quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Os filmes do Oscar: THE POST: A GUERRA SECRETA – duas indicações


Por Ricky Nobre



Os filmes de Steven Spielberg com conteúdo político são invariavelmente baseados em fatos reais, como foi o caso de Munique (2005), Lincoln (2012) e Ponte dos Espiões (2015). Se dentre estes apenas Munique foi um grande filme, os demais mantinham não apenas a competência e a relevância, mas também a sempre impecável narrativa de Spielberg. Seu mais recente trabalho, The Post, chega com uma particularidade. Ao propor mostrar sobre os famosos “pentagon papers”, uma vasta pesquisa secreta de 14 mil páginas que mostra, dentre incontáveis evidências de manipulação da opinião pública, que já da década de 50 o governo sabia que uma possível guerra com o Vietnam seria algo impossível de vencer, Spielberg viu muitas similaridades com o atual governo Trump e esta era de “pós-verdade”. Ele interrompeu a produção de seu próximo blockbuster Jogador Nº1 logo após o fim das filmagens, para apressar a produção de The Post, e todo o processo, desde a pré produção até a finalização demorou apenas sete meses. Essa ânsia por lançá-lo rápido, no afã do cenário político atual, teve seu preço.

 

O New York Times foi o jornal que primeiro publicou sobre os documentos vazados e, consequentemente, que encarou um processo de censura vindo da Casa Branca. Mas não é nele que o filme se concentra. Por isso, o próprio NYT se posicionou de forma crítica ao filme, dissonando dos elogios quase unânimes, dizendo que o filme, para protestar nessa época de fake News, estava disseminando fake news ele mesmo. Compreensível. Mas isso é uma interpretação míope sobre do que o filme trata.

 

Em 1971, o Washington Post era um jornal local em dificuldades financeiras e estava prestes a abrir seu capital na bolsa. Ao aparecer a oportunidade de publicar os documentos e as mentiras que o governo vinha dizendo à população a décadas, a dona do jornal Kay Graham (Meryl Streep) se vê num dilema que pode destruir sua empresa, enquanto o editor Ben Bradlee (Tom Hanks, menos bom moço do que o habitual) faz de tudo para pôr a história na primeira página. 

 

Ao escolher falar do Washington Post em vez do NYT, o roteiro de Liz Hannah e Josh Singer fala da ousadia e do sacrifício de quem tem muito a perder. O NYT era um grande jornal de circulação nacional e, por mais danosa que pudesse ser uma sanção do governo, ele não corria perigo de ser destruído. Já o jornal da Sra Graham podia falir e sobre ela, mulher empresária naquela época, recairia a culpa de destruir tudo o que o marido e o pai construíram. O filme de Spielberg não nega que o grande furo foi no Times. Mas ele trata dos que tiveram coragem de segui-lo sabendo da reação do governo Nixon.

 

Esteticamente, o filme segue o visual dos anos 70 e, sendo sua última cena idêntica ao início de Todos os Homens do Presidente (1976), The Post pode até ser visto como um prequel do filme de Alan Pakula. A narrativa, porém, apesar de correta e precisa, em nada se destaca entre a filmografia de Spielberg. Apesar do ótimo elenco, os personagens são meros acessórios à trama, algo incomum para o diretor. Apenas a personagem de Streep tem o mínimo de desenvolvimento, ainda assim, apenas o necessário para deixar claro o quanto que ela tinha a perder.

 

Talvez apenas dois momentos se destaquem do panorama comum. Um é onde Spielberg se detém no processo praticamente artesanal com que os profissonais da tipografia montavam um jornal diariamente na época. Spielberg é um cineasta que até hoje roda seus filmes exclusivamente em película e Michael Khan, seu editor fiel desde 1977, já octogenário, monta os filmes em moviola, cortando e colando manualmente os pedaços de filme, coisa que ninguém faz a mais de 20 anos. Apesar de ter trazido para o cinema as mais modernas tecnologias digitais, Spielberg ainda é um artista analógico, que gosta de pegar no que trabalha, e essa fascinação pode ser vista nas cenas do jornal sendo montado.
Outro momento, bem sutil, é quando uma multidão de repórteres e cidadãos se aglomera em volta dos editores do NYT na saída do tribunal federal. Kay Graham sai pelo canto, praticamente incógnita, uma vez que seu jornal não é a estrela do julgamento. Mas conforme ela vai descendo as escadas, as pessoas atrás dela começam a se virar uma a uma para vê-la passar. São todas mulheres, todas jovens. Como um tributo, um reconhecimento pela coragem e ousadia. Como dizendo “você não está invisível”. 

 

Sem uma narrativa especialmente elaborada ou personagens memoráveis, The Post não vai além de cumprir o seu papel em lembrar um momento da História americana quando ele mais precisa ser lembrado. Daí devem vir os louvores da crítica em geral, provando que Spielberg estava certo em querer lançar o filme o mais rápido possível. Ele mesmo (que fez o filme inteiro sem storyboards e improvisou tudo no momento das filmagens) diz que o filme não ficaria tão bom se tivesse tido mais tempo, pois sua urgência em filmar refletiu na urgência dos personagens naquele momento. É uma declaração discutível. É difícil imaginar que o filme não se beneficiaria de uma narrativa mais planejada. 

 

The Post, como muitos outros filmes do diretor, deixa uma mensagem otimista e fiel aos valores democráticos que os EUA acreditam ter. Nada do olhar questionador de Munique, mas algo mais perto de Amistad e Lincoln. Ao nos lembrar dos valores, da missão e da liberdade de imprensa na vida de uma nação, Spielberg deixa uma impressão de ingenuidade ao parecer desconsiderar todos os interesses coorporativos que os grandes conglomerados de mídia tem hoje. Ou talvez, ao mostrar a luta de um jornal menor, que arriscou a falência para publicar a verdade, esteja dizendo que precisamos de mais, menores e melhores veículos de comunicação. O que pode mostrar que Spielberg, em seus dias menos inspirados, é melhor que muito ganhador de Oscar.

 
Katherine Graham e Ben Bradlee 

COTAÇÃO:



THE POST: A GUERRA SECRETA (The Post, 2017)
Com: Meryl Streep, Tom Hanks, Bob Odenkirk, Bruce Greenwood, Carrie Coon e Sarah Paulson.
Roteiro: Liz Hannah e Josh Singer
Fotografia: Janusz Kaminski
Montagem: Michael Kahn e Sarah Broshar
Música: John Williams

INDICAÇÕES AO OSCAR:
Melhor filme
Atriz: Meryl Streep

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