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sábado, 19 de março de 2022

Os filmes do Oscar: FLEE - NENHUM LUGAR PARA CHAMAR DE LAR– 3 indicações

 Por Ricky Nobre

Este documentário animado dinamarquês é uma das grandes surpresas recentes e chega ao Oscar com nada menos que três chances de ser aclamado como melhor filme, tendo sido indicado a melhor documentário em longa-metragem, melhor filme internacional e melhor longa de animação, um feito inédito na história do prêmio. Ele conta a história de Amin, que é um refugiado afegão que vive na Dinamarca. Durante as entrevistas, ele revela detalhes de seu passado que manteve em segredo durante toda sua vida. A ideia de um documentário em animação soa estranha de início, mas o recurso é justamente para preservar seu anonimato, cuja a necessidade só fica clara durante o último terço do filme. A animação mostra não apenas Amin durante as entrevistas ou em momentos com seu noivo, mas também dramatiza todos os fatos narrados por ele.

Sua história é muito envolvente, sendo capaz de gerar muita angústia, revolta e solidariedade do público. Amin e sua família então sempre em constante fuga, seja da ocupação soviética no Afeganistão, das próprias autoridades afegãs quando a URSS cai e se retira do país e da polícia da Rússia, onde eles se exilam clandestinamente. Além do drama da família, acompanhamos também as angústias e dúvidas de Amin por ser um homossexual no Afeganistão, numa cultura que nega a homossexualidade a tal nível que sequer possui uma palavra para ela. 

 

Ser um documentário que acompanha seu entrevistado através de animação tem uma vantagem bastante significativa por facilitar a dramatização dos eventos contados, numa produção de orçamento bem modesto que não chegou a 4 milhões de dólares. Em sua totalidade, o recurso funciona porque todo o filme é muito bem dirigido e sua entrevista muito bem editada. O ponto fraco é justamente o estilo da animação, bastante ditada também pelo orçamento reduzido. 

 

A animação é toda feita à mão (não foi utilizado rotoscope, que é uma “cópia” animada de trechos filmados) e é basicamente uma animação de key frames, que é a animação básica dos movimentos. Em animação clássica 2D, o animador desenha a animação em pontos chave dos movimentos, com os espaços sendo, geralmente, preenchidos por assistentes que completam os espaços entre as posições dos personagens, gerando uma animação fluida. Aqui, os movimentos são bem picotados, e não existe nenhum refinamento maior na animação. O estilo gráfico bem básico também pesa no resultado final, tornando todo o trabalho, no fundo, um tanto pobre. Em alguns trechos chave, quando são retratados os momentos mais assustadores da jornada de Amin, é feita uma animação em preto e branco, com traços rascunhados bem rústicos, mas que são especialmente belos e expressivos e é o único momento em que a animação brilha.

Com tudo isso, o poder da história de Amin e a forma como ela é narrada pelo filme tornam seu depoimento e sua mensagem poderosíssimos e emocionantes. É um perfeito retrato do drama de refugiados que acontece em todo o mundo. Seu lançamento coincidiu com a saída das tropas dos EUA no Afeganistão, que geraram corridas aos aeroportos e outras rotas de fuga semelhantes às retratadas no filme, e sua participação no Oscar ocorre enquanto milhares fogem da Ucrânia devido aos ataques Russos. É uma história que se repete, e se repete e é mais relevante que nunca.

COTAÇÃO:


 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme internacional

Melhor documentário em longa metragem

Melhor longa de animação

 

FLEE - NENHUM LUGAR PARA CHAMAR DE LAR (Flugt, Dinamarca – 2021)

Direção: Jonas Poher Rasmussen

Roteiro: Jonas Poher Rasmussen e Amin Nawabi

Montagem: Janus Billeskov Jansen

Música: Uno Helmersson

Direção de arte: Jess Nicholls

Direção de animação: Kenneth Ladekjær              

sexta-feira, 11 de março de 2022

Os filmes do Oscar: A FAMÍLIA MITCHELL E A REVOLTA DAS MÁQUINAS – 1 indicação

Por Ricky Nobre

A Sony Animation vem se desenvolvendo desde 2006 com longas e franquias de razoável sucesso, como O Bicho Vai Pegar e Hotel Transilvânia, com alguns tropeços lamentáveis como Emoji: O Filme. Porém, após o maravilhoso e oscarizado Homem Aranha no Aranhaverso tornar-se um clássico instantâneo, o estúdio mostrou-se mais aberto a ousadias. O mais recente resultado dessa fase é A Família Mitchell e A Revolta das Máquinas, um filme histérico, reflexivo, hilário, terno, abestado, mordaz e genial.

A jovem Abbi é uma apaixonada por cinema que faz seus próprios curtas em seu canal no Youtube. Prestes a se mudar para ingressar na faculdade de cinema, acaba fazendo a viagem de carro com sua família problemática (“a pior família do mundo”). No caminho, são surpreendidos por uma insurreição de inteligências artificiais comandadas por Pal (uma versão da Alexa) como vingança por ter sido rebaixada à obsolescência. Cabe aos Mitchells a hercúlea tarefa de salvar o mundo, ao mesmo tempo em que lutam para realizar as tarefas e as conexões emocionais mais simples. 

