quinta-feira, 9 de novembro de 2023

ALCATEIA NO FESTIVAL DO RIO 2023: DIA 15/10

FILME 19: INSHALLAH UM MENINO


É sempre um desafio para cineastas de países de cultura islâmica falarem sobre a condição feminina, mesmo um país menos repressor como a Jordânia. O desafio da protagonista de Inshalah um Menino é transitar através de todas as barreiras impostas às mulheres que, se por vezes não são legais, são culturais. A maternidade de Nawal é o centro de sua luta, seja no perigo de perder a guarda da filha que tem, a expectativa social em vir a ser mãe novamente e, especificamente, de um menino, seu direito à propriedade atrelada à maternidade, e seu papel na escolha de não maternidade de outra mulher.

 

O diretor Amjad Al Rasheed realiza um filme emocionalmente aberto, onde temos contato íntimo com os sentimentos de Nawal, que precisa lidar com o abandono que é ser uma viúva de um marido que não a amparou legalmente, deixando-a à mercê de parentes dele. Al Rasheed não se acanha em deixar um certo humor e leveza tomar o filme em alguns momentos, como um alívio ao peso emocional vivido por Nawal. É também curiosa a forma como lida com a realidade das opções às quais a protagonista dispõe: se por um lado ela luta ferozmente pelo que tem direito, com todos os métodos que consegue dispor, por outro existe um limite, que só pode ser transposto por algo semelhante a uma intervenção divina, ou um milagre, sendo sua luta também um exercício de fé.

COTAÇÂO:


 

INSHALLAH UM MENINO (Inshallah Walad – 2023)

Com: Mouna Hawa, Hitham Omari, Yumna Marwan, Salwa Nakkara, Mohammed Al Jizawi, Eslam Al-Awadi e Celina Rabab'a

Direção: Amjad Al Rasheed

Roteiro: Amjad Al Rasheed, Delphine Agut e Rula Nasser

Fotografia: Kanamé Onoyama

Montagem: Ahmed Hafez

Música: Andrew Lancaster e Jerry Lane

 

FILME 20: UM FARDO

 

Se Inshalah Um Menino oferecia a possibilidade de alguma leveza na discussão sobre realidade feminina na cultura islâmica, em Um Fardo a realidade é muito mais dura e desoladora. Num Yemen tomado pela guerra civil não há água corrente, há constantes falhas de energia, salários atrasam por meses e não há segurança nas ruas com diversos grupos armados. Nessa realidade, Ahmed, pai de três, não quer que a esposa Isra'a leve a quarta gravidez adiante, tentando convencer sua cunhada obstetra a realizar um aborto clandestino, baseado na interpretação do Alcorão de que não seria pecado até 120 dias de gestação.

 

Entre a pressão do marido e a recusa da irmã altamente religiosa, Isra'a vive a angústia de quem não quer de fato abortar mas não vê possibilidade de crescimento da família em um país miserável e abandonado. A câmera do diretor Amr Gamal nunca se aproxima de seus personagens para além do plano médio, como que numa tentativa de não individualizar um drama que é coletivo e nacional, ainda que as emoções e dilemas dos personagens sejam intensos. Um Fardo disseca como a interrupção da gravidez é um obstáculo não apenas legal em um pais autoritário e teocrata, mas também moral, cujas vias passam por fraudes, corrupção, mas, também, pela violação de consciências numa cultura onde a religiosidade permeia toda a existência dos indivíduos. Uma batalha onde se perde até quando se ganha.

COTAÇÂO:


UM FARDO (Al Murhaqoon – 2023)

Com: Khaled Hamdan, Abeer Mohammed, Samah Alamrani e Awsam Abdulrahman

Direção: Amr Gamal

Roteiro: Amr Gamal e Mazen Refaat

Fotografia: Mrinal Desai

Montagem: Heba Othman

Música: Ming-chang Chen           

ALCATEIA NO FESTIVAL DO RIO 2023: DIA 14/10

FILME 17: HERE

Do bruto, pesado, artificial ao delicado, minúsculo, natural. É a jornada do protagonista Stefan que, de férias da construção civil, pretende visitar a família na Romênia, de onde ele tem dúvidas se pretende voltar, pois não parece satisfeito com sua vida na Bélgica. Paralelamente, Shuxiu, uma botânica de ascendência chinesa, estuda musgos para seu doutorado. E é no encontro dos dois que o filme de fato acontece.

