domingo, 12 de março de 2023

Os filmes do Oscar: OS FABELMANS – 7 indicações

Por Ricky Nobre

Filmes como 8 ½ de Fellini ou A Noite Americana de Truffaut costumavam ser casos raros de cineastas refletindo sobre sua própria arte e como isso ressoa em suas vidas. Wes Craven chegou a fazer isso em certo aspecto no subestimado O Novo Pesadelo, onde Freddy Krueger vem para o mundo real. Neste último ano, porém, Iñárritu lançou Bardo, e até mesmo Kevin Smith mergulhou nas origens de sua peculiar carreira em O Balconista 3. E, é claro, teve Spielberg. “Apenas aos 74 anos eu me senti capaz de contar essa história”, declarou ele na divulgação do filme. Mas o que poderia ser tão delicado em um filme onde um cineasta septuagenário recorda a época onde ele fazia filmes em super8 com os amigos da escola? O que havia de tão difícil em mostrar como ele era apenas um menino que não largava a câmera e sonhava em fazer grandes filmes? Mas o filme não se chama “Sammy e sua Câmera”, mas sim Os Fabelmans. É um filme sobre sua família e sobre coisas que ele jamais contou. É sobre seu pai e, principalmente, sua mãe. Em sua carreira, Spielberg muito raramente recorreu a violência extrema. Mas aqui ele espalha suas tripas pela tela. Ele se abre completamente em muitos sentidos e nos convida a viver isso com ele.

 

Na primeira vez que os pais do pequeno Sammy (o alter ego do diretor) o levam ao cinema, o pai explica com todos os pormenores a ciência por trás das imagens em movimento, sobre persistência retiniana, até que a mãe interrompe dizendo: “filmes são sonhos”. Spielberg era filho de um engenheiro pioneiro em grandes avanços na informática e de uma pianista clássica, e sempre foi algo comentado na imprensa como seus filmes, a partir desta origem, eram uma junção de tecnologia de ponta e sensibilidade artística, e Spielberg não se acanha em salientar essas influências em diversos momentos. O que torna o filme tão fascinante e emocionante é como os primeiros passos do protagonista como cineasta amador e o relacionamento familiar são elementos indissociáveis.

 

A mãe é apresentada como a grande incentivadora e, conforme o menino vai fazendo seus filmes, se mostra algo como sua fã número 1, a que mais se emociona. Ele também recebe apoio do pai, mas é um apoio limitado, pois ele constantemente o lembra de que é um hobby, não é algo sério, não é um futuro, enquanto Sammy tem total clareza de que quer fazer aquilo para o resto da vida. Mas o pai insiste que ele faça “algo real, não imaginário, algo que as pessoas possam usar”, onde Spielberg faz um inesperado aceno ao conceito da inutilidade da arte de Heidegger. Mais adiante, em uma visita inesperada, seu tio lhe abre os olhos: arte te consome. Seu tempo, sua vida, sua alma. E arte é uma escolha, e é uma escolha difícil. Sua mãe tinha o talento de ser uma pianista aclamada, mas ela escolheu a família (quando o marido sugere que ela volte a tocar na TV ela diz que isso foi “há duas filhas atrás”). O tio lhe apresenta uma realidade onde se dedicar à arte e satisfazer a família são realidades inconciliáveis, e ele levaria um tempo até compreender aquilo.

 

Desde que o pequeno Sammy viu um acidente de trem no cinema e tentou reproduzir em casa, numa obsessão de controlar o que o assustava, ele se acostumou a usar o cinema como esse instrumento de controle do seu ambiente. Porém ele descobre que esse controle não é absoluto. Ao editar um filme de acampamento familiar, ele percebe por suas filmagens que a mãe está apaixonada pelo melhor amigo do pai. Ele mesmo filmou as cenas, mas ele não viu na hora, mesmo testemunhando ao vivo. Não é um grande flagrante de um caso tórrido. São toques de mãos, um sorriso, um olhar. São verdades que só se relevam através do filme, pois é através do registro dessas imagens em movimento que ele consegue interagir com a vida. Todo o seu mundo passa necessariamente pelo cinema. Esse controle que ele tenta manter de tudo se mostra mais uma vez fugaz quando, após a exibição de um filme de praia, o rapaz que o perseguia na escola fica profundamente incomodado com a forma que foi retratado no filme, apesar de ter sido de forma muito elogiosa. Sam diz que não tinha a intenção de perturbá-lo, ao que o rapaz responde “quem liga pra sua intenção?”. Ali ele começa a descobrir que pode controlar o filme, mas não a forma que ele é visto, numa alusão à “morte do autor” de Barthes. 

 

É belíssima a delicadeza do olhar de Spielberg com sua família, principalmente seus pais. Em como ele acolhe a mãe e jamais a julga, embora, no filme, o Sam rapaz o faça inicialmente. Em como ele mostra uma família onde, mesmo nos momentos mais difíceis, o amor é sempre intenso, e nisso, a forma com que ele mostra o pai é muito doce. No momento familiar mais dramático, todos interagem, questionam, choram, brigam, gritam. Ele assiste, sentado na escada, enquanto um Sam imaginário passa pelo espelho filmando tudo, mais uma vez pontuando sua dificuldade em se relacionar com a vida diretamente. Sua realidade é através da câmera. Para quem está familiarizado com sua filmografia, é impossível desassociar essas cenas de momentos específicos de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, ou E.T., ou mesmo o terceiro Indiana Jones. Spielberg começou a contar essa história há muito tempo. 

 

Os Fablemans é amor do primeiro ao último frame. À arte, à família, aos sonhos de juventude. Amor que resiste e vence sempre, mesmo que a vida não saia como imaginamos, pois é justamente nesses momentos que o amor nos salva. Com uma sinceridade profunda, Spielberg consegue fazer um trabalho absolutamente íntimo sem em momento algum soar egoico ou autoindulgente. O final, onde ele conhece um John Ford maravilhosamente interpretado por David Lynch, é o perfeito toque final nessa preciosidade que ele escolheu compartilhar conosco. Porém, mesmo ali, permanece o questionamento: “Por que quer fazer filmes? Esse negócio vai te destroçar”, alerta Ford. Mas é assim que ele lida com a vida. Os Fabelmans é um filme absolutamente emocionante, delicado e encantador. E ainda tem o melhor take final da história do cinema.

COTAÇÃO:


 

INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Diretor: Steven Spielberg

Atriz: Michelle Williams

Ator coadjuvante: Judd Hirsch

Roteiro original: Steven Spielberg e Tony Kushner

Música original: John Williams

Design de produção: Rick Carter e Karen O'Hara

 

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