sábado, 10 de fevereiro de 2018

Os Filmes do Oscar: EU, TONYA – três indicações


Por Ricky Nobre


Em 1994 ouve um grande escândalo no mundo olímpico envolvendo a patinadora americana Tonya Harding. Ela supostamente teria mandado quebrar o joelho da adversária Nancy Kerrigan num caso que tomou não apenas os noticiários esportivos mas, principalmente, os tabloides de fofocas que transformaram todo o caso num imenso circo. Ouve investigações, julgamentos, condenações e, é claro, guerra de versões. Como é comum em filmes baseados em fatos, não se pode levar o que se vê em Eu, Tonya como verdade absoluta. O filme, porém, dá conta disso de forma muito inteligente. Baseado em sua maior parte em entrevistas com Tonya e seu marido Jeff Gillooly realizadas pelo roteirista Steven Rogers, o filme tem no próprio título a definição de sua proposta: ele é a versão de Tonya de sua vida e dos acontecimentos. 

 
 "Eu fui feliz, por um minuto..."


Assim, vemos Tonya desde os quatro anos exibindo um talento fora do comum em patinação no gelo e ganhando sucessivas competições sob o rigor dos cuidados da mãe que, se por um lado trabalha até a exaustão para pagar o treinamento da filha, também é terrivelmente abusiva com a menina, tanto física quando psicologicamente. A saga de Tonya mostra que sua personalidade dura, difícil e até antipática foi forjada por anos de abuso da mãe e do marido, onde a violência era a linguagem corriqueira. Seu estilo caipira, pouco refinado e cafona era esnobado pelos juízes das competições que, a partir de determinado momento, passaram a empacar o avanço da carreira de Tonya, pois ela não se enquadrava no ideal feminino de comportado que deveria ter. 


Uma vez que as entrevistas de Tonya e Jeff divergiam em absolutamente tudo (segundo Rogers, eles sequer lembravam do primeiro encontro da mesma forma), o roteiro se utiliza de humor (muito) ácido, um vocabulário capaz de ruborizar Tarantino e, em diversos momentos, contrasta versões divergentes de como eventos aconteceram, muitas vezes utilizando a quebra da quarta parede. Com imensa habilidade, o diretor Craig Gillespie conduz seu excelente elenco numa corda bamba perigosíssima, ao fazer o público rir em momentos de chocante abuso e violência doméstica envolvendo Tonya (Margot Robbie), sua mãe LaVona (Allison Janney) e o marido Jeff (Sebastian Stan), para, apenas no momento exato, substituir o humor pelo choque e pelo drama. 

 

A forma como Gillespe conduz o filme é incrivelmente ousada e arriscada. Ao contar a tragédia de Tonya como uma comédia ácida, ele enfatiza os absurdos da vida real, principalmente a profunda estupidez dos personagens. É possível o espectador, em algum momento, achar que se confundiu ao pensar que estava vendo um filme baseado em uma história real, pois coisas como aquelas simplesmente não podem acontecer! Mas acreditem: os momentos mais fiéis à realidade são justamente os mais absurdos. 


Nesta “história repleta de idiotas”, como um personagem chega a dizer, Tonya volta e meia transita entre as fronteiras de vítima e agressora, ainda que sua posição majoritária de vítima seja bastante clara desde a infância. Agressiva, grosseira, antipática, não é nada fácil simpatizar com Tonya, e ainda assim, seu drama emociona, tamanha a precisão do roteiro, da direção e da sensacional interpretação de Margot Robbie que torna Tonya uma anti-heroína cinematográfica a ser lembrada por muitos anos. 

 

As merecidas indicações para Robbie e Janney, além de para a sofisticada e inteligentíssima montagem, deveriam ter sido acompanhadas pelas de melhor filme, roteiro e diretor. Eu, Tonya conta a história de uma mulher que foi vítima de abuso e violência durante toda a vida, da mãe, do marido, dos juízes, da imprensa e que foi punida pela lei e pela vida de forma desproporcional. Tonya não se encaixava no “jeito certo” de ser mulher. As últimas cenas, especialmente, são um soco nas tripas. Certamente, um dos melhores filmes do ano e que continua assombrando o espectador por dias.

 

COTAÇÃO: 
EU, TONYA (I, Tonya, 2017)

Com: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson e Paul Walter Hauser

Direção: Craig Gillespie

Roteiro: Steven Rogers

Fotografia: Nicolas Karakatsanis              

Montagem: Tatiana S. Riegel     

Música original: Peter Nashel     



INDICAÇÕES AO OSCAR:

Atriz: Margot Robbie

Atriz coadjuvante: Allison Janney

Montagem: Tatiana S. Riegel


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