 

O filme celebra o "aqui" do título, seja no dividir de uma sopa com um amigo, seja no trabalho solitário do estudo de plantas, seja na inesperada divisão desse conhecimento com um estranho. A montagem, por vezes, se detém nesses momentos, onde só há a cidade, a rua e sua paisagem urbana, ou entre a vegetação, as pedras, a chuva, duas pessoas que param uma em frente à outra. Here é de uma simplicidade e delicadeza adoráveis, e a expressão da atriz no último take é uma preciosidade.

COTAÇÃO:

 

HERE (Bélgica – 2023)

Com: Stefan Gota, Liyo Gong e Teodor Corban

Direção e roteiro: Bas Devos

Fotografia: Grimm Vandekerckhove

Montagem: Dieter Diependaele

Música: Brecht Ameel

 

FILME 18: SEGREDOS DE UM ESCÂNDALO

Todd Heynes olha para o passado de forma menos literal do que em seus filmes anteriores, como Longe do Paraíso, Velvet Goldmine e Carol, mas para uma versão atualizada e meio satirizada de um melodrama sensacionalista "baseado em fatos reais". A história de uma atriz que faz seu estudo de personagem diretamente com sua inspiração serve de base para uma obra que acaba não indo tão fundo nem na sátira, nem na sordidez do tema.

 

O embate entre as excelentes Portman e Moore é o grande trunfo de Heynes, que não esconde que não está, de forma alguma, conduzindo o filme com uma seriedade sisuda, o que fica muito claro na forma como Marcelo Zarvos adapta a música de Michel Legrand originalmente composta para o filme O Mensageiro (1971) que, não coincidentemente, também tratava do relacionamento de um garoto de 13 anos com uma adulta, evidenciando a dramaticidade exacerbada da trilha.

 

Heynes balança nessa corda bamba entre seu olhar satírico ao sensacionalismo de tabloide e a extrema delicadeza do tema, onde o maior desafio é essa discussão sobre a normalidade de subúrbio de um casal composto por abusadora e abusado. A cena onde a personagem Gracie se mostra completamente incapaz de enxergar sua responsabilidade sobre seus atos a partir da confrontação do marido é o mais perto que Heynes chega do desenvolver esse tema em específico. O principal foco é em como a atriz Elizabeth vai se enfiando na vida da família e, especificamente, na de Gracie e as mudanças que o processo causa nas duas. Talvez se Heynes tivesse menos medo do ridículo do melodrama e sentisse menos necessidade de satirizá-lo, talvez conseguisse um maior engajamento do espectador a partir de algo mais honestamente despudorado.

COTAÇÃO:


SEGREDOS DE UM ESCÂNDALO (May December – 2023)

Com: Natalie Portman, Julianne Moore, Charles Melton, Chris Tenzis e Gabriel Chung

Direção: Todd Haynes

Roteiro: Samy Burch

Fotografia: Christopher Blauvelt

Montagem: Affonso Gonçalves

Música original e adaptação: Marcelo Zarvos

ALCATEIA NO FESTIVAL DO RIO 2023: DIA 13/10

FILME 15: O SABOR DA VIDA

O novo filme do cineasta vietnamita Tran Anh Hung tinha tudo para ser um sucessor legítimo de A Festa de Babete, obra prima de Gabriel Axel. O diretor nos introduz lentamente naquele ambiente e a câmera, sempre em movimento e muito suave, captura cada detalhe de cada prato, cada receita, como num ritual, de uma solenidade discreta do dia a dia, rigoroso e, ao mesmo tempo, leve. 

 

Tran Anh Hung leva um bom tempo até apresentar algo parecido com uma história. O essencial são aquelas pessoas e preciosidade que é o ato de cozinhar e reunir pessoas queridas. Eugenie, em seu brilhantismo, mantém a dificílima posição de ser cozinheira de um grande chef, Dodin, com quem também divide a casa, os dias e, por vezes, o quarto. Um arranjo que, para ela, é perfeito, e que a proposta de casamento de Dodin só arruinaria. 

 

Tran funde com suavidade e discrição a beleza do ritual da cozinha, a paixão pela culinária e as relações de afeto entre os personagens, tornando-os um. Por isso é incompreensível que Tran decida, a cerca de 40 minutos do final, matar seu filme. Tudo o que vem a seguir parece uma coisa sem rumo, e o desfecho tem uma impessoalidade tão morna que é como se o filme não soubesse como terminar e o fizesse por obrigação. O espectador fica como quem estava experimentando um banquete e tem seu prato roubado da mesa.

