida, apesar de mais completa. Nesta versão, tudo é muito pesado, austero, grave e esmagador. Isso é acompanhado tanto pela monstruosa escala dos cenários e paisagens, como no semblante quase sempre soturno dos personagens, sempre desconfiados, alertas e preocupados com o futuro, dos nobres até os habitantes do deserto, terminado por ecoar na música de Hans Zimmer, que esmaga tudo como um bloco de concreto (para bem e para mal). Todo esse peso poderia gerar um sentimento de profunda angústia e apreensão no público, gerando mais simpatia pelos personagens principais, mas, apesar do ótimo elenco, Duna é de uma frieza tão intensa que acaba distanciando os personagens do público. Villeneuve investiu tanto na experiência sensorial de nos colocar dentro daquele mundo extraordinário que esqueceu de nos colocar dentro dos personagens. Lady Jessica é um perfeito exemplo de personagem desperdiçado, que poderia servir muito bem como conexão emocional com o público, mas seu desenvolvimento é bem limitado.

 

A decisão muito acertada de cobrir apenas metade do livro, deixando o restante para um segundo filme, esbarra no problema de definir o momento do corte, e é justamente aí que os principais problemas do filme pesam. Após 155 minutos, tão pouco se sabe sobre aquele mundo e aquelas pessoas que um corte abrupto na história se torna mais um motivo de frustração. A impressão que fica é que Villeneuve deixou coisas demais para serem desenvolvidas no próximo filme, sendo que várias poderiam e deveriam terem sido neste, principalmente levando em conta a longa duração. 

 

Os que estão mais acostumados com exemplares muito mais dinâmicos de ficção científica e de fantasia vão achar Duna de uma lentidão insuportável. Mas não é lentidão o problema, mas sim o labirinto de nomes e tramas e a sensação, principalmente daqueles que estão conhecendo a história agora, de que não conseguem ligar os pontos. Alguns são mesmo feitos para serem ligados depois, outros deveriam ser agora. No mais, o distanciamento emocional entre os personagens e o público parece inacreditável vindo do cineasta de Incêndios e A Chegada. Duna é um primor técnico estupendo, com uma escala épica deslumbrante e um ótimo elenco, mas com um coração que parece ser feito mesmo de pedra e areia.

COTAÇÃO:

 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Roteiro adaptado: Denis Villeneuve, Eric Roth e Jon Spaihts

Música: Hans Zimmer

Direção de arte: Patrice Vermette e Zsuzsanna Sipos

Fotografia: Greig Fraser

Montagem: Joe Walker

Maquiagem e cabelo: Donald Mowat, Love Larson e Eva Von Bahr

Figurino: Robert Morgan e Jacqueline West

Efeitos visuais: Paul Lambert, Tristen Myles, Brian Connor, e Gerd Nefzer

Som: Ron Bartlett, Theo Green, Doug Hemphill, Mark Mangini e Mac Ruth

 

DUNA (Dune, EUA/Canadá – 2021)

Com: Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Jason Momoa, Stellan Skarsgård, Stephen McKinley Henderson, Josh Brolin, Javier Bardem, Sharon Duncan-Brewster, Chang Chen, Dave Bautista, David Dastmalchian, Zendaya e Charlotte Rampling

Direção: Denis Villeneuve

Roteiro: Denis Villeneuve, Eric Roth e Jon Spaihts

Fotografia: Greig Fraser

Montagem: Joe Walker

Música: Hans Zimmer


Os filmes do Oscar: KING RICHARD: CRIANDO CAMPEÃS – 6 indicações

Por Ricky Nobre

Filmes de esporte geralmente têm uma estrutura de clichês quase tão inescapáveis quanto os das comédias românticas (ou de terror slasher, talvez...). No caso, a empolgação, o treinamento árduo, as dúvidas, o desafio e o triunfo (e, por vezes, o triunfo na derrota, mas sempre o triunfo). King Richard não escapa deles. O que tira o filme do lugar comum é algo que não é necessariamente uma qualidade. Na verdade, é o grande problema do filme: ele é um filme sobre a duas maiores tenistas do mundo que não é sobre as duas maiores tenistas do mundo. É sobre o pai delas. 

