quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Os Filmes do Oscar: A FORMA DA ÁGUA - 13 indicações


Por Ricky Nobre


Guillermo del Toro criou dois mundos bem separados para sua carreira: o mundo hollywoodiano dos blockbusters, com filmes como Blade 2, O Círculo de Fogo e Hellboy, e seu mundo pessoal de filmes de autor, em A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno. E é justamente de mundos separados que, em alguma forma e medida, se espelham e se tocam que é constituída essa sua filmografia mais autoral. E se Truffaut e os garotos da Cahiers estavam certos em sua “teoria do autor” lá na década de 1950, como autor del Toro está fadado a, enxergando bem no âmago destas obras, fazer sempre o mesmo filme. 

 

À semelhança de Labirinto do Fauno, del Toro tem novamente uma heroína. E se desta vez é uma adulta em vez de uma menina, a inocência, bondade e coragem da personagem se mantém. Elisa (Sally Hawkins) é uma mulher muda, solitária, tímida e sonhadora que trabalha como faxineira num centro de pesquisas do governo. Suas únicas companhias são a colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer) e o ilustrador Giles (Richard Jenkins) com quem divide um pequeno apartamento. Quando um misterioso ser anfíbio é capturado pelos militares e levado ao laboratório, Elisa fica fascinada com sua presença, apesar de todo o perigo que é atribuído a ele. Entre a curiosidade dos cientistas, a crueldade do chefe de segurança Strickland (Michael Shannon), o pragmatismo dos militares e até espiões russos, o destino incerto da criatura pode estar nas mãos da doce faxineira. 

 

A água na qual o mais novo filme de del Toro está mergulhado é formada quase inteiramente de inocência, solidão e nostalgia. Elisa é uma personagem impecavelmente construída, magistralmente interpretada por Hawkins. Logo na primeira sequência, sua rotina matinal, incluindo todos os maneirismos da personagem ao executá-la, dá à Elisa uma irresistível fofura, que persiste aos olhos do público até mesmo quando ela fica completamente nua e masturba-se na banheira como parte desta rotina diária. Tudo o que Elisa faz é fofo, doce e com uma constante aura de inocência, até em sua sexualidade, o que é uma impressionante façanha de se realizar sem entediar o público antes da metade do filme. 

 

Em geral, todo o elenco do filme é impecável e carrega seus personagens nas costas quando eles não passam de acessórios à trama, como é o caso da Zelda de Spencer e do Strickland de Shannon. Este, aliás, dá força a seu vilão quase que apenas por méritos próprios, ao interpretar o verdadeiro monstro do filme. Seu chefe de segurança, porém, perde muito em dimensão e em capacidade de aterrorizar se comparado ao Capitão Vidal de Labirinto do Fauno. Mas Shannon faz o melhor que pode e mais um pouco. Doug Jones, como sempre faz em papéis como o Abe de Hellboy, o Fauno de Labirinto do Fauno e o Surfista Prateado de Quarteto Fantástico, dá um show de interpretação debaixo de grossas camadas de maquiagem, sendo referência absoluta neste tipo de trabalho. 

 

Aliados ou inimigos, todos os personagens compartilham uma característica em comum: embora estejam interligados e suas vidas e destinos se cruzem, a solidão faz parte da vida de todos. Não apenas Elisa e a criatura, mas Giles, sendo um velho homossexual na década de 60; Strickland que, carregando uma raiva e insatisfação constantes, praticamente não se relaciona com sua família perfeita de comercial de margarina; Zelda, cujo marido a ignora; e o cientista Hoffstetler, cujas decisões o isola de seus aliados. Essa solidão dá uma melancolia à história que é bastante suavizada por toda inocência e clima de conto de fadas impresso por del Toro. 

 

Tal clima também se vale da nostalgia evocada não apenas pela ambientação dos anos 60, mas também pelas próprias referências de Elisa, mergulhada em nostalgia em seu tempo, uma vez que todos os filmes que vê e as músicas que ouve são dos anos 30 e 40. A fotografia belíssima do dinamarquês Dan Laustsen, com uma paleta firmada principalmente no verde, constrói uma atmosfera idílica, avessa à frieza da guerra silenciosa entre EUA e URSS e dos homens que a travam. A música do francês Alexandre Desplat (compositor de maior ascensão em Hollywood na última década) é estruturada de forma bem “old school”, com dois temas proeminentes, usados de forma consistente como leitmotiv: o principal, ouvido como um assovio do próprio Desplat, e um tema para Elisa, executado por diversos instrumentos mas, principalmente, por acordeom. Essa “francesice” de Desplat, mais a fotografia de Laustsen, mais a heroína doce e solitária que gosta das pessoas, acabam dando um clima meio Amelie Poulain, que pode não cair bem para o gosto de alguns. De fato, o mexicano del Toro fez nos EUA um filme europeu. Sendo honesto, é o tipo de coisa que a Academia adora, e não será surpresa se ele arrebatar diversas das 13 estatuetas a que está concorrendo.

 

Apesar de A Forma da Água ser o mais comercial dos filmes de arte de del Toro, não há porque imaginar que ele foi realizado com olho em bilheterias ou em Oscar. Em seu agradecimento pelo Globo de Ouro, ele agradeceu emocionado aos monstros que “salvaram sua vida três vezes”, em referências às criaturas fantásticas de A Espinha do Diabo, Labirinto do Fauno e agora A Forma da Água. Ele realizou um filme verdadeiramente adorável, surpreendente na ousadia com que, sem medo do ridículo, leva o relacionamento entre Elisa e a criatura a um nível inesperado. Se Zelda e, principalmente, Strickland fossem personagens mais profundos e estruturados, como Elisa e Giles, seria um filme bem mais perto da perfeição. Ainda que, sob olhos mais severos, não passe de uma salada que mistura A Bela e a Fera, O Monstro da Lagoa Negra, Amelie Poulain e o próprio Labirinto do Fauno.

 

COTAÇÃO: 

A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water, 2017)



INDICAÇÕES AO OSCAR:

Melhor filme

Diretor: Guillermo del Toro

Atriz: Sally Hawkins

Ator coadjuvante: Richard Jenkins

Atriz coadjuvante: Octavia Spencer

Roteiro original: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor

Música original: Alexandre Desplat

Montagem: Sidney Wolinsky

Fotografia: Dan Laustsen

Figurino: Luís Sequeira

Edição de som: Nathan Robitaille e Nelson Ferreira

Mixagem de som: Christian Cooke, Brad Zoern e Glen Gauthier

Direção de arte: Paul Denham Austerberry, Shane Vieau e Jeff Melvin

Um comentário:

Luciana Sousa disse...

Esta historia é muito interessante, eu gosto muito deste tipo de roteiro, te mantém no suspense até o final. Michael Shannon fez um ótimo trabalho no filme. Eu vi que seu próximo projeto, Fahrenheit 451 será lançado em breve. Acho que será ótimo! Adoro ler livros, cada um é diferente na narrativa e nos personagens, é bom que cada vez mais diretores e atores se aventurem a realizar filmes baseados em livros. Acho que Fahrenheit 451 sera excelente! Se tornou em uma das minhas histórias preferidas desde que li o livro, quando soube que seria adaptado a um filme, fiquei na dúvida se eu a desfrutaria tanto como na versão impressa. Acabo de ver o trailer da adaptação do livro, na verdade parece muito boa, li o livro faz um tempo, mas acho que terei que ler novamente, para não perder nenhum detalhe. Sera um dos melhores filmes de ficção cientifica acho que é uma boa idéia fazer este tipo de adaptações cinematográficas.