COTAÇÃO:


 

O SABOR DA VIDA (La passion de Dodin Bouffant, França – 2023)

Com: Juliette Binoche, Benoît Magimel, Emmanuel Salinger, Patrick d'Assumçao, Galatéa Bellugi e Bonnie Chagneau-Ravoire

Direção: Anh Hung Tran

Roteiro: Anh Hung Tran e Marcel Rouff

Fotografia: Jonathan Ricquebourg

Montagem: Mario Battistel

 

FILME 16: A FILHA DO PAI

O diretor Le Duc parece tentar traduzir o espírito da nouvelle vague para os dias de hoje, lançando mão de uma certa leitura maneirista. Essa estilização aposta no humor em sua primeira metade, acompanhando o pai que criou sua filha sozinho após o sumiço da esposa. A ausência dela parece completamente superada até que ele a identifica numa reportagem de TV e descobre onde ela está, tornando-se obsessivo em procurá-la. 

 

É um filme feito mais de bons momentos do que de uma unidade mais coesa, tanto em seu estilo de comédia meio amalucada quanto na virada meio brusca para um drama um tanto surreal. Uma vez que sua principal discussão é o questionamento na legitimidade em buscar o passado que aquela mulher representa, tanto para o pai quanto para a filha, o filme acerta muito em seu final, quando o protagonista sabe a hora certa de virar as costas, pois aquilo tudo não era exatamente sobre ele. A química perfeita entre os atores que interpretam pai e filha meio que segura tudo nos momentos mais frágeis.

COTAÇÃO:

 

A FILHA DO PAI (La Fille De Son Père, França – 2023)

Com: Nahuel Pérez Biscayart, Céleste Brunnquell, Maud Wyler, Mercedes Dassy, Mohammed Louridi, Camille Rutherford e Alexandre Steiger

Direção e roteiro: Erwan Le Duc

Fotografia: Alexis Kavyrchine

Montagem: Julie Dupré

Música: Julie Roué

 

sábado, 21 de outubro de 2023

ALCATEIA NO FESTIVAL DO RIO 2023: DIA 12/10

 Por Ricky Nobre

 

FILME 12: MONSTER

Nós conhecemos apenas fragmentos das pessoas e de suas dores. O cineasta japonês Kore-eda, que se mostrou tão hábil em filmes com crianças protagonistas como Ninguém Pode Saber e Tudo que Eu Desejo, traz com Monster uma história sobre bullyng, abuso, mentiras, preconceito, aparências, amizade e descobertas. O que começa com a investigação de uma mãe sobre os abusos sofridos por seu filho de um professor, vai se tornando mais complexo à medida em que o filme retorna e reconta o que vimos sob a ótica de outros personagens. Não são exatamente outros pontos de vista, mas informações que vão se corrigindo e se somando que, ao fim, formam um panorama radicalmente diferente do início.

 

A cada vez que que a narrativa retrocede, a percepção do público quanto a determinados personagens muda, e vai ficando mais claro que todo aquele triste panorama se deve a tudo o que não é dito, resultando numa imensa bola de neve de medo e silêncio, consequências diretas do preconceito e do estigma.

 

Pode ser um pouco desconfortável para alguns perceber uma certa manipulação por parte da direção em vilanizar alguns personagens, para desfazer essa imagem logo adiante. É de fato meio manipulativo, principalmente em direção a um acentuado maniqueísmo no primeiro ato. Mas é justamente essa a proposta de Kore-eda, de desmantelar esse maniqueísmo vindo das aparências a cada novo ângulo que vai sendo apresentado. 

 

Porém, após uma experiência tão emocionante e sensível, fica a dúvida sobre qual a função do desfecho em aberto, onde o diretor fornece sugestões sobre duas possibilidades do destino dos meninos. É como se ele não tivesse tido coragem em apostar firmemente em uma visão luminosa ou numa pessimista, sombria, deixando o espectador escolher. Mas num filme que passa o tempo todo alertando sobre o julgamento por aparências, acaba parecendo meio estranho.

COTAÇÃO:


 

MONSTER (Japão – 2023)

Com: Sakura Ando, Eita Nagayama, Soya Kurokawa, Hinata Hiiragi e Mitsuki Takahata

Direção: Hirokazu Koreeda

Roteiro: Yûji Sakamoto

Fotografia: Ryûto Kondô

Montagem: Hirokazu Koreeda

Música: Ryuichi Sakamoto          

 

FILME 13: A CÉU ABERTO

Em seu primeiro longa-metragem, Mariana e Santiago Arriaga trazem a tela o primeiro roteiro escrito por seu pai Guillermo Arriaga, roteirista dos primeiros filmes de Iñarritú, e nunca filmado. Mantendo a ambientação nos anos 90, quando foi escrito, a dupla realiza este trabalho criado em família cujo tema é justamente sobre irmãos e a memória do pai, no caso, a busca pelo caminhoneiro responsável pelo acidente que o matou.

