quarta-feira, 17 de maio de 2017

REI ARTHUR: A LENDA DA ESPADA

 


Gangsta Arthur e Uma Espada Fumegante
Por Ricky Nobre

Guy Ritchie tem uma coisa meio Tarantino. Ele impõe seu estilo pessoal, super cool, barra-pesada-cult no que quer que ele faça. Enquanto Tarantino mantém-se confortável com seu nome-marca, uma espécie de selo que garante a seu público cativo que ele verá aquilo de sempre, mesmo que sem a qualidade de antes, Ritchie tenta sobreviver no mainstream de Hollywood diversificando sem mudar. Sua fase inglesa inicial, com Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch: Porcos e Diamantes, estabeleceu o estilo esperto e ágil de contar histórias de malandros de rua e gangsters com violência e bom humor. Sua proposta de um Sherlock Holmes durão, onde Robert Downey Jr. apresenta mais uma excelente interpretação de Tony Stark, foi um grande sucesso de público, gerando uma continuação e a possibilidade de um terceiro filme em breve. Assim como o grande detetive da literatura ganhou uma versão abrutalhada e cool, outro grande clássico britânico recebeu tratamento semelhante do cineasta: Rei Arthur.

 

Não espere do roteiro qualquer semelhança com quaisquer outros filmes já feitos sobre as lendas de Arthur. Apenas alguns nomes e a própria espada Excalibur estão presentes para justificar o nome do herói no título, que continua despertando o imaginário popular após tantos séculos. Aqui, Arthur (Charlie Hunnam) é o herdeiro do trono inglês que acabou sendo criado num bordel (do qual se tornou dono) após um golpe de estado aplicado por seu tio (Jude Law). Porém, muito mais difícil do que se descobrir o herdeiro legítimo do trono é aceitar sua identidade, seu destino e sua relação com Excalibur, sendo o mundo bruto das ruas o que ele entende por lar, e sua motivação será mais por vingança do que por desejo de poder. Falando assim, parece bem interessante. E deveria ser.

 

Rei Arthur sofre do mal do "filme-conceito". Ele de fato foi vendido para o estúdio como "Senhor dos Anéis encontra Snatch". E esse conceito, que certamente daria um fanfilm engraçadíssimo, não sobrevive às exigências de um filme mais épico ou dramático. Vários diálogos e sequências-de-montagem parecem retiradas diretamente dos primeiros filmes de Ritchie. A escala épica fica por conta dos efeitos especiais e seres monstruosos, seguindo a linha das interpretações das lendas onde a magia é um ponto central. A proposta de um híbrido de fantasia medieval com malandragem urbana não gera novidade relevante além do óbvio contraste que se vê na tela. Enquanto fantasia é ralo, com ares de blockbuster padrão, com muita destruição e barulho; enquanto “filme de Guy Ritchie”, não apresenta novidades, assemelhando-se quase a uma paródia que por vezes se intromete na narrativa. 

 

Cabe à simpatia e gosto pessoal do espectador aceitar o Arthur sujão da rua com tintas fortemente contemporâneas em meio a magos, bruxas e monstros num ambiente medieval. Mesmo assim, é preciso não ter maiores expectativas quanto a originalidade e emoção, que é rara. Uma boa ajuda para apreciar o filme é evitar a tenebrosa conversão para 3D. Além de irrelevante para o filme, tem péssimo efeito na fotografia muitas vezes escura e constantemente dessaturada, tendo o problema agravado na maioria de nossas salas de projeção onde a luminosidade das lâmpadas dos projetores são diminuídas para economizar energia. O plano da Warner é uma franquia de seis filmes, e a grande questão é se existirá fôlego para isso tudo. O juiz será o público e a quantidade de dinheiro que ele colocar nas bilheterias. E aguardem o próximo projeto de Ritchie, onde ele comandará mais uma adaptação live-action de uma animação clássica da Disney. Segundo o próprio Ritchie, será sobre o maior malandro de rua de todos: Alladin. 




REI ARTHUR: A LENDA DA ESPADA

Com: Charlie Hunnam, Astrid Bergès-Frisbey, Jude Law, Djimon Hounsou, Eric Bana e Aidan Gillen.
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Joby Harold, Guy Ritchie e Lionel Wigram
Fotografia: John Mathieson
Montagem: James Herbert
Música: Daniel Pemberton


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