quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Contagem progressiva para Star Wars. Episódio de hoje: A VINGANÇA DOS SITH

por Ricky Nobre



 Finalmente, chegamos ao momento que todos esperavam. Todas as peças do tabuleiro se moveram e todas as forças do universo e do destino fizeram sua parte para que esse momento, implantado na mente dos fãs em 1983, quando Yoda e Obi-Wan admitiram a verdade para Luke, acontecesse diante de nossos olhos.
A Vingança dos Sith (2005) consegue ser melhor em relação ao segundo episódio do que este é em relação ao primeiro. E isso é muita coisa! Logo na primeira sequência, tomamos um susto: excesso de humor centrado na figura de R2, e a morte prematura do Conde, que nos deixou tão felizes por ter sobrevivido ao final do filme anterior, sepultando qualquer possibilidade de um maior desenvolvimento do vilão.
 




Porém, esses problemas são menores diante de tudo que dá certo dali em diante. Mais uma vez, é preciso mencionar o quanto Ewan McGregor foi uma escolha perfeita para Obi-Wan. E creio que este é o momento para reconhecer o extraordinário talento de Ian McDiarmid, que aqui vai além de tudo que já havia feito na saga e imprime a Palpatine/Sidious uma impressionante riqueza, um tom soturno aterrador, uma sutileza ao inserir a voz clássica do Imperador em momentos chave dos diálogos do chanceler. McDiarmid extrai dos diálogos geralmente simplórios de Lucas todo o sangue que é possível se arrancar de uma pedra. O motivo pelo qual a carreira desse mestre nunca foi além do brilho da própria saga Star Wars está totalmente além da minha compreensão.
 

 

E obviamente, a estrela absoluta do fim desta trilogia, o próprio Anakin/Lorde Vader brilha como merece graças a um impressionantemente rápido amadurecimento de Hayden Christensen como ator. Entre os episódios II e III, ele participou de dois filmes de baixo orçamento, que privilegiavam a interpretação, com dois bons diretores de atores. Este "curso intensivo", somado a um roteiro bem melhor escrito e, o mais surpreendente, algumas boas direções dadas pelo próprio Lucas, tornou possível a materialização diante de nossos olhos da trágica queda de Anakin e da ascensão de Darth Vader. A queda de Anakin não é apenas crível e verossímil. É verdadeiramente trágica e de partir o coração.
 

 
O Sith do olho amarelo

É apoteótico ver o nascimento do imperador deformado, a própria consolidação do plano de tomada de poder de Palpatine brilhantemente concebido e executado, a batalha entre este e Yoda, algo que jamais esperaria ver, travada entre bancadas do senado que vai sendo destruído, numa inesperada simbologia. E mais apoteótico de tudo, a grande luta entre Anakin e Obi-Wan sobre rios de lava, como que travada no próprio inferno. A classificação etária 13 anos, inédita na saga, garantiu uma atmosfera mais soturna e violenta ao filme.
 

 
Trágico esse Episódio III

Mas sim, o filme tem problemas. Os mais simples são tentativas de última hora em acertar algumas pontas soltas (só algumas), como a capacidade dos jedis em se comunicar pós-morte (comum na trilogia original e ausente nesta) e a participação forçada dos androides, que, sendo frio e franco, não precisavam ter participado desta trilogia. A solução foi decretar de forma fria e abrupta o apagamento da memória de C3PO, algo aparentemente brutal para se fazer com uma inteligência artificial aparentemente auto consciente. A harshtag sugerida pelo pessoal do Honest Trailers #droidlivesmaters vem à mente.
 

 

E sim, podemos engolir, depois que tudo em relação à queda de Anakin ter sido melhor do que o esperado, Vader gritando "noooooooo". Tudo que foi falado aqui são problemas menores. O único defeito real do Episódio III se refere a Padme. Personagem forte, sábia, um modelo como regente, política e guerreira, Padme Amidala torna-se uma parva chorona e inútil a partir do momento em que engravida. Um personagem valiosíssimo para a trilogia é reduzido ao papel exclusivo de procriadora da próxima geração de personagens e objeto causador da queda de Anakin, seja pelo apego deste em relação a ela e ao medo da perda, seja para sepultar de vez Anakin dentro de Vader com sua morte. Uma morte, aliás, totalmente desnecessária, pois, além da queda de Anakin já estar definida naquela altura, só serviu para contradizer o famoso diálogo onde Leia lembra da tristeza da mãe (diálogo, alias, referenciado no próprio episódio I).
 

Mas não para por aí: originalmente, três cenas mostravam Padme articulando com Bail Organa e outros senadores o que seria um embrião da aliança rebelde, inclusive com Padme entregando a Palpatine um pedido de garantia de abandono do poder após o fim da guerra. Lucas cortou as três cenas, acreditando erradamente que desviava a atenção do centro da historia que era Anakin, ignorando que essa ação de Padme adicionava mais um elemento no conflito interno de Anakin e enriquecia não só a personagem mas também a mitologia da saga. Assim, Lucas selou um destino trágico e indigno para um dos melhores personagens da trilogia. Chega a ser ainda mais triste que os já esperados diálogos realmente ruins, que são bem menos frequentes neste filme, estão praticamente todos nas cenas com Padme.
 

 

Nada disso, entretanto, tira o mérito do filme e de seu criador. Como diretor e como roteirista (mais uma vez dispensando parceria) é o melhor filme de Lucas. Se Padme fosse um personagem de verdade neste, poderia realmente rivalizar com o mítico Episódio V. Mas chega quase. Quase mesmo!

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