 

Negar o papel de Richard Williams na construção das lendárias e gigantes Serena e Venus Williams seria, sendo bem direto, estúpido. Tudo o que aconteceu com elas até começarem a ganhar títulos mundiais passou pelo único e estrito critério do pai. E é nessa abordagem que o filme erra em dois pontos principais. O primeiro é a escolha do protagonista ser Richard, e não as irmãs Williams. Tudo o que é mostrado no filme, todo o treinamento, o planejamento nos mínimos detalhes da carreira das duas, tudo isso poderia perfeitamente continuar no filme, mas o foco, o centro da narrativa não ser justamente as esportistas, as campeãs que saíram de Compton, as que efetivamente tinham que ir para a quadra e jogar, parece diminuí-las em suas próprias histórias.

 

O segundo ponto é a absoluta normalidade que o filme vende de toda a situação. Richard planejou toda a vida das filhas antes delas nascerem. Além de alguns olhares tortos dados por estranhos (que estão mais no sentido de “quem é esse doido”), Richard é retratado pelo roteiro e pela direção como, no máximo, um pai rigoroso. Cabe ao espectador, sozinho, questionar até que ponto é aceitável, ou mesmo saudável, esse nível de controle de um pai sobre a vida e o futuro dos filhos, porque o filme não faz isso. A narrativa parte do princípio de que se deu certo, então não houve problema algum. O sucesso absoluto do plano de Richard o desculpa de tudo. Sua esposa, tão parte do plano de Richard quanto as filhas, é a única que, em raros e pontuais momentos, o confronta em sua obsessão em controlar todo o destino e rotina de uma família de sete pessoas.

Em seu desenrolar, a direção de Reinaldo Marcus Green é muito competente em convidar o público a acompanhar e se engajar com a jornada dessa família, com todos os percalços e dificuldades de quem sonha com o sucesso em um esporte elitista como o tênis sendo uma família negra vinda do Compton. A falta de quadras, de recursos, de dinheiro, a violência das gangues, o racismo. A boa atuação de Will Smith dá simpatia e credibilidade a um homem que sofreu e ainda sofria muita violência e sonhou com algo melhor para as filhas. Todo o filme flui muito bem, e é impossível não torcer pelas meninas, mesmo para nós que sabemos quem elas se tornarão no futuro. A narrativa, porém, finca o pé tão inabalavelmente ao lado de Richard que muitos podem chegar ao fim do filme sem, em momento algum, se questionarem até que ponto seus métodos são aceitáveis, e se o centro da história não deveria ser as irmãs. 

 

Em seu ato final, Venus ganha mais destaque, pois é a primeira a jogar profissionalmente, e sua primeira final disputando o título é bem empolgante. Serena, porém, ganha apenas uma nota na tela, dando conta de que se tornou, em algum momento, a melhor do mundo, como Richard previa. Porque o importante é o plano de Richard. Venus e Serena são coadjuvantes em suas próprias histórias.

COTAÇÃO:



INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Ator: Will Smith

Atriz coadjuvante: Aunjanue Ellis

Roteiro original: Zach Baylin

Montagem: Pamela Martin

Canção original: "Be Alive" de Beyoncé e Dixson

 

KING RICHARD: CRIANDO CAMPEÃS (King Richard, EUA – 2021)

Com: Will Smith, Aunjanue Ellis, Jon Bernthal, Saniyya Sidney, Demi Singleton, Mikayla LaShae Bartholomew, Daniele Lawson, Layla Crawford e Tony Goldwyn

Direção: Reinaldo Marcus Green

Roteiro: Zach Baylin

Fotografia: Robert Elswit

Montagem: Pamela Martin

Música: Kris Bowers

Design de produção: William Arnold e Wynn Thomas