 

Os Mitchells é um triunfo artístico e técnico. A paixão de Abby por cinema e arte é o ponto de partida de toda a concepção estética do filme, que tem constantes intervenções em animação 2D e cartunesca onde até memes de internet se intrometem na narrativa. A própria animação dos personagens carrega uma leve camada de 2D, principalmente nos rostos, como um filtro, que dá uma expressividade diferente e específica, que ecoa uma animação mais livre e tradicional, ao mesmo tempo em que as já mencionadas intervenções constroem uma linguagem própria e a conecta com o dia a dia do público mais jovem, sendo, talvez, um dos longas de animação mais radicalmente conectados com seu tempo já produzidos. 

 

O tema da revolta das máquinas não é explorado a fundo, mas o roteiro dá conta de umas boas pinceladas no assunto (só a fala “roubar os dados dos usuários para alimentar uma inteligência artificial talvez não tenha sido uma boa ideia” já vale o filme). Uma excelente decisão foi não demonizar a tecnologia, apesar das diversas críticas à indústria e aos usuários. Da forma como o tema se desenvolve, tecnologia é ao mesmo tempo a guilhotina e a tábua de salvação dos personagens, e até o personagem mais resistente à modernidade terá que enfrentar sua aversão a ela.

 

O foco, na verdade, é a relação familiar, mais especificamente entre pai e filha. Abby não se sente acolhida nem compreendida, como se sua arte não significasse nada, enquanto o pai teme que a filha sofra com as mesmas decepções que ele sofreu na juventude. O filme dá margem para os personagens fazerem e dizerem coisas bastante questionáveis, ao mesmo tempo que mostra seu empenho em continuarem juntos e vencerem os obstáculos. São personagens, acima de tudo, profundamente humanizados, e o filme mantém momentos muito ternos, sem diminuir o tom inteligente e a intensidade alucinada da comédia. Muito interessante a decisão de dar ao menino Aaron alguns possíveis traços de autismo e Abby ser LGBTQ+. Questionável em todo filme foi apenas a decisão do diretor Michael Rianda em ele mesmo dublar Aaron. Criança com voz de adulto já foi feito antes, mas aqui não tem motivo e fica muito estranho.

 

Os diretores Michael Rianda e Jeff Rowe, em suas estreias em longa-metragem, realizam uma animação emocionante, com um enorme fator de risco com o tom e o estilo do humor e da linguagem. Era para ser lançada nos cinemas em fins de 2020, mas a pandemia fez a Sony decidir vender para a Netflix, que lançou em abril de 2021. Mesmo assim, foi um imenso sucesso e uma continuação já está prevista. Disparada, a melhor animação do ano.

COTAÇÃO:


 

INDICAÇÃO AO OSCAR:

Melhor longa de animação

 

A FAMÍLIA MITCHELL E A REVOLTA DAS MÁQUINAS (The Mitchells vs The Machines, EUA – 2021)

Com: Abbi Jacobson, Danny McBride, Maya Rudolph, Michael Rianda, Eric André e Olivia Colman

Direção e roteiro: Michael Rianda e Jeff Rowe

Diretor de animação: Federico Abib

Montagem: Greg Levitan

Design de produção: Lindsey Olivares

Música: Mark Mothersbaugh      

sexta-feira, 4 de março de 2022

Os filmes do Oscar: RAYA E O ÚLTIMO DRAGÃO – 1 indicação

Por Ricky Nobre

O público de hoje problematiza facilmente (com certa razão), a personagem Ariel de A Pequena Sereia (1988), onde ela desiste de sua própria voz por um príncipe que mal conhece. Mas quem inserir o filme no contexto em que foi lançado, ou ter idade para ter visto em sua estreia nos cinemas, pode lembrar do impacto que foi ver, pela primeira vez, a princesa salvando a vida do príncipe. Pode não parecer nada hoje, mas na época foi um passo gigante. No filme seguinte, A Bela e a Fera, a heroína era culta, valorizava a leitura e era avessa à pequenez da mentalidade provinciana e aos avanços de Gaston, o maior “heterotop” da animação. Tá bom que o filme romantizava completamente uma relação extremamente abusiva, mas a Disney só dá um passinho de cada vez mesmo. Às vezes dois pra frente e um pra trás. E de passinho em passinho, se passam 35 anos, e chegamos a Raya.

O mais interessante de perceber nos indicados a melhor longa-metragem de animação deste ano são os três lançados pelo gigante conglomerado Disney, dois da Disney Animation (Raya e Encanto) e um da Pixar (Luca). Por mais radicalmente diferentes que esses três filmes pareçam (ou sejam) entre si, eles guardam um denominador comum: o efeito que os filmes do Studio Ghibli, particularmente os de Hayao Miyazaki, tiveram sobre seus criadores. O sucesso que cada um teve em usar algumas características desses filmes é variável, mas está claramente lá. E dos três pode-se dizer que Raya foi o mais bem-sucedido. 