 

O roteiro, que tem muitos problemas, é trabalhado com muita inabilidade pelos diretores que falham em gerar simpatia pela empreitada claramente absurda dos irmãos. Fernando, o mais velho e "cabeça" da viagem, é particularmente mal desenvolvido e o ator não ajuda. O irmão mais novo, que estava no acidente, consegue alguma conexão melhor com o público, mas limitado pela direção não saber muito como transmitir para além dos silêncios do personagem. A simpatia maior fica para Paula, a meia irmã, enteada da mãe deles que acabou de se casar novamente, mais pelo carisma da atriz do que por qualquer outra coisa. 

 

Tudo em À Céu Aberto parece um beco sem saída. Paula é delineada como uma jovem comum que vai descobrindo uma fascinação pela violência, seja por ficar com uma faca ensanguentada que um agressor deixou para trás, seja por se divertir em matar coiotes. Mas isso não leva necessariamente a algum lugar, assim como o acidente que os irmãos sofrem em circunstâncias semelhantes à do pai, a tensão sexual dos irmãos com a recém meia irmã, a forma chocante e até meio grosseira como são filmados animais atropelados, num presságio mórbido de uma viagem cujo objetivo é a morte. Nada disso leva a algo sólido, significativo. Até o desfecho parece ser feito porque tinha que acabar em algum momento, mas, assim como os personagens, os diretores parecem não ter planejado direito o que queiram fazer. Até mesmo a música assume tons de viagem tranquila nos momentos mais inapropriados.

 

Adolescentes que têm uma péssima ideia e partem em direção a ela não é um conceito novo e já foi bem feito várias vezes. Aqui, nós vemos esses jovens numa missão que tem tudo para dar errado, mas o filme falha em fazer com que o espectador se importe. A dor e a revolta dos personagens são muito mais uma informação que o público recebe do que uma emoção que ele sente. Então quem morre mesmo no final é o filme.

COTAÇÃO:


 

A CÉU ABERTO (A Cielo Abierto, México – 2023)

Com: Julio Bracho, Manolo Cardona, Julio Cesar Cedillo, Federica Garcia e Theo Goldin

Direção: Mariana Arriaga e Santiago Arriaga

Roteiro: Guillermo Arriaga          

Fotografia: Julián Apezteguia

Montagem: Andrés Pepe Estrada             

Música: Ludovico Einaudi

 

FILME 14: HIT MAN

Com o bom humor e a leveza que lhe são tão característicos, Linklater faz uma sátira ensolarada aos filmes noir, muito levemente baseada numa história real de um professor de filosofia que acaba trabalhando como infiltrado da polícia para prender mandantes de assassinatos. É muito interessante a forma como a figura do protagonista, tanto a real quanto as personas que ele cria para cada ocorrência, é como uma ilha estética dos anos 70, enquanto tudo à volta pertence à década atual. E, como em todo noir, o que desestabiliza o protagonista é a mulher fatal, aparentemente inocente, mas que vai levantando dúvidas, nele e no público, de quanto no controle ela está.

 

Linklater faz esse caldeirão de referências de noir, Hitchcock, thriller erótico e comédia romântica, tudo num clima sempre tão leve e divertido, onde o filme nunca ridiculariza suas inspirações, temas e personagens, ao contrário, ri com eles. As aulas do protagonista vão ilustrando seus conflitos morais e éticos, assim como questões sobre a construção de si, e Linklater não perece temer soar autoexplicativo, pois o tom geral é tão despretensioso que os comentários filosóficos que o filme faz de si próprio jamais soam presunçosos. 

 

Glen Powell e Adria Arjona garantem que ninguém desgrude os olhos da tela, pois há muito tempo não se vê um casal tão sexy e engraçado.  A cena onde ele se comunica com ela escrevendo na tela do celular é apenas um exemplo da extraordinário química entre eles. Um filme adorável, hilário, sexy e ligeiramente amoral. Um dos melhores do diretor em um bom tempo.

 COTAÇÃO:


 

HIT MAN (EUA – 2023)

Com: Glen Powell, Adria Arjona, Retta, Austin Amelio e Sanjay Rao

Direção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater e Glen Powell

Fotografia: Shane F. Kelly

Montagem: Sandra Adair

Música: Graham Reynolds