terça-feira, 17 de outubro de 2017

BLADE RUNNER 2049

Por Ricky Nobre 



Alguns filmes estão longe de serem uma unanimidade, mas são clássicos no mais completo sentido da palavra. O lugar de Blade Runner (1982) na história do cinema não veio instantaneamente e a saga do filme é conhecida. Insatisfeita com o resultado final após uma exibição teste, a Warner tirou o filme do controle do diretor Ridley Scott e do produtor Michael Deeley e promoveu uma série de alterações, principalmente uma narração tola e desnecessária, onde o personagem Deckard ia explicando ao público o que ia acontecendo, e um final feliz postiço, costurado com refilmagens de última hora e imagens de arquivo rodadas para O Iluminado de Kubrick, dois anos antes. Não adiantou. A produção de 28 milhões de dólares arrecadou pouco mais de 30 milhões mundialmente, sendo que a versão internacional era um pouco mais violenta que a americana. Embora ele não pretendesse ser um grande filme de ação no sentido estrito, ele foi vendido desta forma, e o público não gostou. Mas era o início da década de 80 e o formato VHS estava em ascensão, o que permitiu ao filme ser redescoberto como uma ficção científica mais sofisticada, tanto na temática quanto na estética, tornando-se um fenômeno cult e o primeiro grande filme da estética e estilo cyberpunk, dando a Hollywood o primeiro lampejo do poder do mercado de home vídeo de salvar um investimento. 

 

Desde então, Blade Runner é considerado um dos grandes clássicos da história do cinema. Em 1991, a cópia usada na exibição teste original foi parar acidentalmente num festival, e a ausência de narração e do “final feliz” fez enorme sucesso e foi parar em outros festivais. Ciente do sucesso, a Warner deu sinal verde para uma “versão do diretor”, o que trouxe o filme mais perto da visão original, apesar de Scott não ter podido supervisionar o trabalho na época. Apenas em 2007 ele lançou sua “versão final” que, entre dezenas de pequenos ajustes, também incluía uma questionável e radical mudança na paleta de cores do filme. Todas essas cinco versões foram lançadas em boxes de DVD e Bluray.

 

Originalmente concebido como um film noir futurístico, com uma direção de arte e figurinos que evocavam os anos 40 e com paisagens urbanas inspiradas em Metropolis (1926), Blade Runner sempre foi motivo de discussão quanto a seus temas envolvendo inteligência artificial, escravidão, o direito à vida, entre outros, inclusive o quanto suas qualidades temáticas e estéticas compensavam o desenvolvimento limitado de seus personagens e suas relações. Especulações sobre uma continuação foram comuns ao longo do tempo, mas se concretizaram apenas na forma de dois livros, e a ideia de um Blade Runner 2 sempre pareceu tão estúpida quando uma continuação de E.T., Casablanca ou Taxi Driver. Inicialmente pensado para Christopher Nolan, o projeto passou para o próprio Ridley Scott que, após desenvolver o roteiro com Hampton Fancher (um dos roteiristas originais) e Michael Green, decidiu se dedicar Alien Covenant e atuar apenas como produtor. Entra em cena Denis Villeneuve, que nos trouxe o sensacional A Chegada, talvez a melhor ficção científica da década, e é o responsável pelo novo projeto de levar toda a saga de Duna aos cinemas. Nas mãos de Villeneuve, a ideia estúpida torna-se um evento aguardando com imensa ansiedade por fãs de cinema de todo o mundo. 

 

Em 2049, trinta anos após os eventos do filme original, os replicantes são muito mais confiáveis e controláveis, tornando-se parte corriqueira da vida diária. Apenas modelos antigos foragidos são caçados por blade runners. K (Ryan Goslin) é um blade runner que encontra uma ossada de uma replicante que, segundo a perícia, deu a luz antes de morrer. Sua superior Tenente Joshi (Robin Wright) acredita que a notícia de que um replicante foi capaz de procriar causará uma convulsão social e ordena que K descubra se esse replicante “nascido” existe e, se for o caso, o mate. Paralelamente, o magnata que controla a produção de replicantes Niander Wallace (Jared Leto) quer encontrar o replicante antes de K para estuda-lo, numa investigação que pode levar o blade runner a segredos do seu próprio passado.

 

Se a natureza de Rick Deckard é até hoje objeto de discussão, a escolha de apresentar K como um replicante já na primeira cena serve como um meio de trazer, logo de início, o público para o lado daqueles que foram os “vilões” do filme original. A Tenente Joshi não possui o menor constrangimento em falar da inferioridade dos replicantes e do quanto a manutenção dessa relação é imperativa para a “ordem social”, tudo ali, em conversas diretas com K, como se ele realmente fosse um objeto incapaz de sentir ofendido. Na rua e no próprio prédio onde mora, K ouve estoicamente incessantes ofensas por ser quem é. Em casa, porém, ele encontra afeto e conforto em sua relação com Joi, inteligência artificial cuja imagem é holograficamente projetada, criada para se tornar a companheira que o usuário quiser. Há uma clara “hierarquia evolutiva” que separa Joi, com sua programação binária clássica, de K, com programação quaternária mais complexa. Os dois são produtos, criados para fins específicos, e ainda que se possa considerar que o afeto de Joi seja uma simulação prevista por programação, este apenas se torna mais intenso e “palpável” à medida em que o filme avança; mas, acima de tudo, é um afeto intenso e recíproco que supera quaisquer diferenças entre o “superior” e o “inferior”. Criados para serem escravos, eles têm, ao fim das contas, apenas um ao outro.

