quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Os eslavos do sul e os vampiros reais


Por Ricky Nobre

Continuamos com nossa Semana dos Vampiros. Ontem demos uma visão geral da mitologia vampírica dos povos eslavos. Agora, nos deteremos em algumas particularidades dos eslavos de sul, na região da Albânia e da antiga Iugoslávia, cujo território compreendia os antigos países da Croácia, Bósnia e Herzegóvina, Sérvia, Eslovênia e partes da Macedônia, culminando nos dois casos de vampiros oficialmente documentados mais famosos de que se tem notícia.

É justamente na região da antiga Iugoslávia que reside a provável origem de todo o folclore em torno do vampiro eslavo. Durante a conquista cristã nos séculos IX e X, a igreja tentou reprimir essas crenças, mas se viu obrigada a absorvê-las de certa forma. Os adeptos do islamismo (concentrados na Bósnia) eram mais flexíveis a essas crenças. Diversas palavras eram usadas em cada língua para designar vampiros, como umas das prováveis origens, o termo obyrbi. Mas alguns designavam tipos de vampiros específicos. O tenatz era um vampiro original do país Montenegro e era identificado como um morto que foi possuído por espíritos malignos. Ele vagava à noite sugando o sangue de pessoas durante o sono e era capaz de se transformar em camundongo para entrar e sair de sua sepultura. Para localizar um tenatz era necessário levar um cavalo preto para o cemitério. Montado por um menino pré-púbebre ou por uma menina virgem, o cavalo seria repelido pelo túmulo onde jazia um tenatz, pois não conseguia passar por cima da cova. Identificado, o túmulo era aberto e o corpo atravessado por uma estaca e queimado. Na Albânia havia um costume semelhante, sendo que o cavalo deveria ser branco. Uma das formas de identificar um vampiro na Croácia era pela a emissão de sons de animais vindo de túmulos. Se o cadáver estivesse virado para baixo e muito inchado a ponto de esticar exageradamente a pele, então se tratava mesmo de um vampiro.

Existiram figuras análogas à strega, a bruxa sugadora de sangue, conhecida como strigoi pelos romenos. Uma variação dela em Montenegro é a vjezhtitza, uma bruxa que permanecia incógnita numa comunidade. Dizia-se que, normalmente, eram mulheres mais velhas de temperamento hostil a todos. Durante o sono, era possuída por um espírito maligno que fazia sua alma vagar pela noite. Usando o pequeno corpo de uma traça ou mosca, ele entrava nas casas e sugava o sangue dos adormecidos. Em poucos dias, as vítimas tornavam-se pálidas, fracas e febris, vindo a morrer. Acreditava-se serem especialmente poderosas na primeira metade de março. Já a shtriga, a bruxa albanesa, também assumia a forma de animais para sugar o sangue dos adormecidos. Se detectada, deveria ser seguida e, para confirmar a identidade, observar se ela vomitava o sangue ingerido. Esse sangue, se colhido, podia ser usado em amuletos contra vampirismo e bruxaria. A shtriga podia ser identificada entre os membros de uma comunidade usando o seguinte método: colocando-se uma cruz feita de ossos de porco na porta de uma igreja durante a missa, observava-se se a suspeita era impedida de passar pela porta, procurando alguma outra saída segura do templo.

A região eslava, porém, passou por um período de histeria popular em relação a vampiros. Dois casos muito estranhos foram o estopim. Em 1728 morreu Peter Plogojowitz, que morava na pequena vila de Kizolova, na Sérvia. Três dias após seu funeral, ele retornou à casa, pedindo comida ao filho, que o atendeu. Dois dias depois, voltou a visitar o filho e pedir comida que, desta vez, recusou o pedido. O filho foi encontrado morto no dia seguinte. Nos dias que se seguiram, diversos vizinhos começaram a sofrer de fraqueza, que os médicos atribuíam a uma grande perda de sangue. Essas pessoas diziam ter sido visitadas por Peter durante os sonhos, onde este mordia seus pescoços. Nove pessoas morreram nessas circunstâncias. Como naquele período a Sérvia estava sob o domínio do Império Austríaco, os relatos chegaram até o comandante das forças imperiais que, perplexo, visitou pessoalmente a região. O comandante ordenou que os túmulos de todas as vítimas fossem abertos. O corpo de Plogojowitz, porém, se apresentava diferente dos demais: de olhos abertos, Peter parecia vivo, com a carne roliça e rosto corado. Sob a pele seca que descascava, pele nova surgia. Cabelos e unhas estavam crescidos e sangue fresco manchava sua boca. O comandante, convencido que se tratava de um vampiro, ordenou que o corpo fosse atravessado com uma estaca. Com o golpe, o sangue jorrou do corpo, como numa pessoa viva. A ordem seguinte, era para que o cadáver fosse queimado. Embora as supostas vítimas de Plogojowitz não tivessem traços de vampirismo, eles foram novamente enterrados com suas covas preenchidas por alho.