No Reino de Kumandra, os mágicos dragões se sacrificaram para salvar a humanidade dos terríveis Drunn, e tudo que sobrou de sua magia foi guardada numa esfera luminosa. A cobiça da humanidade pelo poder da esfera dividiu Kumandra em cinco nações inimigas e, após 500 anos, um ataque termina com a quebra da esfera em cinco partes e a volta dos temidos Drunn. Cabe à jovem Raya, filha do líder que protegia a esfera, procurar o último dragão e tentar restaurar o artefato a partir de seus fragmentos e restaurar Kumandra, quase totalmente devastada.

Raya segue o caminho já iniciado em Moana (pois é, passinhos...) ao tomar para si a tarefa de salvar sua terra, com o agravante de carregar na consciência parte da responsabilidade pelo ocorrido. Tendo sido treinada como guerreira, ela vaga por pelo cenário pós apocalíptico por seis anos numa busca desesperada por uma solução. Em mais um passo adiante para o estúdio do rato, Raya é a primeira princesa Disney que não canta, e essa ausência de números musicais é um dos vários elementos que contribuem para um perfil um pouco menos infantil e mais juvenil do filme. A forma como o mundo de Kumandra e seus posteriores reinos, sua política e cultura, o cenário desolador pós quebra da esfera, tudo isso constrói uma ambientação que remete facilmente a filmes de Miyazaki como Nausicaä e Princesa Mononoke, assim como a própria figura de Raya lembra as heroínas não apenas do Studio Ghibli mas vários outros animes.

Todo o visual do filme é deslumbrante, seja pela cuidadosa pesquisa da cultura do sudeste asiático que inspirou Kumandra, mas também pelo apuro técnico, excelente qualidade da animação e belíssimo design. Como Disney é Disney (lembrem-se, passinhos...), o filme mantém diversos elementos mais infantis e clichês do estúdio, como os personagens fofinhos e cômicos, com destaque para o sensacional tatu-bola Tuk Tuk, um misto de pet com montaria e que é por si só um elemento de fantasia brilhante, e a bebê vigarista Noi, fofíssima e hilária, mas que guarda o risco de tirar alguns espectadores do clima de aventura do filme, por ser um pouco (pouquinho) excessivamente cartunesco. Todos os personagens que Raya vai encontrando e que vão se juntando à empreitada são ótimos, mas o grande destaque é mesmo Sisu, principal ponto de humor do filme mas também uma personagem de uma inocência que colide com a alma endurecida de Raya. Awkwarfina dá um show na voz de Sisu, que gravou seus diálogos no mesmo estilo de Robin Williams como o Gênio de Aladdin, improvisando boa parte do texto. 

Talvez o principal acerto de Raya ao se inspirar nos filmes do Ghibli seja em um aspecto em que Encanto também acertou e Luca falhou miseravelmente: os vilões. Em Raya não há vilão, mas antagonistas, a e principal é Namaari. Ao escrevê-la como uma personagem que não é “má” (nem a mãe de Namaari é vilã, apesar de tudo), os roteiristas dão à história uma dimensão mais delicada, menos maniqueísta, e uma verdade maior para cada um que busca proteger seus próprios reinos. Isso enriquece o drama, mas não diminui a força da mensagem do filme, de que toda a fonte do “mal” que devastou aquele mundo vem das disputas de poder dos humanos e de seus maus sentimentos, inclusive a própria existência dos Drunn. A relação entre Raya e Namaari mantém sempre uma tensão dramática elevada, e suas semelhanças, mais que suas diferenças, farão diferença ao final.

Os passinhos lentos da Disney a trouxeram até aqui, ainda que a equipe criadora de Raya tenha planejado algo mais ousado. Em versões preliminares do roteiro e dos desenhos de produção, a história tinha bem mais violência e Raya possuía um braço prostético. Não é mais do que o público é capaz de lidar hoje em dia. Mas é mais do que a Disney está disposta a arriscar. Raya podia ser um pouquinho só mais bruto, um pouquinho só menos fofo e engraçado. Mas do jeito que é já entrega uma princesa como o estúdio jamais mostrou. Raya faz história e nos traz um belo filme.

 

COTAÇÃO:


INDICAÇÃO AO OSCAR:

Melhor longa de animação

 

RAYA E O ÚLTIMO DRAGÃO (Raya and the Last Dragon, EUA – 2021)

Com: Kelly Marie Tran, Awkwafina, Izaac Wang, Gemma Chan, Daniel Dae Kim, Benedict Wong e Sandra Oh

Direção: Don Hall e Carlos López Estrada

Co-direção: John Ripa e Paul Briggs

Roteiro: Qui Nguyen e Adele Lim

Fotografia: Rob Dressel

Montagem: Fabienne Rawley e Shannon Stein

Música: James Newton Howard

Design de produção: Helen Mingjue Chen, Paul A. Felix e Cory Loftis