 

Em determinado ponto, Wallace sugere que a sociedade encontrou nos replicantes uma forma de escravizar sem os dilemas morais que acompanham a prática. Mais preciso seria afirmar que os replicantes, que são essencialmente clones humanos com cérebros programáveis, são uma nova forma de fazer o que sempre se fez para manter um grupo escravizado: desumanizá-los. Desta forma, temos os replicantes como centros emotivos do filme, enquanto os humanos parecem, invariavelmente, cruéis; tanto que continuam escravizando os seus, como K descobre ao localizar um campo de trabalho infantil. Nesse aspecto, um dos principais problemas do filme é a forma caricata e histriônica com que o personagem Wallace foi escrito, ainda que seja tentador pôr toda a culpa na interpretação de Jared Leto (mais uma vez, pagando o mesmo pato que já pagara com seu Coringa). 

 

É difícil não imaginar que o filme esteja realmente em melhores mãos do que estaria com Ridley Scott, a julgar por sua filmografia recente. Villeneuve imprime sua própria identidade e ritmo ao filme. Seus 164 minutos não são abarrotados nem de ação nem de informações objetivas. Não há pressa em apresentar personagens, ambientes, fatos e a própria investigação. Villeneuve sai do ambiente urbano caótico que marcou o filme original e se desloca para cenários mais remotos, abertos e desertos, expandindo a noção de um mundo que, de fato, passou por algum tipo de apocalipse, arrasado e repleto de excluídos, justificando a produção em massa de replicantes para trabalhar na colonização de outros planetas. A belíssima fotografia de Roger Deakins constrói essa desolação das paisagens e enfatiza a solidão de K. 

 

Uma coisa surpreendente em um filme que procura ser o máximo que pode uma obra íntegra, é a impressionante quantidade de fanservice! O filme original é constantemente referenciado (e reverenciado!) nas mais variadas formas, das mais expressivas às mais sutis. Correndo enorme risco, o filme tenta ser perfeitamente absorvido por um novo público que sequer viu o original, ao mesmo tempo em que faz inúmeras conexões com o original, onde os dois filmes podem ser vistos como uma obra única. Nesse caldeirão de referências, a música de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch citam constantemente os temas e o estilo de Vangelis, ainda que, na maior parte do tempo, sigam seu estilo comum, que é a da música que soa como sound design, que é o estilo preferido de Villeneuve, vide suas colaborações anteriores com Johann Johannson. 

 

Seguindo a dubiedade do primeiro filme, existem sugestões na trama que, mais uma vez, deixam dúvida sobre a velha pergunta de se Deckard é ou não replicante. Dependendo de como o espectador interpreta essas sugestões, pode ocorrer uma certa irritação quanto ao que pode ser considerado “retcon” (continuidade retroativa, ou seja, alterar fatos já estabelecidos em obra anterior), mas, como já foi dito, são apenas possibilidades que o filme abre. Os efeitos especiais, excelentes em praticamente todo o filme, dão uma feia escorregada quando trazem de volta um personagem clássico do filme original, numa recriação tão engessada, fria e inexpressiva, que acaba drenando toda a emoção de uma cena que deveria ser impactante, ainda que Harrison Ford tenha dado o melhor de si nela. 


 Blade Runner 2049 não é um filme perfeito, mas é infinitamente melhor do que se poderia esperar de uma continuação tão tardia de uma obra tão clássica. Provavelmente é o maior hiato que já existiu entre uma parte 1 e uma parte 2. Foram 35 anos que Blade Runner teve para ser descoberto, redescoberto, interpretado, relançado, reeditado, discutido, idolatrado, questionado e, principalmente, reassistido. Sua tardia sequencia também terá anos para ser debatida, uma vez que, desde sua estreia, já possui fervorosos fãs e indignados críticos, que ao longo dos anos discutirão se Joi é mesmo a personagem virtual mais adorável da ficção científica; se Ryan Goslin tem mesmo o carisma de um chuchu ou se é apenas um ator com estilo minimalista que casa perfeitamente com seu personagem; se o Deckard septuagenário briga muito melhor do que no filme original onde ele praticamente só apanhava; se o filme carece de uma interpretação tão boa quanto a de Rutger Hauer e de um diálogo tão icônico quanto o de sua última cena; se as questões e temáticas levantadas pelo filme original foram realmente trabalhadas de forma tão mais profunda na obra de 1982 do que foram as do filme de 2017. Ou se em 2052, daqui a 35 anos, farão outro filme com a brecha aberta com o final deste. Ou daqui a 2 anos. Ou nunca. Blade Runner 2049 segue os passos do filme original ao fracassar nas bilheterias americanas. Mas segue a tendência deste ano, ao se sair substancialmente melhor no mercado externo. Amado ou odiado, o novo Blade Runner ousou seguir os passos do original ao não ser concebido como um blockbuster de verão, mas como uma ficção científica de verdade. 


BLADE RUNNER 2049 (EUA, 2017) 
Com: Ryan Goslin, Harrison Ford, Ana de Armas, Robin Wright, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Mackenzie Davis e Carla Juri 
Direção: Denis Villeneuve 
Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green 
Fotografia: Roger Deakins  
Montagem: Joe Walker 
Música: Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch

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