quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

BATEM À PORTA

Por Ricky Nobre

Shyamalan é um sobrevivente. Ele deslumbrou o mundo e tornou-se a maior promessa de Hollywood no fim dos anos 90 com O Sexto Sentido e, desde então, adquiriu uma legião de fãs e de detratores. Com exceção de O Último Mestre do Ar (que, aparentemente é uma unanimidade negativa tanto quanto O Sexto Sentido é uma unanimidade positiva), seus filmes colecionam louvores e escárnios (o muito criticado Fim dos Tempos foi recentemente redescoberto como uma obra incompreendida), dando a ele uma marca de cineasta divisivo. Mesmo assim, ele segue produzindo, jamais perdendo sua viabilidade comercial, a qual ele, espertamente, mantém com projetos de orçamentos razoavelmente baixos. Batem à Porta com certeza será mais uma dessas obras a reunirem os mais rasgados elogios e os mais ferozes ataques. 

 

À primeira vista, Shyamalan parece querer estabelecer a civilização como tema do filme. Os “visitantes” se revelam muito rapidamente como uma clara ameaça, já evidente da forma como é filmada a massiva diferença de tamanho entre a pequena Wen e Leonard (Bautista, excelente). Ainda assim, os diálogos propõem uma interação altamente “civilizada”, onde o perigo eminente se entranha em meio a conversas extremamente educadas. A forma como a agressividade e a violência perfuram essa camada de cordialidade vai dando o tom do filme. O motor principal de toda a trama, entretanto, é um artifício que se encontra com frequência na filmografia do diretor: uma premissa fantástica, do campo do inexplicável que, na linha de Sinais, irá testar a fé dos personagens.

 

A forma como esse artifício de roteiro é concebido e apresentado não pode ser levianamente encarado como uma falha. Ele foi cuidadosamente construído para desafiar qualquer lógica racional, para não haver o perigo dos personagens acreditarem porque “faz sentido”, pois a razão não faz parte dele. É deliberadamente absurdo e, ao desenrolar dos acontecimentos, os personagens reféns daquela situação oscilam entre encontrar a razão por trás de tudo e a crença e aceitação diante do absurdo. Tudo se encaminha em direção a apenas duas possibilidades: ou tudo é verdade ou nada é. O suspense magistralmente construído pelo diretor está não apenas no temor imediato sobre a segurança dos personagens, numa excelência hitchcockiana, mais também, e principalmente, na expectativa da revelação final de se estamos diante da razão ou do absurdo.

 

Existe, porém, uma armadilha nesse artifício que paira como um fantasma durante todo o filme e que pode afetar a aceitação do público perante as verdades emocionais tão efusivamente transmitidas pelos personagens, principalmente dos invasores. Existe algo de excessivamente primário na situação proposta, pois nada mais velho do que a questão “do que você seria capaz para salvar o mundo”. O absurdo da situação, porém, rebaixa a questão para algo tão pedestre e estúpido quanto alguém que pergunta ao companheiro se “você me amaria se eu fosse uma minhoca?”, esperando uma resposta racional diante disso. Porém, é consistente na filmografia de Shyamalan que esses artifícios, por vezes bastante inventivos, fascinantes ou irracionais, não são, de fato, o cerne de seus filmes, e sim para onde essas situações levam seus personagens. O roteiro que, por um lado, é extremamente cuidadoso com a lapidação de seus personagens e seus diálogos, aos quais o elenco responde extremamente bem, também abandona certos cuidados lógicos sobre grandes eventos se desenrolando em questão de segundos, o que pode se somar bem ao absurdo da premissa, mas também pode levar a pistas falsas, as quais Shyamalan parece deliberadamente ignorar. Mais importante para ele é demarcar bem o quanto os personagens dos invasores têm uma inabalável fé no que estão fazendo, retratando-as como pessoas comuns às quais foi dada uma tarefa horrenda e imperativa, o que é muitíssimo bem realizado.

 

A relação do público com Batem à Porta vai depender muito do quanto a construção narrativa é eficaz e fascinante o suficiente para se sobrepor a qualquer subtexto que a trajetória dos personagens e a resolução de tudo venha a ter, e ao quão relevante esse mesmo subtexto venha a ser. Da mesma forma que Wen, como uma pequena cientista, coleta gafanhotos numa jarra, os observa e anota, o que parece ser relevante para Shyamalan é reunir aquelas sete pessoas numa cabana e observá-las, anotando sobre o que nossa civilização, marcada pelo medo, preconceito, amor, violência, abnegação, egoísmo e fé, é capaz.

COTAÇÃO:


 


BATEM À PORTA (Knock at the Cabin, EUA/China – 2023)

Com: Dave Bautista, Jonathan Groff, Ben Aldridge, Nikki Amuka-Bird, Rupert Grint,  Abby Quinn e Kristen Cui.

Direção: M. Night Shyamalan     

Roteiro: M. Night Shyamalan, Steve Desmond e Michael Sherman, baseado no livro de Paul Tremblay

Fotografia: Jarin Blaschke e Lowell A. Meyer

Montagem: Noemi Katharina Preiswerk

Música: Herdís Stefánsdóttir

Design de produção: Naaman Marshall

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