Um ano antes, em 1727, Arnold Paole voltou do serviço militar que prestou no que, na época, era conhecida como Sérvia Turca. Sua cidade, Medvegia, era bem próxima da vila onde ocorreria o caso de Plogojowitz. Comprou uma fazenda e ficou noivo, mas permanecia estranhamente triste, para surpresa dos que já o conheciam e o tinham como uma figura boa e honesta. Algum tempo depois, Paole confidenciaria a sua noiva o motivo de sua apreensão: durante o tempo que esteve fora, acreditava ter sido atacado por um vampiro. Ele seguiu a criatura até seu cemitério e o matou. Acreditando que isso anularia os efeitos do vampirismo, comeu terra da sepultura do vampiro e utilizou seu sangue para cuidar do ferimento. Porém, o medo de todos os cuidados não terem sido suficientes permanecia. Uma semana depois, Paole morreu em um acidente.

Semanas após seu funeral, diversas pessoas começaram a afirmar terem visto Paole. Quando quatro dessas pessoas apareceram mortas, o pânico se espalhou pela cidade. Tentando controlar os acontecimentos e o clamor popular, as autoridades locais ordenaram a abertura do caixão de Arnold Paole, quarenta dias após sua morte. Os dois cirurgiões militares que acompanharam o procedimento encontraram o corpo em estado semelhante ao de Plogojowitz: rosto corado, pele nova por baixo de uma pele seca que descascava, unhas crescidas. Ao perfurarem o corpo, o sangue fluía. Ao concluírem ser um vampiro, trataram de mata-lo. Ao esfaquearem o corpo, Arnold soltou um forte gemido, sendo depois decapitado e queimado. As quatro supostas vítimas de Paole não receberam a mesma condescendência que as de Plogojowitz tiveram: seus corpos também foram decapitados e queimados.

Tudo foi dado por encerrado até 1731, quando mais 17 pessoas da cidade morreram com sintomas de vampirismo. A dúvida permanecia, até que uma menina afirmou ter sido atacada durante a noite por Milo, um homem falecido dias antes. A situação exigiu a atenção de Carlos VI (imperador do Sacro Império Romano-Germânico, do qual a Áustria, que dominava a Sérvia, era o principal reino) que instaurou um inquérito, nomeando como responsável o cirurgião do Regimento de Campo Johannes Flucklinger. Este chegou à Medvegia, começou as investigações, terminando por abrir a sepultura de Milo. Para horror de todos, o corpo de Milo estava em estado idêntico ao de Paole, levando a conclusão de que um novo vampiro atacara. Após destruírem o corpo de Milo, Flucklinger tratou de descobrir como um novo surto de vampirismo pode acontecer após a destruição de Arnold Paole. Uma suposição tornou-se oficial: Paole teria sugado o sangue de diversas vacas em fazendas locais. Os que comeram da carne delas teriam se tornado vampiros. Flucklinger ordenou que todos os túmulos recentes fossem abertos para investigação. Das 40 covas abertas, 17 continham corpos com aparência vampírica. Não por coincidência, 17 eram os mortos com sintomas de vampirismo. Esses corpos foram esfaqueados e queimados, e um relatório completo foi enviado a Viena para apreciação do imperador em 1732. Logo em seguida, esse mesmo relatório foi publicado e tornou-se um best seller, atraindo as atenções de toda a Europa para a região eslava.

O assunto chegou às universidades alemãs, onde grandes discussões foram travadas sob a possibilidade real da existência de vampiros. Dez anos mais tarde, a maioria concordou que isso não era possível. O assunto continuou chamando a atenção de estudiosos, como o francês Dom Augustin Calmet, acadêmico católico que reuniu uma longa pesquisa sobre os casos de vampirismo em um livro que também se tornou sucesso de vendas na Europa. Sua obra, porém, serviu para disseminar uma confusão que desviou a atenção popular da Sérvia e dos povos eslavos para a Hungria. Como a Sérvia sob domínio austríaco havia sido incorporada à província húngara, este ficou com fama de “lar dos vampiros” mesmo que a Hungria jamais tivesse qualquer tradição e folclore a respeito destes seres. Calmet, apesar do sucesso popular de seus livros, foi ridicularizado tanto por intelectuais quanto por religiosos por ter levado os vampiros a sério. Mesmo estabelecendo um olhar crítico severo sobre os relatos, ele não conclui expressamente que estes eram falsos, abrindo claramente a possibilidade de serem reais.

As reações oficiais aos surtos vampíricos passaram a ser mais severas. Na década de 1750, a imperatriz Maria Tereza criminalizou a profanação de túmulos, deixando a punição com as autoridades seculares, em vez das religiosas. Enquanto isso, as Igrejas da Sérvia e de Montenegro ameaçavam de excomunhão os padres que auxiliassem as mortes de supostos vampiros, já que se acreditava que os serviços fúnebres, incluindo as preces, deveriam ser repetidos durante a morte do vampiro para que a alma encontrasse paz.

Voltaremos amanhã! Um abraço noturno!

2 comentários:

Nanael Soubaim disse...

Ah, claro! Aconteceu, houve testemunhos idôneos e até ilustres, mas é impossível então sequer levantaremos nossas buzanfas das cadeiras, faremos aqui mesmo, no conforto e na segurança, uma declaração de que estão todos loucos, exceto nós, os HOMENS DA CIÊNCIA.

ana.bianogueira disse...

Ah, e vai querer sair por ai fazendo o que? caçando vampiros? seria engraçado... Não moreriam mais de tedio. Estou pagando pra ver.